BRIANNA ABERNATHY dêem ⭐
DEVORADOR
Trinta minutos.
Respondi às perguntas por trinta minutos e tive que ouvi-los falar sobre
Aaron Walker pelo tempo todo durante as últimas seis horas em que ele
desapareceu.
Não assisti nem mesmo a uma aula desde que cheguei ali, e via o início
do semestre escorrer pelos meus dedos enquanto o Alien me fazia de peça em
seu jogo de tabuleiro.
Quando o vi entrar por aquela porta, senti um mix de ódio e frustração.
O que eu queria mesmo era que ele sumisse do mapa, deteriorasse, virasse
fumaça, mas pelo visto precisaria continuar fingindo que não via sua
existência, ou ao menos tentar.
Em contrapartida, não conseguia fazer o mesmo com o grupinho do
Alien. Nossa interação ainda estava fresca na minha memória, e sabe quando a gente tem uma visão errada sobre algo e se surpreende quando descobre a
real?
Para falar a verdade, me sentia um pouco surpresa com eles. Pareciam
até gente. Mais gente que pessoas do meu próprio sangue.
Suspirei, exausta física e psicologicamente.
Me lembrar de que sumi por quase uma semana e com certeza meu pai
soube, mas não fez nada, fazia com que me sentisse arrasada, mesmo que eu
o conhecesse bem e soubesse que isso é a cara dele.
Os caras maus são mais humanos do que o homem da lei.
Eles se preocupavam com o babaca, como se fosse digno de alguma
coisa. Não me estrangularam, não tiraram meu sangue, só me ameaçaram,
claro, mas me ouviram e mantiveram as garras longe.
Nunca pensei que teria diálogos assim com o bando do Alien, mas tive.
Dentre todos, Benedete parecia a mais lúcida, isso era inegável. Ela me
trouxe até o alojamento e me deixou na porta do meu quarto, mesmo que
seguisse ordens do desgraçado, ela era leve. Eles pareciam ser leves quando
estavam juntos, quando eram íntimos. Escondendo suas sombras, pareciam
até ser legais.
Mas eles ainda eram a escória daquele lugar, e eu precisava me lembrar
constantemente disso.
Me virei de lado na cama. O som distante da música que vinha do
subsolo ecoava pelo corredor do alojamento e, agora, me encontrava imersa
nas mensagens não respondidas pelo meu pai.
Eu:
Oi
Oi, pai! Tá aí?
Oi, pai?
Estou bem, se quiser saber. Mesmo que tenha passado dias presa,
sentindo frio, sede e fome.
Oi?
ao mesmo tempo que uma raiva intensa queimava dentro de mim.
Como ele podia ser tão sádico e insensível? Por que registrar a minha
vulnerabilidade, como quem registra significados marcantes?
Sentimentos conflitantes fizeram meu estômago revirar. Precisava sair
dali, mas vi quando Aaron abriu os olhos, como se tivesse cochilado
enquanto a pele era perfurada. Prendi o ar nos pulmões e passei a traçar
passos para trás, mas parei ao perceber que ele inclinava o rosto na minha
direção, e mesmo à distância, seus olhos encontraram os meus.
Era como se ele soubesse que eu estava ali, escondida, assistindo. Era
quase como uma ligação extraterrestre.
Um sorriso cínico brincou em seus lábios, antes que piscasse para mim.
Ele piscou para mim?!
Aquilo desencadeou uma teia de sensações que deixavam turva a linha
tênue entre elas, isso tornava a maioria inexplicável, mas ainda identifiquei a
raiva. E era uma raiva desumana.
Quase vacilei quando ele acenou para o homem, levantou-se e começou
a vir em minha direção, nas sombras.
Seu olhar era intenso e parecia cheio de emoções conflitantes que eu
não conseguia interpretar. Percebi, pela primeira vez, o modo como a
repetição em seu abdômen era perfeita, logo abaixo dos meus olhos, tatuados
ali.
Inspirei fundo.
Mesmo que ele parecesse ser de outro mundo sem aquela camisa, com
os cabelos ao vento e o maldito sorriso matador, eu o via como um pesadelo.
Por tudo o que ele representava, por me manter prisioneira, por forçar um
jogo perigoso que não pedi para jogar.
