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BRIANNA ABERNATHY   dêem ⭐

HELLO, LIBERT

Busquei minhas malas no quarto e segui para fora.
O porta-malas do carro preto lustroso se abriu no momento que pisei no
batente. Olhei para a garota de cabelos escuros e olhos brilhantes, que sorria
para mim através do vidro semiaberto.
— Precisa de ajuda com as malas?
— Não. Tranquilo!
Coloquei minhas malas lá e entrei no carro em segundos. O interior
estava impecavelmente limpo, o cheiro de automóvel novo ainda pairando no
ar.
Acomodei as mãos no colo, sem jeito, depois peguei o celular e abri as
mensagens. A garota pareceu perceber o meu nervosismo e acenou uma vez,
antes de ligar o motor.
— Bom, também fico nervosa quando conheço gente nova.
— Não estou nervosa.
— E eu também falo isso, mas a gente nunca percebe nada em nós
mesmos. — Apontou com a cabeça. — Tem chocolate na gavetinha ali.
— Não, obrigada…
— Ouve música? — perguntou, passando o dedo em um botão e um
som suave começou a tocar. — Costumo ouvir sons ambientes. — Olhou
para mim.
— É… eu curto alguns sons, mas esse é bom. Acalma.
Silêncio.
— Então… como você veio parar aqui? Vi na sua ficha que era de
Orlando.
— Meu pai veio à trabalho e, consequentemente, vim junto.
— E o que a minha colega de quarto cursa? — Ela brincou com as
sobrancelhas, esperando pela minha resposta.
— Sabe até meu endereço, achei que saberia meu curso também.
— Eles não são tão detalhistas com o que importa, e só sei de algumas
coisas a mais, porque precisei levar seus dados à irmandade. — A seta
começou a bater enquanto ela entrava em outra rua. — Ou seja, nada além do
fato de que você vai fazer dezoito anos, veio de Orlando, e se chama Brianna
Kumon…
— Brianna Abernathy Kumon — consertei.
— Como? — Piscou, o sorriso sumindo de seu rosto.
— É meu nome. O Kumon é sobrenome da minha mãe, Eliz… — Ela
freou, antes que eu terminasse.
— Você é a filha do novo delegado? — Sua fala estarreceu.
— Algum problema com isso? — Franzi o cenho.
— Deus! Por isso só você estava sobrando na lista. — Bateu na testa e
fechou os olhos. — Eu e minha síndrome de boa samaritana…
— Tá legal, de que merda você está falando?
— É complicado… — Seu suspiro me fez erguer a sobrancelha. —
Você sabe que seu pai virou o centro das atenções por aqui, né? Ele matou..
— Um criminoso. E não foi aqui, mas no Brooklyn.
— Ele matou O criminoso. O cara que comandava o Brooklyn, o Burgo
vizinho a Manhattan. — Ela apertou o volante e girou a chave devagar, dando
partida. — Acontece que o irmão do cara morto estuda na Libert.
O chão pareceu ter sumido debaixo dos meus pés.
— Por pouco você estaria de frente a um delinquente recém-reabilitado,ou quase reabilitado, do vício de ser um psicopata, tóxico, cruel… —
Inspirou fundo.
— Por pouco?
— É. O motivo de eu não ter entrado em colapso total é o mesmo que
proporcionou uma boa noite de sono aos universitários de bem na última
semana. — Olhou para mim. — Ele vai desistir da universidade, se já não
desistiu. — Soltei o ar que segurava no peito e ela fez o mesmo de forma
mais tranquila. — É, fique aliviada. Ele e os amigos eram os piores de lá.
Acho que o máximo que você vai ter será olhares curiosos.
— Com medo de sofrer bullying comigo por dividirmos o mesmo
quarto, Meg? — Forcei um riso. Ela ainda apertava o volante, nervosa.
— Quando se trata do Alien, acredite, você iria preferir o bullying e
agradeceria por isso.
— Alien… — repeti o que parecia ser o apelido do cara, e era uma
pena ter parte do meu fascínio obscurecido pelo irmão do morto. Eu amava
astronomia. Todas as vezes que pensava em vida fora da terra, o que eu mais
fazia nas horas vagas, iria me lembrar da merda toda. — Por que Alien?
