36

36 2 0
                                        

BRIANNA ABERNATHY
O AMIGO DELE

Abri os olhos em um sobressalto, a tempo de ver quando saímos da
pista. O carro levantava poeira, saltando barrancos e levando galhos de
árvores pelo caminho. Eu me sentia à beira do colapso. Apagava e voltava
para apenas gritar, até que os pneus pararam.
Quando tudo acabou, parecia que eu tinha voltado de outra dimensão.
Meus cabelos embolados no rosto, suor pingando da testa, ainda suspirava
pesado e engolia com dificuldade. Minhas unhas estavam cravadas no braço
dele, completamente arranhado, mas firme embaixo dos meus seios. Folgou o
aperto do braço sob os gritos das pessoas que anunciavam um ganhador que
não era ele. Recebíamos vaias e xingamentos, mas seus olhos estavam em
mim. Não saíam de mim, mesmo que ele não tivesse dito uma palavra, e os
meus lutavam com todas as forças para permanecerem longe.
Comecei a me afastar, virando o corpo de lado e bati na porta, sem
enxergar direito por causa das luzes fortes e tremendo a cada estouro de fogos.
— Espera — falou.
Gritei por cima, rouca:
— Abre a porta! — Pude ouvir seu suspiro seguido do clique que me
fez empurrar o metal. Caí no chão em seguida, sem equilíbrio algum nas
pernas.
— Espera, Brianna. — Não sei ouvidos, comecei a tentar me levantar
quando Brandon e Benedete chegaram e me ajudaram a ficar de pé.
Minha cabeça amoleceu e caiu no ombro de Brandon. Senti que
vomitaria até o meu estômago e meus ouvidos zuniam sem descanso.
Senti a mão de Benedete pousar na minha testa.
— E o que foi isso?
— Acusticofobia. Parece que ela entrou em pânico — Brandon
explicou, colocando o dedo no meu pulso. — Posso levar ela… — Estava
zonza, mas captei quando os dois se entreolharam e a ruiva acenou.
— Cuido do Alien. — Bateu no ombro dele.
Enquanto saíamos do meio do nada e voltávamos para onde os carros
estavam, vi quando Aaron saiu do carro e atirou uma garrafa no chão.
— Ele estava bêbado? — Minha respiração voltava ao normal pouco a
pouco e me vi agarrada à porta, relutando para entrar no carro de Brandon.
— Não vou correr. Você não pode ter um treco aqui dentro ou o Alien
me mata.
— Fala o nome desse desgraçado de novo e mato você. — Bati os
cílios devagar. — E não é como se ele se importasse comigo. — O sussurro
me fez segurar o peito.
— Você viu que ele perdeu o racha? Acredite. Ele quer que você viva.
A pergunta era: para quê? Me assolar viva?
Eu não tinha respostas e ele sabia disso. Não tinha valor para o meu
pai, ele mesmo provou isso.
Já deveria ter me matado por vingança, mas não fazia. Nunca
ultrapassava o meu limite de verdade, e eu não fazia ideia do porquê.
A corrida de volta foi tensa. Sempre gostei de carros, exceto quando
precisava viajar com meu pai, mas, naquela noite, eu faria de tudo para nem
mesmo ver um automóvel na rua.
Estávamos em frente ao campus em poucos minutos. Desci do carro e
comecei uma corrida rápida até o alojamento da irmandade para só então me
lembrar de que Meg havia dito algo sobre uma festa de casamento de algum parente. Ela me mandou pegar a cópia da chave na escrivaninha um pouco
mais cedo, mas Benedete me levou antes que eu me lembrasse de o fazer.
Que você já tenha voltado… que você já tenha voltado…
Supliquei aos céus, mesmo sabendo que seria impossível. Não era nem
meia-noite ainda.
— Meg? — Bati na porta. Como esperado: sem respostas. Brandon
apareceu tal como uma sombra bem atrás de mim e dei um pulo quando ouvi
sua voz.
— Relaxa, ela deve estar chegando. Sabe pra onde foi? — Tentei
revirar os olhos, mas nem isso consegui. — Você não tem uma cópia da
chave? — Encostei a testa na porta e fechei os olhos.
— Eu espero por ela.
— Sabe que horas ela costuma voltar?
— Das últimas vezes, só no dia seguinte. Esse fim de semana, aposto
que no horário do almoço — murmurei e ele ergueu as sobrancelhas.
— Pode dormir em outro lugar.
— Qual outro lugar? — Seus dedos ergueram a chave do quarto que
dividia com Aaron. — Ele não vai voltar hoje.
— Sabe onde enfiar a proposta.
— Tudo bem, então — falou como se tivesse sido vencido, mas
