53

140 4 0
                                        

AARON WALKER
Abduction

Alguns meses depois / primeiro dia de
aula do novo semestre

Nossos olhos miravam o teto do avião, mas não um avião comum; ele era totalmente acolchoado,
desde o teto ao chão, onde estávamos deitados. Brianna segurava minha mão com força, eu sentia sua
respiração soprando suave ao meu lado.
— A estudante exemplar de medicina deveria estar na universidade agora — falei e virei o rosto
na direção dela, percebendo o cintilar dos olhos.
— Eu não vou a lugar algum, Aaron… — Seu sussurro contrastou com o riso fino e meu coração
bombeou mais forte.
Começamos a subir e a sensação de que o corpo pesava toneladas atingiu a nós dois ao mesmo
tempo. Não consegui mover um músculo.
— Parece que vou ser esmagado por mim mesmo — grunhi e ela sorriu.
— É normal em um voo parabólico. — Parecia estar adorando a sensação. — Respire devagar e
mantenha a calma.
— Mas eu tô calmo. — Tentei virar a cabeça para ela, mas só consegui fazer os olhos irem até lá.
— Então por que está apertando a minha mão? — Tiu.
— Não estou apertando a sua mão, espertinha. Só estou mais pesado que o normal.
— E eu estava zoando você! — Sua risada soou alta e com um impulso, o piloto inclinou a
aeronave e subimos um pouco mais rápido. Ela se calou e sua mão quase espremeu a minha.
— Quem está apertando a mão de quem agora? — perguntei e seus olhos se arregalaram.
— Aaron, meus pés! — Estavam subindo, devagar, flutuando. Era sinal de que alcançamos a sensação de gravidade zero.
— Uooooou! — Segurei a mão dela com mais força quando a vi, literalmente, voar, e fui junto.
— Não vou atravessar paredes! — Riu, nervosa.
— E não vou te deixar nem por um minuto — respondi. — Não quero arriscar.
A sensação era como se não tivéssemos corpo, nada que pesasse. Era como se, de fato,
pudéssemos voar.
Segurei os braços dela e a mantive perto de mim. Nossos olhos se encontraram e passei a ponta
do nariz no dela.
— Gostou da surpresa, ratinha? — perguntei, um sorriso brincando nos lábios enquanto
observava a mistura de emoções em seu rosto.
— Isso é incrível, Aaron! — Os olhos brilharam para mim. Ali, eu soube que podia fazê-la feliz
de novo e que faria isso todos os dias da minha vida.
— Não é nada mal, não é? — sussurrei, olhando de relance para sua boca.
— Não, não é… — ela soprou de volta.
Unimos nossos corpos e descemos devagar sobre o acolchoado. Passamos a ciciar com os rostos
colados, acariciando um ao outro.
— Está gostando da nova experiência?
— Estou amando, mas não é como se fosse toda nova pra mim. — Acrescentou: — Eu já flutuava
todas as vezes que você me tocava, me beijava e… — Puxei-a para mim e passei os lábios pelos dela.
— O que sente agora?
— Sinto que vou explodir.
— Isso é bom.
— É, isso é muito bom. — Seus lábios roçaram nos meus e os fisguei. Ela gemeu quando a
empurrei contra a estrutura macia e lancei meu corpo por cima.
— Agora, faz sentido me chamar de Alien?
— Com certeza.
— Então me dá essa boquinha pra cá…

BRIANNA

Já estava escurecendo quando nosso voo terminou.
— Calma… — Aaron correu para me amparar quando meu corpo balançou na porta da aeronave,
logo após o pouso. — Tá tontinha?
— Você não está? — A pergunta saiu em um suspiro.
— Tenho cara de que perco o equilíbrio? — Olhei para ele, séria. — Só por você, claro.
— Bobo! — Bati nele pouco antes de sentir que me tirou do chão. — Ficou maluco? Vamos cair!