Decidi que não iria mostrar fraqueza na sua frente, apesar da confusão
que sentia por dentro. Segurei a ponta da minha arma e tentei manter a
postura ereta. Era a primeira vez que estaríamos cara a cara depois que voltou
e, ali, eu não iria conseguir ignorá-lo, mesmo se quisesse.
Seus passos cessaram na minha frente. Nossos olhos se fixaram um no
outro enquanto fitas luminosas nos rodeavam.- Parece que gosta de estar nas minhas mãos, já percebeu isso? -
Riu, cruzando os braços. - Você sempre volta, não importa onde ou como.
Senti minhas mãos formigarem e o encarei, com os olhos quase
saltando para fora. Estar ali não tinha nada a ver com ele! A insinuação
parecia até um insulto.
- Costumo registar uma lembrança no corpo a cada mau ato. -
Referiu-se à tatuagem. - A sua é uma das mais evidentes, acho que sabe que
isso é um forte indicativo de que só estou começando... - Deu mais um
passo até mim e, em um deslize, apertei a arma na cintura.
Seu sorriso aumentou. Suas mãos me empurraram contra a parede e
desceram ali, apalpando até encontrá-la.
Os dedos deslizaram levando minha calcinha para baixo. Olhos nos
meus olhos. Lábios tão próximos que me faziam sentir sua respiração. Meus
seios tocavam no peitoral dele e eu me via cada vez mais encurralada.
Aaron segurou a arma devagar, livrando minha pele do metal gelado
até que ela aparecesse diante de seus olhos.
- Isso não é brinquedo para você - falou, olhando para a pistola
pesada. Fiquei em silêncio. Esperando o momento certo de tomar e o fazer
implorar para não levar um tiro. - Onde conseguiu? - Sua sobrancelha se
ergueu. - Por acaso, se encontrou com o seu papai? - Ele destravou a arma
e olhou para mim. - Eu fiz uma pergunta, ratinha. - A ponta fria do metal
roçou a base dos meus seios.
Prendi a respiração. A mão dele era pesada e desenhava caminho pelo
meio deles com firmeza, separando o meu decote quase inexistente, expondo
a minha pele.
- Não vai me responder, hum? - Seu rosto voltou a se aproximar do
meu. - Odeio quando você é assim teimosa, sabia? - soprou no meu
ouvido e minha respiração falhou. - Se lembra do que fiz para que abrisse a
boca da última vez? - Me empurrou um pouco mais contra a parede e senti
seu calor familiar.
- Vai para o inferno! - Senti minhas cordas vocais mais trêmulas do
que gostaria e, quando pensei em golpeá-lo, vi que se separou e sumiu,
simplesmente. Pisquei algumas vezes, assim que me livrei da tontura na qual ele me submergiu. Não havia sinal do desgraçado ou da minha arma.
Comecei a entrar na festa, amaldiçoando a hora em que pensei que ir ali
seria uma boa ideia. Avistei Brandon. Parado em um dos cantos e tentei me
recompor. Ele poderia saber onde a unha se enfiou, já que lhe era como
carne.
- Curtindo a festa? - Ele me olhou por um momento e virou uma
bebida entre os lábios. - Soube que você é filho do governador... - Tateei,
sem saber o que falar. - O que faz aqui? - Mantive a expectativa,
esperando sequer uma resposta, mas ele parecia um carcereiro mudo. - Pelo
que percebi, o caladão é o loiro. Você fala. Por que tá me ignorando? -
Franzi o cenho. Diante da confusão no meu rosto, ele soltou um sorriso. Algo
ligeiro. Como se não pudesse segurar. - Olha... ele ri.
Quando se virou para mim os fios de cabelo caíram em cima dos olhos
e a barba por fazer brilhou sob as luzes fortes do lugar.
- Aaron não quer ver você conversando por aí - falou, sério. Seus
olhos semicerraram. - Muito menos perambulando. Ele sabe que você tá
aqui?
Minha expressão de confusão só não foi tão expressiva quanto o grito
que ouvimos vindo de um carro.
A música parou e avistei Meg em cima da estrutura do som,
completamente bêbada.
- Meg! - Comecei a correr até ela, mesmo sabendo que se fosse eu
em seu lugar, ela iria sumir, como em todas as outras vezes. Mas eu não
deixaria ela ali, e como imaginava, Aaron surgiu na minha frente como um
raio.
