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BRIANNA ABERNATHY
DO AEU JEITO II

— E você pode consultar esses livros. — O professor apontou para uma
coleção enorme em uma das prateleiras da biblioteca, depois que pedi
algumas dicas para ir bem no teste de anatomia da próxima semana.
— Obrigada, professor. Vou começar agora mesmo.
— É o melhor que você faz. — Firmou o tom de repreensão. Só esperei
que saísse dali para suspirar e me descabelar em silêncio e à vontade.
Meus olhos bateram no diário de capa preta, o romance estava me
prendendo como nunca. Algo que nunca pensei que aconteceria. Quando eu
iria escapar para continuar a leitura, meu telefone vibrou.
Era Mavi. Eu não falava com ela há quase uma semana.
Mavi:
Eu vou matar você, Brianna!
Eu:
Não precisa. Acho que quando me
Encontrar, já vou estar morta.
Mavi:
Que merda aconteceu nesses últimos dias?
Deixa eu adivinhar, você escolheu um outro cara
problemático como par romântico.
Eu:
Nunca pensou que talvez, pelo menos
uma vez, o maluco poderia me escolher?
Levantei os olhos, Benedete caminhava na minha direção como um
furacão.
Eu:
Se eu te contar, você não vai acreditar,
então esquece. Te mando mensagem depois.
Bloqueei o telefone e comecei a me levantar depressa. Eu sabia que lá
viria problema.
— Já pode parar, pequena roedora. O Alien quer ver você — falou e
engoli em seco.
Depois daquela noite, ele não me procurou mais e eu estava evitando ao
máximo também. Nada daquilo deveria ter acontecido, e nós dois sabíamos.
Mas, agora, o que ele queria?
— Não mesmo. Não posso.
Ela segurou o meu braço.
— Você vem comigo.
— Não vai me obrigar — desafiei.
— Ah, eu vou. — Ela roçou os dedos na ponta de uma arma na cintura.
— Aaron mataria você — falei firme, como se aquilo fosse minha
maior proteção. Ela se inclinou para sussurrar no meu ouvido.
— Não sei o que fez, mas ele está com tanto ressentimento que me
mandou usar isso se fosse preciso, e como minha paciência não está em seus
melhores dias… — Apontou para a porta. — Aconselho que me acompanhe.— Posso pelo menos guardar minhas coisas? — Mostrei o meu
material com uma carranca no lugar da cara e ela acenou.
Meus sapatos bateram pela porcelana enquanto a eu seguia para fora,
submersa em pensamentos.
Eu iria. Não por não ter escolha, enganar Benedete seria fácil, mas para
saber o que o Alien estava aprontando desta vez. Até porque, se eu não
soubesse agora, descobriria de um modo pior.
Poucos minutos depois, entramos no carro e ela deu partida. As luzes
de Manhattan deram lugar à aura sombria da noite no Brooklyn no instante
que passamos pela ponte. Nem tudo ali era comandado pelo irmão do Aaron,
mas só do pedaço de terra fazer parte daquele todo, eu o sentia.
O clima frio e a escuridão lá fora só não eram tão devastadoras quanto
a sensação ruim que começava a crescer dentro de mim. Mas só pude, de
fato, ter certeza do que estava por vir quando o cheiro de combustível e
borracha queimada impregnaram o ar.
Paramos em um ponto de encontro improvisado. Carros esportivos
estavam estacionados ao longo das ruas escuras. Cada rugido de motor
parecia ser uma ameaça, uma lembrança de que eu estava no território deles,
em um pedaço sem lei, sem segurança, sem respaldo.
Desci do carro junto com Benedete e ela passou por mim com os braços
cruzados, já falando.
— O nosso líder virá até você.
Aaron, com certeza. Soube por Meg que ele lidera essas corridas
ilegais, então eu já sabia o que esperar, mas quando um dos homens
mencionou a palavra "roubo" com uma tranquilidade invejável, bem atrás de
mim, tirei a conclusão que estava na minha cara.
Aquele era o Submundo do Brooklyn, e o Alien estava em seu trono. Ia
além das corridas, além do grupo arruaceiro na universidade. Ele tomou o
lugar do irmão.
Não demorou para que os olhares dos caras ao redor me fizessem sentir
como um pedaço de carne. Os sussurros vieram logo depois.
— É a filha do porco que matou John. — Fechei os olhos quando os
ouvi cuspindo no chão.
Minhas pernas tremeram. Eu podia ter a coragem que fosse, mas estar
ali só me fazia sentir medo, e tudo piorou nos segundos seguintes, quando
pneus derraparam pela pista se aproximando.
Era ele. Entrei em pânico quando o vi. Meu corpo se encheu de tensão e pude sentir a energia caótica tomando conta de mim novamente. Quando o
motor parou um pouco próximo a nós, Aaron desceu do carro e caminhou até
mim.
Seu rosto era sério como pedra. Ele tinha marcas no maxilar que
afirmavam estar apertando os dentes e seu olhar era devastador. Sem dar uma
palavra, segurou o meu braço.
— Pra onde tá me levando? — Minha voz ondulou em nervosismo. —
Pra onde… — Ele abriu a porta e colocou a mão na minha cabeça, me