— Eu dou conta, ratinha. — Ele caminhou até a parte de fora do aeroporto sob meu olhar
semicerrado. Ainda estávamos com as roupas especiais, o macacão dele só na metade do corpo, parecia
amar ficar sem nada na parte de cima, mostrando meus olhos tatuados ali, agora coloridos, retocados
com todos os atos que me tornaram sua.
Me apertei contra ele e chamei sua atenção.
— Temos que esperar, Alien, assinamos um termo, e ele diz que precisamos…
— Não precisamos de nada. — falou, procurando alguma coisa com os olhos atentos. — Nada
além de um carro.
— O quê? — Segurei forte nele quando vi que se aproximava de um automóvel com teto-solar.
— Não se preocupe, eu dirijo. - Me acomodou no banco e pulou no do motorista ao meu lado.
— Mas essa é a minha preocupação — falei, assistindo a ele repuxar alguns fios ali embaixo. —
E vai roubar o carro?
— Gostei da cor, combina com seus olhos. — O vão da minha boca se entreabriu e, olhando para
mim, ele tocou meu queixo com o polegar. — Mas é uma grande gostosa com essa boquinha… —
Virei o rosto para o lado.
— Você é impossível!
Quando o carro finalmente deu partida, um cara começou correr na nossa direção. Aaron girou o
volante com força e manobrou em um piscar de olhos.
— Meu carro! — o azarado berrou, mas já estávamos longe.
Senti o motor vibrando debaixo dos pés, e o vento se aproveitava da falta de um teto e brincava
com meus cabelos, coração acelerado. Me sentia viva.
Viva.
Segurei em Aaron, estava sem cinto. Percebendo isso, ele colocou um braço na minha cintura e se
fez de segurança para mim.
— Aonde estamos indo?
— Universidade. Tem uma festa esperando por nós naquele lugar.
— Quando organizou uma festa?
— Digamos que, no momento que olhei para você hoje pela manhã, debaixo dos meus lençóis,
pensei: por que não mostrar ao maior número de pessoas que ela é minha? — Seu pingente ainda estava
lá, balançando, refletindo o vermelho intenso.
Chegamos lá pouquíssimos minutos depois. Os pneus do carro rasgaram a entrada da
universidade e, depois de estacionado, Aaron me tirou de dentro pela cintura. Um dos universitários
entrou no veículo para abandoná-lo o mais longe possível, a mando dele, e seguimos para dentro.
O percurso depois dos portões, no entanto, foi algo novo para mim, porque nos levou até o
telhado de um dos pavilhões, por uma escada que ficava na lateral deles.
Agora, sentados ali, tínhamos a visão da festa e do céu, repleto de estrelas.
— Achei que iríamos para a festa — comentei.
— E nós vamos. — acomodou-se ao meu lado. — Só não agora. — Depois de uma pausa,
continuou: — Ansiosa para rever as amigas com as quais passa o dia inteiro grudada? — perguntou e
ergui as sobrancelhas.
— Meg e eu estamos pensando em alguns projetos, e a Mavila chegou há pouco tempo. Só
estamos colocando o papo em dia, ciumento.
— Só estão falando de mim, você quer dizer, e essa Mavi não vai com a minha cara.
— Ela soube o que fez comigo, dá um desconto.
— O que eu fiz? Te matei de tesão? — Olhei para ele com os olhos semicerrados. — Não venha
dizer que não gostava, ratinha. — Virei o rosto quente e comecei a mudar de assunto.
— A nova diretoria bem que poderia liberar a entrada de pessoas de fora da Libert para dormirem
aqui…— Me deixe adivinha. — falou e eu já sabia em quem pensava. Ele tinha acertado.
— Mavi chegou faz pouco tempo, Alien, queria passar mais tempo com ela…
— MAIS? — Arregalou os olhos. Um ciumento nato.
Fiz beicinho e ele fingiu não ver.
— Por favor… — Trouxe seu rosto para mim e, ainda sério, me encarou.
— O que não faço por você, hein? — Meu sorriso surgiu e ele se aproximou um pouco mais.
— Tenho uma coisa pra te dar. — Tirou do bolso um papel dobrado e me entregou. Enquanto eu
o abria, começou a falar. — É a última página. — Quando disse isso, meu coração palpitou.
— Do diário? — Senti urgência em desdobrar mais rápido, e quando olhei para a folha, existia
apenas uma frase.
“E se, mesmo depois do fim, ainda existisse uma única estrela no céu, ele a alcançaria para
apagar?”.
Terminei de ler com lágrimas nos olhos.
— Ele… ele a matou.
— Meu pai matou minha mãe quando a deixou. — Riu sem muita graça. — Essa era a única
página que eu pretendia seguir à risca. O final. A coisa ruim e feia, mas não fiz. — Seus dedos traçaram
meu queixo. — Posso ter sido um filho da puta no início, e me lembrar disso vai me machucar até o fim
da minha vida, mas eu… — suspirou — nunca te destruiria. Faria o completo oposto. — Seu polegar
acariciou meu rosto. — Então vou dizer que te amo. — Senti minha respiração parar. — Que quero me
casar com você, ter filhos, uma garagem repleta de carros, uma casa de praia, e dois cachorros para
derrubar as crianças na areia enquanto eu e você rimos e corremos para os pegar no colo.
— Isso foi..
— Específico? Cafona?
— Perfeito…
— É, achei que iria gostar dessa versão — sussurrou.
— E qual é a outra versão? — Ele olhou nos meus olhos.
— A que sigo meu destino juramento, me torno um mafioso maluco apaixonado por uma única
mulher, te dou tudo que pedir e mato quem olhar para você. — A voz rouca reverberou por minha pele,
me causando arrepios.
— Vou parecer louca se disser que gostei mais dessa?
— Eu te amo, ratinha — soltou e, mais uma vez, pareceu ressoar de outro mundo, como um
sussurro dos céus. Algo impossível, mas real diante de mim naquele momento.
— Também te amo, Alien. — Nossos lábios se encontraram de novo e ele me puxou para seu
colo.
Tudo para recebermos um banho de mangueira vindo da festa.
— Mas que porra! — Aaron ameaçou pular dali mesmo e eu o segurei.
— Vão transar aí em cima? — Ryus gritou.
— Virou gato, Alien? — Foi a vez de Brandon.
— Vou te mostrar o que virei!
— E vou te matar se você cair aqui de cima e morrer. — Ele se virou para mim e beijei seus
lábios devagar.
— Calma, minha vida… — O riso surgiu devagar em seus lábios e meu coração acelerou feito
louco.
— O que foi?
— Você tem poder sobre mim. — Me jogou sobre as telhas. — Muito poder, ratinha.
A água já não incomodava mais e a palhaçada que os meninos faziam lá embaixo ficava cada vez
mais distante.
Era como se só existíssemos nós, naquele vasto universo.Somente nós dois. Mesmo depois do fim.
O Alien e sua ratinha.

                        Fim

Dêem ⭐

AO CAIR DA NOITE Onde histórias criam vida. Descubra agora