permaneceu ali me olhando. Antes que eu o mandasse se foder, senti a ânsia
de vômito voltar. — Você precisa de ajuda? — Suspirei, olhando para a porta
e ele deu um passo para trás. — Não vou arrombar uma porta porque não
quer dormir em outro lugar que não seja o seu quarto, mimada.
— Mimada é o caralho! Não fico perto de nenhum de vocês! —
vociferei, engolindo a bile.
— Não sei se reparou, mas só estou tentando ser legal.
— Tá tentando ser legal por quê? Vocês são mesmo todos iguais!
— Só não vou te deixar ao relento, o Alien…
— Foda-se o Alien! Ele quer me ver morta!
— Você não o entende, não é?
— Que ele é completamente louco? Entendo, sim. — Voltei a encostar
a testa na porta.
— E por que ainda está aqui, depois de todas as chances que teve de se
afastar dele? Deve ter uma boa razão…
Parecia que não me davam trégua. A todo momento queriam descobrir
mais, saber de tudo. Aquilo já estava me dando nos nervos.— Não te interessa! — gritei e a tontura me alcançou. Segurei na
parede e ele me ajudou. — Me leva até a casa do meu pai.
— Não pode ficar sozinha. — Olhei para ele.
— Então abra essa porra!
— Você vai para o alojamento dos caras. Não vou mais discutir. Se
tiver um ataque, não quero me responsabilizar por ter te deixado sozinha —
pontuou, me arrastando de lá.
Eu sabia o porquê da insistência. O canalha só queria a oportunidade
de passar um tempo comigo.
Seguimos até lá e, quando ele abriu a porta, o aquecedor me abraçou
como um pai a um filho. Não importava mais se era o ambiente onde o infeliz
dormia, eu não sairia dali.
— O desgraçado com quem divide esse lugar, sabe que está tentando de
todas as formas que eu durma com você?
— Está aqui para que durma bem. Dormir comigo é outra história.
Desviei o olhar, me desvinculando de seu ombro e seguindo até uma
cadeira gamer em um dos cantos do quarto.
— Conta outra, filho do governador.
— Ele me mataria se soubesse que fodi você. — Seus passos o levaram
até o guarda-roupas. Brandon o abriu.
— Assim como te mataria se soubesse que bate pun…
— Não precisa falar em voz alta. — Jogou uma camisa na minha cara.
— Se quiser tomar banho… o banheiro é ali. — Apontou com a cabeça.
— Vou tomar banho. Não é uma questão de escolha, é necessidade. —
Seus braços se ergueram, apontando a porta.
— Fique à vontade.
— Neste lugar? Nunca estarei à vontade.
Meu banho foi rápido e encontrei tudo de que precisava no banheiro, o
que parecia ser um milagre. Toalhas secas, escovas de dente reservas,
sabonetes e condições normais no sanitário me deixaram de boca aberta.
Saí de lá satisfeita, mas nem tão feliz quando me deparei com Brandon
sem camisa.
— Me deu a sua última peça de roupa limpa? — perguntei, passando
para o outro lado e ele me olhou da cama, deitado com os braços apoiados
atrás da cabeça.
— Digamos que o aquecedor está muito quente.
— Abaixe a intensidade.— Não iria adiantar muita coisa, e você precisa dessa temperatura. —
Brandon se levantou e caminhou até mim. Sua mão tocou na minha testa.
— O que pensa que está fazendo? — Meu sussurro pareceu bater em
sua pele de tão perigosamente próxima.
— Conferindo a temperatura — sussurrou de volta, seus olhos caindo
nos meus.
Por um maldito segundo, ele se pareceu com o meu pesadelo de outro
planeta. Os cabelos jogados por cima dos olhos, sob a sombra do quarto, me
permitiu confundir.
Foi daquele jeito que o Alien me olhou, de cima, autoritário e
imponente, quando me viu pela primeira vez. Quando me aterrorizou e
apertou no nosso primeiro encontro naquela floresta, em um pós-inferno
vívido que caiu tanto sobre ele quanto sobre mim. Era assim que me
mantinha sob seu feitiço todas as vezes que se aproximava, e foi assim que
Brandon conseguiu me beijar.
Seus lábios fisgaram os meus em segundos e a boca fresca meio gelada
e ácida de bebida me inebriou. Mantive o corpo imóvel por um momento,
limitei um pouco a perna que queria subir e lutei para não arranhar sua nuca,
mas ele me puxou contra seu corpo com força e eu abri um pouco mais a
boca.
Brandon passeou por ela sem pressa, com a língua macia e os lábios
precisos, sua respiração cobria o meu rosto e, aos poucos, começou a
