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BRIANNA ABERNATHY
Calouro

Eu apaguei.
Apaguei sem respostas, e quando acordei, ele já não estava mais lá.
Meu corpo ainda parecia trêmulo, as marcas das correntes latejavam em
minha pele, enviando eletricidade por todos os meus ossos.
O quarto estava silencioso e parecia estar intocado, mesmo depois do
que fizemos ontem. Ajustei a camisa amarrotada no corpo, peguei minhas
roupas da noite passada e saí de lá em direção ao alojamento feminino, com a
cabeça a mil.
Tinha acontecido de novo. Pela segunda vez, era porque eu queria,
provoquei e me entreguei a ele. Suspirei. Naquele momento, achei que nada
poderia ser pior do que meus pensamentos tentando sufocar a pouca sanidade
que me restava, no entanto, pelos corredores, um movimento absurdo e
buchichos por todos os lados me chamaram a atenção.
Na minha cabeça só se passou uma coisa:Ele espalhou o vídeo por todo o Campus.
Me aproximei de um círculo de garotas e uni as mãos, apreensiva, antes
de perguntar.
— O que houve? — Uma delas mal me deu atenção enquanto
respondia.
— Alunos novos chegando. — Foi o suficiente para que eu soltasse um
suspiro de alívio, mas a estranheza ainda estava lá, não consegui conter.
— E estão nesse alarde todo por conta de novos alunos? — Ela me
olhou de cima a baixo e se afastou junto às outras.
Enquanto caminhava, os sussurros sobre novos universitários
ganhavam força e me entregavam uma tranquilidade genuína que quase não
me coube no peito. Puxei as pontas do meu cardigã e cruzei os braços,
seguindo o corredor até o quarto.
Estava tudo bem até eu voltar a pensar naquilo.
Ele não fez a merda que achei ter feito. Mas ainda tem a gravação, e
eu não faço ideia de qual é sua intenção.
Pude jurar que vi nos olhos dele o reflexo da mágoa. Ter dormido
comigo, gravado tudo e sumido pela manhã mais parecia uma revanche.
Como quem paga com a mesma moeda. Mas, no caso do Alien, o troco seria
maior, e eu temia isso mais do que tudo.
— Aí está você. — Meg surgiu na minha frente, antes dos meus dedos
sequer tocarem a maçaneta.
— Meg, preciso de um banho! — falei, impaciente. Previa que seria
arrastada para fazer alguma coisa no campus.
— Cinco minutos e descemos para a apresentação do corpo estudantil.
— O quê? — Meu cenho se franziu como nunca, diante da morena de
olhos brilhantes.
— Vamos receber mais calouros nesse semestre! — disse, empolgada.
— Sempre há uma programação. Na sua vez, você só não viu, porque
esteve…
— Não precisa me lembrar disso — afirmei, como se não tivesse vivido
algo parecido na noite passada.
— Vai, anda, anda.. não quero me atrasar. Soube que a maioria são uns
gatinhos. — Meus olhos se reviraram e corri para o banheiro. Ela seguiu para
dentro do quarto também. — Fique impecável, Líder. Você vai representar a
irmandade — completou e pisquei algumas vezes, me olhando no espelho.
Precisava limpar mais do que a pele; precisava limpar a minha cabeça de Aaron Walker, caso quisesse conseguir falar em público depois daquela
noite.