— Dizem que ele é de outro planeta — respondeu, tensa. — Também
dizem que ele caiu do céu, mas nunca foi anjo e demônio algum o supera. —
Falou e me arrepiei. — Há boatos de que além da beleza de outro mundo, ele
não tem o que a psicanálise freudiana chama de controle de impulsos. —
Olhou para mim. — E vai muito além de um problema psicológico normal.
— Acho que estão exagerando…
— É… pode parecer exagero, mas nunca pensei em pagar para ver com
os meus próprios olhos. — Riu, nervosa, e engoli em seco. — Bom, como
seu sobrenome não estava em evidência, provavelmente seu pai pediu alguma
medida de segurança para você, então vai ficar tudo bem no final — falou,
parecendo que estava tentando se convencer. — E se pensarmos que você ter
ficado sem um quarto pode ter sido uma coincidência, até então só sei quem
você é de verdade. — Voltou a sorrir e começou a nos tirar da estrada
deserta.
Meu pai, aquela universidade, a conversa entre ele e o velho delegado,
a morte do cara… eu estava no meio de uma teia de mistérios, mas preferi
ignorar. Eu tinha coisas mais importantes para tratar no momento. Além de
me manter longe dos olhares curiosos, precisava saber como se faria a busca
pela minha mãe, agora que ele iria se afastar.
Olhei pela janela. A noite já havia caído sobre o campus da Libert University, lançando uma aura de mistério sobre o lugar, trazendo sombras
dançantes nas paredes e criando padrões intrincados que pareciam sussurrar
segredos há muito enterrados. A sensação só não era mais sinistra do que a de
olhar para Meg.
— Consegui te deixar nervosa — falei, aproveitando o ar mórbido.
— Não estou nervosa.
— A gente nunca percebe algo em nós mesmos. — Usei sua frase
contra ela e a vi balançar a cabeça, deixando a tensão esvair um pouco.
Quando estacionamos e as portas destravaram, suspirei.
No fim, não parecia ser tão ruim assim, mesmo que fosse tudo tão
estranho para mim, incerto e desesperador, ao mesmo tempo.
— Ah, e eu faço medicina — comentei e fechei a porta do carro,
pousando na calçada.
Minhas pernas tremeram ligeiramente. O ar gélido me inebriou e voltei
a fechar os olhos.
Ele ainda estava lá. John Walker. Morto.
E, quando os abri, sua sombra permaneceu, como se fosse real.
Pulei para trás, piscando algumas vezes. Parecia que alguém estava
encostado em uma coluna de pedra em meio ao breu.
As luzes fracas das luminárias do campus me permitiam ter um singelo
vislumbre dos olhos do estranho, e eles pareciam insanos, de outro mundo.
Me hipnotizaram para que eu permanecesse ali, olhando para ele, sem ver
mais do que me permitia.
Meg ainda estava falando — sozinha — até perceber minha inércia.
E, depois disso, mais silêncio.
O vento soprou, trazendo uma sensação de expectativa, como se tudo
ao redor segurasse a respiração, almejando assistir ao desfecho.
— Entra no carro — Meg falou, mas seu comando não surtiu efeito.
Não até que o vi se aproximar.
O reconhecimento se instalou em meu peito como um soco enquanto o
encarava com uma mistura de temor e determinação.
Ele estava lá naquela noite. Me lembrava de seus olhos, assim como da
morte, do calor intenso que parecia consumir o ar ao nosso redor quando ele
me apertou, da sensação de desespero que parecia querer me sufocar.
Eu me lembrava do ódio em ascensão desde aquele dia.
Está mais intenso hoje. Vai me matar se me alcançar.
Ele era o irmão do cara morto. O Alien.
Me virei para pegar a maçaneta, mas sua mão forte agarrou meus
cabelos primeiro e me atirou no chão.
Se eu não captasse faróis acesos e motores que rugiam, surgindo em
meio à escuridão, diria que tinha apagado ali, mas eu estava consciente, e pelo visto viveria a pior noite da minha vida.

AO CAIR DA NOITE Onde histórias criam vida. Descubra agora