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AARON WALKER
Ultimato

Existia um botão na minha cabeça.
Uma merda que tinha o poder de deixar a mente em branco e colocar a
raiva no comando. O motivo de me chamarem daquele apelido idiota, de
temerem a mim. O motivo de fazer o que eu fazia sem remorso, o
responsável por não haver delimitações em meus impulsos.
Eu o estava usando agora, apertando com tanta força que já não sentia
minha humanidade. Tudo para chegar a um fim, cumprir uma tarefa.
Coloquei a mão pelo rombo que fiz na porta, atravessando as pontas
afiadas dos restos da madeira oca. Eu podia sentir a frieza do metal do trinco,
agarrei e rasguei aquela merda, deixando cair lá dentro. O tinido ecoou pelo
espaço como um anúncio de que eu estava entrando.
Empurrei o que sobrou da estrutura e dei um passo para dentro. A luz
da lua entrando pela janela era suficiente para que meus olhos se ajustassem à
penumbra enquanto buscavam por ela. O silêncio era ensurdecedor, e o único
som perceptível vinha do uivo dos ventos.Lá estava ela. A silhueta esguia se ergueu e, à medida que me
aproximei, deu alguns passos para trás até encostar na parede.
Eu não via seu rosto nitidamente, a escuridão nos engolia, mas os
traços já estavam cravados em minhas pupilas. Era como se sua silhueta me
mostrasse cada microexpressão e, com certeza, ela também via as minhas.
— Parece que brinca comigo. Ama brincar comigo. — Deixei sair
como um grunhido. — Mente e não foge, não faz jus à rata que é. — Bati o
machado no chão e vi quando estremeceu. — Assina a sentença de morte e
aguarda que ela vá até você. — Mais um passo na direção dela e a vi tocar
em algo na cintura. — Eu não ousaria se fosse você. — Cheguei mais perto e
estendi o braço, tocando na parede atrás dela. Podia sentir sua respiração
alcançar minha pele de tão intensa. — É melhor aceitar e vir comigo. Vou
fazer você sentir o que é dor — sussurrei. — Dor de verdade.
Fechei a boca e ela passou por baixo do meu braço, quando me virei,
tentou me acertar. Segurei seu punho e parei a tentativa de me dar um soco.
Induzi seu corpo de volta à parede e segurei a cabeça dela com as duas mãos.
A minha foi para trás e voltou acertando sua testa, dando um fim àquela luta.
Meus olhos caíram sobre os dela e assisti a eles revirarem, pálpebras se
fechando lentamente, perdendo os sentimentos. Eu a fiz apagar.
Eu a apaguei, mas ainda mantinha a mão em sua nuca, como calço.
Eu a apaguei, mas amparei sua cabeça antes da queda, colando nossas
testas.
Eu a apagueiar, mas permaneci ali, sentindo a respiração desacelerar e
ficar estável.
Precisava apertar um pouco mais o botão. Aquilo era uma maldita
fraqueza. Assim que o fiz, como uma corrente rompida, me desvencilhei de
sua testa, sentindo sua cabeça cair para o lado e pousar no meu ombro.
Ergui-a, colocando seu corpo inconsciente sobre meus ombros, e o peso
dela se fez sentir. Segurei as pernas contra o meu peito e na outra mão,
mantive firme o machado.
Quando girei, percebi, em um dos cantos do lugar, Megan observando
tudo, tal como uma criança acuada com medo de ser a próxima.
— É melhor sumir daqui enquanto tem chance. — Foi a única coisa
que deixei escapar antes de passar para fora.
A escuridão do corredor da irmandade era profunda, mas meus olhos já
se acostumavam a ela. Era como trilhar por meu habitat natural.
Relaxei o braço que levava o machado e o arrastei pelo trajeto,deixando a porcelana marcada. À medida que nos movíamos em direção à
saída, a luz fraca lá fora começava a se filtrar, delineando a forma dos
corredores.
Desci as escadas, sentindo seus cabelos voarem por minhas costas e os
braços balançarem a cada passo dado. Ao alcançar o limite do pavilhão, os
contornos dos meus amigos se tornaram visíveis.
Era óbvio que apareceriam. Óbvio que sabiam quem era o autor
daquele apagão, do aviso em códigos, da energia caótica que pairava no
Campus.
— Bloquear meu caminho é uma má ideia — avisei, o tom sombrio
cortando o silêncio. Eles sabiam quem estava ali, não ousariam debater.
Benedete até tentou falar, mas um olhar duro bastou para silenciá-la. O
machado reluzia, um aviso não verbal do que eu estava disposto a fazer caso
dessem um passo na minha direção.
— Não se metam — declarei com uma firmeza inabalável. — Isso é
entre ela e eu. — A ameaça pairava no ar, e, diante da minha determinação,
recuaram.
Passei por eles, levando Brianna comigo, e a escuridão nos envolveu
pelo trajeto aos fundos do lugar. Depois de amarrá-la a uma árvore, bem
como o local da morte do meu irmão, estudei seus traços, esperando que
acordasse.
Foi o meu erro.
Olhar para ela, me lembrar de coisas, momentos…
Eu tinha sede de sangue, mas não o que corria naquelas veias. Sabia
que deveria matar alguém, mas não aquele alguém.
Não até o momento em que admitiu ter me enganado.
Me equilibrei novamente, buscando a raiva do mais profundo.
Essa vadia me enganou!