AARON

O vento frio do Brooklyn varria meus cabelos como um infeliz, quando
desci do carro em frente à Booking e pisei na calçada.
Os babacas já estavam lá dentro bebendo e não demorou para que eu
também me jogasse em uma das cadeiras, depois de acenar para o Boo, o
dono da lanchonete.
Atirei minha máscara junto da bolsa, que tinha o zíper quebrado, ao
meu lado. O dinheiro deslizou pela borda sob nossos olhos.
— E claro, Aaron Walker vence com a maior quantia roubada para
variar — Ryus murmurou e bateu o copo na mesa, mostrando a personalidade
falante que só dava sinal de vida quando ele ingeria uma certa quantidade de
álcool.
— Ainda nem contamos, babaca — Benedete rebateu, teimosa como
sempre.
— São feixes de cem dólares. Nós só ficamos com a parte queimada
que foi dispersa. Você sabe disso, Benedete. Segura o espírito competitivo aí
— Brandon pontuou.
— Tanto faz. — Ela piscou algumas vezes enquanto eu abria uma
garrafa de bebida no dente. — Pensei que tinham pegado você. Demorou
para aparecer.
— Olha bem pra minha cara e diz que está brincando. Só sou pego nos
seus sonhos, ruiva.
— Acha que algum deles nos seguiu registrar alguma coisa? —
perguntou. — Ficamos um tempo fora da pista. Estou sentindo todo mundo
meio enferrujado. — Olhei para ela com a sobrancelha erguida. — Menos você, chefe. — Tomou um gole da própria bebida.
— Não registraram nada. Ryus fez um bom trabalho. — O loiro
acendeu um cigarro e se recostou na cadeira.
— Há quanto tempo que não corríamos para cá, depois de uma dessas?
Parece fazer décadas — falou, abrindo a brecha que a ruiva precisava.
— Se for considerar o tempo que o Alien voltou a falar com irmão, de
fato, demoramos para voltar a ser uma equipe como antes. — Ela colocou os
cotovelos sobre a mesa, me observando. — Conta aí, Alien. John aceitou o
seu pedido de desculpas, mas proibiu as amizades?
— Por isso iam tanto contra ele? Ciúmes? — Ergui uma sobrancelha.
— Voltei a falar com John aos poucos. Ele ainda tinha traído o sangue da
minha família, mas era meu irmão e o único ainda ativo no meio. Vocês só
pensavam em vender merda naquela droga de universidade.
Puxei o celular e, depois de bater os olhos no vídeo congelado em uma
frame de Brianna completamente nua, bloqueei a tela novamente.
— O que tem aí? Você não desgruda disso. — Benedete tentou arrancar
algo de mim e lhe dei meu mais sincero silêncio. — Espero que não esteja
vendo pornografia.
— Não sou o seu tio, ruiva.
— Ha-ha. Muito engraçado. — Foi a vez dela puxar o próprio telefone.
— Tá sabendo que alunos novos serão transferidos para a universidade? —
Diante da pergunta, abri um pouco mais as pernas e cruzei os braços.
— Sempre sei de tudo, mas isso…
— Você não soube. — Ela ergueu o telefone.
— Quando chegam e de onde estão vindo? — perguntei, sério.
— Chamam de Chicago, hoje. Novas matrículas, quartos sendo
liberados… Acho que te deixaram de fora dessa reunião, chefão — ironizou
enquanto eu via a notícia sendo propagada no grupo da irmandade por vadias
e mais vadias assanhadas. — Quem é que passa essas informações mesmo? O
líder da fraternidade?
— O líder daquela merda sou eu. Aquele imprestável só tem o título
para efetuar projetinhos idiotas que eu nunca faria.
— E te deixar informado… coisa que não parece estar funcionando —
completou e apertei o maxilar bem na hora que mais alguém chegou, me
chamando com um aceno na porta.
Era Tom. Quem supervisionava o Brooklyn para mim.
Mal saí e ele já começou falando.— Os caras trouxeram boatos de movimentos.
— Do que se trata? — Me animei. Nossas buscas pelo porco estavam
caminhando bem, depois que saquei a jogada do governador de merda.
— É superficial e pode não ser verídico, mas… — Estendeu uma folha.
— Alguns homens de Salvatore estiveram nesse ponto. — Averiguei o nome
do bairro. Lugar nobre, mas com pouco movimento. Ficava na margem do
burgo, na divisa entre Brooklyn e Manhattan. — Levavam sacolas,
aparentemente mantimentos. Se o delegado estiver lá, vamos saber.
