BRIANNA ABERNATHY
A chave
Conseguir um táxi, naquele horário e em meio a uma tempestade
devastadora, nunca foi tão difícil, mas eu estava disposta a tentar até
conseguir, e foi isso que fiz.
O percurso? Casa do senhor Jamar, o antigo delegado do Brooklyn.
Na minha cabeça, ele era o único que poderia me ajudar a chegar em
alguma coisa no momento, me ajudar a ter respostas, já que, depois daquela
ligação, meu pai não entrou mais em contato e não me respondia.
Ganhei o tempo que consegui. Distraí Aaron o máximo que pude, me
sacrifiquei para isso. Doeu no coração, mas fiz. E eu esperava que valesse a
pena.
Respirei fundo e fechei os olhos por um instante. O motorista se
preparava para parar e eu precisaria abrir aquela porta e correr o máximo que
conseguisse, porque não tinha dinheiro para pagar a corrida.
Ele me olhou pelo espelho do carro, um homem idoso e com marcas de
expressões no rosto. Dava pra ver que trabalhava debaixo daquela tempestade porque precisava, mas eu não tinha muito o que fazer.
E quando ele parou e pegou uma flanela para limpar o vidro por dentro,
abri a porta, pulei para fora e comecei a correr, como se minha vida
dependesse daquilo.
As gotas agressivas de chuva quase não me deixavam respirar direito,
e, quando avistei a fachada acidentada da casa de Jamar quase desmoronei de
alívio. Isso até perceber que não tinha ninguém lá e a porta estava trancada.
— Delegado Jamar? — Bati os dois punhos contra a madeira, com o
corpo tremendo.
Cruzei os braços e averiguei os arredores com os olhos atentos. Mesmo
que a chuva tornasse tudo um grande borrão, percebi que seu carro ainda
estava na garagem, uma viatura que, com certeza, já deveria ter sido
devolvida à base, mas, pelo visto, ele queria manter como algum tipo de
lembrança.
Cansada de esperar, decidi fazer o que já deveria ter feito há muito
tempo: abrir aquela porta. Passei a andar com grampos por todos os lados,
nunca se sabia quando se iria precisar, mas daquela vez estava claro que não
funcionaria. A fechadura era uma fortaleza.
— Vou ter que apelar para outra coisa. — Puxei a arma da cintura, a
chave amarrada ao cano ainda estava lá e mirei o trinco. Dois tiros e a
estrutura amoleceu, o som sendo abafado pelo ecoar da tempestade. Com
maior facilidade, dei alguns passos para trás e bati na madeira, jogando a
porta para dentro.
Meus passos ecoaram pelo lugar vazio, gotas de água marcando o
trajeto que fiz por toda a casa, para confirmar que ele não estava lá. Exausta,
me joguei no estofado. O lugar onde descansei depois que me ajudou sair do
cativeiro, no qual Aaron me mantinha.
Sem Jamar, sem respostas.
Minha cabeça começava a girar, nuances de lembranças, pensamentos e
angústias. Eu estava com o metal gelado da arma na mão, a roupa pingando,
pele fria. Passei a sentir uma agonia indescritível e me levantei.
A vontade de atirar para todo lado e descarregar a arma e aquela tensão
era desumana, não consegui evitar.
Soltei um grito de frustração e apertei o gatilho, um vaso de flores meio
secas estilhaçou. Mais uma bala e o relógio antigo de parede virou cacos.
Mas, quando mirei a estante, meus olhos captaram algo.
Me aproximei de um envelope em cima da estrutura. Era a única coisa ali, como se fosse deixado de propósito, para que quem entrasse, visse.
E de fato. Provei isso quando comecei a ler uma carta escrita por ele,
para mim:
“Não me pergunte como, mas eu sabia que você chegaria aqui antes da
polícia. Era isso ou eu não reconheceria a garota que enfiou um sanduíche e
uma arma na bolsa e saiu rumo a Aaron Walker, decidida a encará-lo”.
O primeiro trecho me arrancou um riso genuíno.
“Se estiver lendo isso, saiba que já não estou mais neste plano, e não
consegui evitar minha morte. Foi seu pai”.
Minha expressão caiu e passei a hiperventilar.
“Descobri que a operação que tanto defendia era, na verdade, uma
farsa. Ele estava envolvido em algo que se distanciava da lei. Seu pai se
contaminou, e não foi como eu, obrigado, mas por livre e espontânea
vontade.
Abernathy não gostou quando descobri e tentei convencê-lo. Não
gostou quando intervim, te ajudando. Ele queria você como alvo para
trabalhar nas sombras e conseguir ajudar criminosos. Ele me enganou, te
enganou.
Mas não vim falar somente sobre o quão abominável ele foi para com a
farda que vestia, também tenho algo que, com certeza, você gostaria de
saber.
É sobre sua mãe”.
Parei ali. Bem ali, naquele trecho, e fechei os olhos. Suspirando, voltei
a olhar para a folha, mas não enxergava nada além da ansiedade. O que me
fez ver uma localização, no final.
Associei uma coisa à outra e, sem ao menos ler o restante, corri até a
garagem. A chave estava no carro, tinha gasolina e eu tentava ligar o meu
celular ensopado.
O nervosismo me impedia de enxergar tudo, menos aquelas
coordenadas e o fato de dar a entender que eu poderia encontrar minha mãe
ou algo sobre ela naquele lugar.
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AO CAIR DA NOITE
FanfictionLivro 1 O homem mais poderoso dos EUA te ofereceu um emprego como babá. Ele precisa de ajuda para cuidar de sua doce filha, que acabou de perder a mãe. Só tem um problema. Ele nunca está em casa. Você o encontrou só algumas vezes - e há meses isso n...