forçando a abaixar e entrar antes de bater na porta.
Assisti, impaciente, a ele dar a volta, abria a porta do lado do motorista
e se acomodava ali.
— O que você quer?
— Quero que me diga tudo. — Girou a chave.
— Você não se cansa disso? — Passei as mãos pelo rosto, respirando
fundo.
— Sei que me fez sair da casa ontem à noite para fazer o que pretendia
desde o início, sem que eu estivesse lá. — Vi quando apertou as faixas que
tinha nas mãos com os dentes e logo depois colocou um cinto duplo. —
Quero saber o que você está escondendo de mim. O que não consegui
arrancar ainda. — Sua voz era áspera. Aaron não olhava para mim enquanto
falava, mas ainda assim eu via o quão transtornado estava o seu olhar.
— Eu.. — Os sons dos motores começaram ficar mais alto, e quando
ele ligou o dele, minhas pernas vacilaram. — Não, Aaron, não quero ficar
aqui! Por favor, me deixa sair! — Minha voz soava estrangulada, mas ele
parecia não se importar. — Estou falando sério, me deixa sair. — Segurei a
porta, mas estava travada, e diante da minha aflição, ele deu partida.
Só ali, no meio do caos, enquanto uma multidão parecia berrar às
margens da pista, eu caí em mim.
Ele iria correr em um racha e estava me levando à força.
— Por que está fazendo isso? — Precisei aumentar o tom de voz para
que ao menos eu me ouvisse, pois parecia que falava e nada saía. — Você
mesmo viu que não tinha ninguém na casa. Só fui pegar algumas coisas! —
gritei, mas não obtive resposta. — Você está magoado porque chamei a
polícia?
— Vou te mostrar o que estou sentindo, ratinha. — Começou a acelerar
e meu coração apertou, procurando por oxigênio nas veias. — Só paro
quando você abrir a boca! — gritou. — Não ligo se eu morrer, contanto que você vá junto, Abernathy.
A sensação de estar presa no veículo, o som dos motores rugindo e o
barulho ensurdecedor da noite me envolvendo, tudo isso fez meu coração
acelerar descontroladamente.
O carro começou a se mover mais rápido, a velocidade aumentando a
cada segundo no ponteiro me fez arregalar os olhos. Luzes ao redor se
transformavam em um borrão colorido enquanto Aaron acelerava. Meu corpo
tremia, a claustrofobia se misturava com a acusticofobia, formando um
coquetel mortal de medo.
Enquanto eu tentava respirar, ele apertava o volante com mais força. A
sensação que tinha era de que iríamos afundar na pista a qualquer momento.
Tampei os ouvidos e, percebendo isso, ele abriu as janelas.
O vento frio chicoteou meu rosto, trazendo o som que parecia penetrar
em meus ossos. Os motores dos carros ao redor, o cheiro de combustível no
ar, o som estridente dos pneus no asfalto; tudo isso se amontoando, me
levando ao limite.
Ele ergueu a mão e ligou o som. Seu dedo começou a aumentar uma
música de rock, que ultrapassava as minhas mãos nos ouvidos.
Fechei os olhos, a tontura se apossou de mim enquanto uma pressão
selvagem me jogava para trás junto do banco. Meu corpo amoleceu e senti
que batia pelo carro, sem controle.
Abri os olhos, o grito preso saiu. O barulho era muito alto, não me
permitia pegar o controle de volta. Respirar doía. Tudo era um borrão, exceto
ele.
— Para, por favor! — Me ignorou e comecei a sucumbir,
dolorosamente.
Minha consciência desligou de novo por alguns segundos e, quando
voltei a mim, partes do meu corpo doíam por prováveis tombos. Arregalei os
olhos, a pista era um borrão indecifrável. Mais gritos rasgaram minha
garganta. Eu estava tremendo.
— Para agora, Aaron! — Forcei meu pescoço rígido a girar e percebi
que ele tinha os olhos em mim enquanto acelerava. Eram sombrios,
incontestáveis. Me causavam arrepios, me fizeram começar a chorar. — Você
não se importa tanto com seu irmão? Também tenho alguém! Alguém com
quem me importo e… faria qualquer coisa… — Apertei os ouvidos e os
olhos. — Por favor! — Meu corpo ondulou e o carro apareceu voar.
Arregalei os olhos, captando os dele. Diferentes. Menos mórbidos. Os pneus pousaram e puxei o ar que não vinha. Senti o corpo amolecer. Ele ainda
olhava para mim, quando fez as janelas subirem, e pegou alguma coisa no
colo.
Eram seus fones de ouvido, os que usava para comunicação com os
outros.
Senti sua mão tocar na minha clavícula. Ele estava me dando os fones,
talvez achasse que poderia me ajudar em alguma coisa, mas eu mal tinha
forças para manter os olhos abertos.
— Brianna? — Sua voz soou um pouco longe. — Acorda! — Ele
pareceu gritar pouco antes de pisar no freio. Eu ouvi o cantar de pneus pelo
asfalto. O vento de seus braços anunciou a manobra de mãos para girar o volante, e logo uma delas estava em mim. Me mantendo no banco.

Dêem ⭐

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