— Com cuidado. Não quero que a dupla de patetas saiba que saquei
sobre estarem com o porco. O governador acha que me ludibriou.
— Claro. — Pigarreou. — Até porque tem mais uma coisa. —
Coloquei minha atenção nele. — Também soubemos que o Salvatore está
encaminhado mais um para vigiar você. Pelo visto, estão desconfiando.
— Mais um? — Franzi o cenho. — Tudo isso para me impedir de
encontrar o porco Abernathy?— Era um tremendo exagero, já que ele me
tinha como um delinquente tampa buracos.
— É a única explicação — Tom pontuou e eu ri.
— O governador gosta de brincar com a minha paciência, mas ele não
conhece os meus limites, até porque não tenho limites. — Funguei. — Para
onde vão mandar o infeliz da vez?
— Achei que saberia.
— Ele foi vago nas informações da última vez que estivemos cara a
cara. Sabem de alguma coisa?
— Aparentemente, sua nova babá estará no campus — falou e estreitei
os olhos.
— Na Libert? Ele já colocou uma perua lá para me acompanhar de
perto, tem certeza disso?
— Foi o que eu soube.
Dilatei as narinas, possesso.
— Vou cuidar disso. Dar um basta nessa merda.
Fosse lá o que o governador e o abutre estivessem aprontando, não era
coisa boa. Não sabia o porquê de tanta insistência em me vigiar, e estava
começando a ficar irritado com aquilo.
Tanto que, em um instante, estávamos eu e os babacas no inferno
chamado Libert University, onde eu averiguava cada detalhe, como um
soldado pronto para atacar.
— Depois da conversa com o Tom, você se interessou pelos movimentos estudantis ou é impressão minha?
Mal ouvi Benedete tagarelar. A Abernathy estava na frente da
recepção, como líder da irmandade, e fisgava toda a minha atenção, com
aquele uniforme emoldurando o corpo e cabelos ondulados, quase cacheados.
Olhei ao redor, a fraternidade de merda juntava seus jogadorezinhos de
hóquei em uma fila e o auditório era tomado pelo musical franzino, dando
início ao evento tedioso que faziam para receber os calouros todas as vezes,
mas aquilo era algo novo. Era uma turma atrasada, o que só reforçava o fato
de que era uma ação para inserção de um espião em nosso meio. Fiquei
atento, os rostos de calouros se misturavam no movimento.
— O que você tá farejando? — Brandon murmurou a pergunta que com
certeza não deixava nenhum deles em paz.
— A nova babá.
— Então mandaram mais? — A ruiva se adiantou, curiosa. Fiquei em
silêncio, trabalhando em uma inspeção. — É… eu iria mandar tomar cuidado
no banho. Um deles pode estar te observando no cantinho do box, mas já sei
qual seria a sua resposta. — Ergueu a sobrancelha.
— Algum suspeito? — perguntou Brandon e não respondi.
Brianna tinha começado a discursar. Sua voz conseguia entrar no meu
cérebro de alguma maneira. Era estúpido o que passava pela minha cabeça
quando a via. Daria um filme se registrasse e com certeza terminaria de
chutar cinquenta tons para a lata de lixo.
Era uma vadia gostosa pra caralho. Vivia na minha cabeça desde a
primeira vez, mas estava mais intenso agora, depois do que fizemos.
Ela me percebeu encarando e virou o rosto. Aparentemente, voltou a
me ignorar depois da última noite.
Quem estava magoada agora, ratinha?
Seu discurso acabou e seguida por uma salva de palmas, ela desceu do
palco do auditório. Percebi que um infeliz estava indo em sua direção.
Pinta de almofadinha. Mãos nos bolsos. Conseguiu minha atenção. Eu
farejava seu sangue podre perto do dela.
Era ele. O merdinha enviado pelo abutre Salvatore.
Chamei Benedete e seguimos até lá. Minha cabeça começou a
esquentar enquanto passamos pelo amontoado de universitários. Eu só tinha
uma certeza: fazer o infeliz conhecer o chão, antes de sequer estender a mão
para cumprimentá-la. Mas, antes que eu o fizesse, ele abriu a boca.
— Você é a líder da irmandade? — Sorriu e começou a erguer a mão.— Filippo Salvatore, muito prazer.
O abutre havia mandado o próprio filho.

Dêem ⭐

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