A escuridão da noite envolvia os fundos da universidade, apenas a lua
lançava uma luz fraca sobre nós. Brianna estava amarrada à árvore, sua
expressão revelando confusão ao despertar naquele ambiente desconhecido.
Permaneci nas sombras, observando cada movimento dela com olhos
intensos.
O silêncio era tangível e quebrado apenas pelo sussurro das folhas
movidas pela brisa noturna. Seus olhos, gradualmente, ajustaram-se à
escuridão, e quando percebeu a situação, tensão refletiu em seu rosto.
— Aaron, por favor… — Tentou mover os braços. — O que vai fazer?
— Meu olhar permanecia fixo nela.
Puxei o machado para perto e vi quando entrou em desespero.
— Sinto muito… — Esforçou-se para falar sem que a voz tremesse. —
Segurei os cabelos dela com força.
— Sente mesmo? — Meus dentes rangeram.
— Sinto! — Quando gritou, gotas de chuva começaram a cair sobre a
terra. A luz da lua delineava seu rosto, revelando algo que nunca vi antes. —
Aaron, se eu pudesse escolher, eu…
— Você o quê?
— Não teria feito isso… — sussurrou como se dissesse a si mesma, e
fechou os olhos.
— Foi por isso que ficou? Aceitou ser torturada porque sabia que
merecia, é isso? — Meu tom de voz denunciava o quão transtornado eu
estava.
— Fiquei por outro motivo! — pontuou, séria. — Mas, com o passar do
tempo… você se tornou esse motivo. — Olhei em seus olhos. — Estaria
mentindo se dissesse que não me senti dependente de alguma forma.
Protegida, mesmo que de um jeito tóxico. Livre — falou e minhas narinas se
dilataram. — Me senti livre com você. — Abriu um sorriso em meio ao
choro.
A chuva começou ficar mais intensa, gotas agressivas batiam na pele
anunciando uma tempestade, e, junto dela, meu coração idiota palpitava
diante daquelas palavras.
— Me enganou — falei entredentes e, puxando os fios de seus cabelos,
apertei o cabo do machado.
— O que você vai fazer? — ciciou com os olhos marejados.
— O mesmo que fez comigo. Estraçalhar seu músculo cardíaco.
Ergui o instrumento, o metal afiado cortou o ar. Brianna tinha os olhos
cintilando de medo, vidrados na minha direção. As sobrancelhas se franziam
para cima e contrastavam com os lábios trêmulos. Suas roupas já colavam na
pele devido à chuva e se embolavam sobre o corpo frio.
Parei com o braço lá em cima e ela soluçou.
— Acaba logo com isso…
— Diz que foi um acidente — murmurei. — Fala que ele tentou te
matar primeiro e só se defendeu…
— Por que eu diria isso?
— Estou procurando motivos para não… — Quando senti minhas sobrancelhas ondularem, virei o rosto e travei o maxilar. Silêncio. Seus
soluços e o temporal que vinha do céu se misturavam. Fechei os olhos. —
Conseguiu superar as maiores atrocidades que já me alcançaram, Brianna —
sussurrei. — Superou todas elas. — Ela apertou os olhos, chorando, e deixei
o machado cair junto à fortaleza que construí ao meu redor. — Não achei que
sentiria tanto até me ver obrigado a te matar e… Por quê? — Olhei para ela e,
com os olhos molhados, bati na árvore. A dor rasgava meu peito, uma lâmina
fria cortando através das camadas que eu mantinha intactas por tanto tempo.
— Por quê? — gritei, um rugido selvagem ecoando pelo lugar. Brianna
chorava. — Por que fez isso? — Deixei escapar um soluço agressivo e
abaixei a cabeça. — Esse não sou eu. Não falo assim, não digo o que sinto e
não… — Suspirei. — Que merda fez comigo? — Segurei os ombros dela. —
Desfaça! — Sacudi seu corpo. — Desfaça isso, porque… dói.
— Me desculpe… — ciciou, fungando.
Eu mirava seus olhos quando, pelo reflexo deles, vi alguém se
aproximar.
— Ela não matou seu irmão. — Me virei para ver Meg, de pé, com as
mãos unidas em meio à tempestade. — Brianna mentiu para proteger e dar
tempo ao pai dela!
— Megan! Para! — Ela começou a se contorcer e senti que a corda
escorregava de seus punhos molhados.
— Isso é verdade? — A rouquidão se apossou de mim. — O que ela
disse é verdade, Brianna?
Seus punhos se livraram das amarras e, olhando nos meus olhos,
tentou escapar de mim. Eu a apertei em meus braços, sentindo a pele fria e
trêmula, impedindo que desse sequer um passo.
— Fala pra mim… — Soou como a porra de uma súplica.
Senti que faria de tudo para ouvir uma confirmação sair de seus lábios.
Isso tiraria um peso das minhas costas. Me faria acordar de um pesadelo.
Ela não o fez.
— Aaron, me deixa ir ..
— Não. — Ela tentava escorregar e eu a apertava. — Não vou deixar.
— Aaron… me solta, por favor… me deixa… — Pareceu desesperada.
Como se tivesse que ir, quisesse ficar longe.
Sabendo que aquela seria uma da maiores burradas da minha vida,
soltei. Ela saiu cambaleando, apressada, sem ao menos olhar para trás, e eu
fiquei no gramado, me perguntando o porquê.Por que fazer isso?
— Eu sei o porquê — Megan falou, como se lesse meus pensamentos, e
eu a encarei, me lembrando que estava ali.
Que era a fonte de respostas às minhas perguntas.

Dêem ⭐

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