acelerar. Abri os olhos no momento que ele me prensou contra a parede e ali,
quando eu o vi, tudo desmoronou. Puxei meus lábios dos dele e ergui minhas
mãos para o afastar.
— Não dá… — Relutei, ofegante. Brandon ficou em silêncio por um
momento, regulando a respiração, até que finalmente decidiu falar.
— Fiquei chateado quando ele disse que eu não poderia pegar você —
sussurrou.
— Chateado? — Minha expressão fazia jus à confusão.
— Coisa de homens.
— Você quer dizer coisa de criança que divide brinquedo. — Passei
por baixo de seu braço e segui até a cama ao lado.
— Essa aí é do Alien… — disse, quando me viu deitar lá.
— Foda-se o Alien do inferno, essa noite é o lugar onde vou dormir. —
Ele começou a rir e ergui a cabeça para o encarar. — O que é?
— Não o odeia de verdade…
— O quê?
— Nenhum dos dois sente raiva de verdade um pelo outro. — Foi a
minha vez de rir, nervosa.
— Só pode estar cego!
— Inicialmente podem até ter sentido, mas depois ela foi convertida em
outra coisa. — Semicerrou os olhos.
— Por que diz isso?
— Me beijou pensando nele — respondeu e minha voz simplesmente
sumiu. — Você colocou os cotovelos no meu peito, antes de subir com as
mãos até a minha nuca, e ergueu um pouco a perna direita. — Começou
andar até a própria cama e o segui com os olhos. — É a marca registrada do
Alien. Prende a garota pelos punhos no peito e aperta a bunda com a mão
livre. — Ele se atirou na cama. — Saber disso é o fardo que se carrega
quando se passa muito tempo junto a um mulherengo que não mede esforços
para levar mais uma pra cama.
— E isso realmente acontece com frequência? — A pergunta saiu sem
que eu percebesse e ele gargalhou. — Não… quer dizer, não é isso que quero
saber…
— Nem mesmo negou a minha afirmação de ter pensado nele,
percebeu?
— Não pensei.
— Tarde demais para tentar refutar — falou e me recostei na cama.
Pouco a pouco o silêncio nos cobria.
— Aaron não era tão perverso assim antes do irmão ser morto. — Ele
se virou para olhar na minha direção. — A morte de John desencadeou algo
que ele escondia há um tempo.
— Mas por quê? O irmão era mesmo a única família? Soube que ele
tem uma mãe… — mencionei e Brandon se virou de bruços.
— John era o único que o entendia, assim como nós, mas a diferença
era que ele tinha o mesmo sangue — completou. — É só disso que precisa
saber.
Mais silêncio. Meus olhos começaram a pesar, e Brandon se virou de
costas para mim.
— Aaron sente alguma coisa por você, mas não é raiva. Ele sabe que a
culpa não foi sua, mas também sabe que o sangue nas suas veias é o mesmo
que tirou a vida de John. Nessa dança desgovernada, mesmo que ele tente te
odiar, sempre acaba amarrado por alguma outra coisa. Uma coisa maior. —Ouvi seu leve suspiro. — Talvez vocês sejam parecidos em algo a mais além
da loucura — acrescentou e tudo apagou.
Dormi.
A noite voou. Só percebi quando amanheceu, porque uma fresta de luz
impiedosa, que vinha de uma das janelas, acertava sua luminosidade direto no
meu olho esquerdo.
Assim que despertei, engoli o mini surto que ameaçou me dominar
quando me vi ali, no quarto dos caras. Brandon dormia tal como uma criança,
com uma das pernas para fora da cama de solteiro e o corpo meio torto.
O quarto estava silencioso, mas uma sensação de apreensão pairava no
ar. Me levantei, ajustei a camisa ao corpo, peguei minhas roupas e caminhei
devagar até a porta. Quase tive um treco quando a voz rouca dele reverberou
pelo lugar.
— Sabia que você iria tentar sair furtivamente.
— Acontece com frequência? — A pergunta soou sem graça.
— Na maioria das vezes, sou eu quem faz isso com elas. — Dei a ele
uma revirada de olhos e girei a maçaneta.
— Então espero que mais garotas te abandonem pelas manhãs. E
quando acontecer, acredite, você é suficiente e merece ter alguém na vida,
não importa o que sua mente diga naquele momento. — Ele riu e eu me virei
para sair.
Ou melhor: para dar de cara com um abismo de olhos devastadores e
energia imponente.
Aaron Walker. Parado na porta, olhando para mim.

Dêem ⭐

AO CAIR DA NOITE Onde histórias criam vida. Descubra agora