- Acho que ela está se divertindo - falou, com os olhos fixos em
mim. - É uma altura considerável se pensarmos que essas caixas de som
podem subir automaticamente, se um botão for acionado. - Apertou
levemente um ponto vermelho e a estrutura deu um leve pulso para cima.
Meg gargalhou.
- Vem, Bri! É divertido.... Opa! - Meu coração quase pulou para
fora quando a ponta do salto dela deslizou um pouco para a beirada, antes que
se equilibrasse e voltasse a tomar mais um pouco da bebida.- O que você quer? - Fuzilei o infeliz com os olhos e ele cruzou os
braços, encostando-se no carro. - Me diz! O que você quer de mim? -
gritei, fazendo minha voz reverberar pelo estacionamento agora silencioso.
- Diga onde ele está.
- Eu não sei! - exclamei, meus olhos estudando sua expressão séria.
Olhei dele a Meg e de Meg a ele.
Fechei os olhos. Punhos cerrados. Precisava pensar em alguma coisa.
E pensei.
Uma pistola de pressão que liberava fogo, do lado de um dos pneus do
carro. Era igual a que ele usou para me aterrorizar em frente ao campus. Era a
minha chance.
Fingi a minha melhor cara de derrota e comecei a ir até ele devagar,
com os ombros caídos, colocando os fios de cabelo atrás da orelha.
- Já que você quer tanto saber... - Olhos nos olhos, ele sorriu. Sem
esboçar qualquer tipo de expressão, joguei o corpo para o lado e agarrei a
arma. - Então toma!
As chamas rugiam, criando uma cortina de fogo na direção dele, que
recuou para o lado com os olhos se alargando em surpresa e choque.
Apertei o botão que vinha na sequência do vermelho, torcendo para não
estar fazendo merda. A estrutura desceu. Segurei Meg pelo braço e a forcei a
me acompanhar em uma corrida para fora dali.
Começamos a subir a escada. Cada batida dos nossos corações parecia
sincronizada, um lembrete constante de que estávamos vivas, mas ao mesmo
tempo à beira da morte.
Olhei para trás. Ele estava vindo.
Ninguém ousou tentar impedir e, se eu estivesse em seus lugares,
também não me colocaria na frente daquele furacão.
Seus olhos brilhavam no escuro, refletindo fúria e descontrole. Eu
podia ouvir a respiração junto a grunhidos, como se estivesse bem próximo
ao meu ouvido. Aquilo reverberou pelos meus ossos e fez minha pele tremer.
- Meu Deus! Rápido, Meg! - Assim que fechei a boca, ela tropeçou.Tropeçou e levou meu coração junto.
Seu corpo caiu no chão, como uma fruta podre. Ela gemeu de dor e
começou a chorar, fedendo à bebida alcoólica. Senti as solas dos meus pés
formigando quando o vi avançar enquanto estávamos paradas ali.
A risada que ele soltou me fez estremecer.
- Ah... quando eu alcançar vocês... - Aaron mancava, nos seguindo
como uma sombra. Um predador.
- Levanta, Megan! - Segurei-a pelos braços e quase a joguei para
cima, não sabia de onde tirei tanta força, mas o fiz. - Você está bem? -
Minha voz ondulou e de sua boca não saía nada além de um choro baixinho.
Coloquei o braço dela em meu ombro e continuei guiando nossa corrida
o mais rápido que conseguia.
Arrisquei olhar para trás depois de alguns passos mais lentos do que eu
gostaria e calculei poucos sete metros de distância entre nós e a destruição em
pessoa.
- Você acha que correr vai me impedir, ratinha? - Sua voz rouca e
carregada de ameaça ecoou pelo lugar aberto. - Acha que vai se salvar?
Meus olhos arderam, coloquei força nos pés e continuei nos arrastando,
mas Megan estava muito pesada e não me ajudava em quase nada, além de
sustentar uma parte do peso do próprio corpo com dificuldade.
- Aaron! - Era Brandon. Me virei para olhar e ele corria atrás do
amigo, como se tivesse tomado coragem para o impedir de nos massacrar.
- Agora não, porra! - Olhei por cima do ombro de novo e percebi
que eles estavam discutindo, mas Aaron ainda insistia em andar, mesmo que
pouco.
No entanto, já era alguma coisa, uma chance.
A garota já estava com a cabeça jogada para um lado e seu peso me
fazia envergar junto dela. Bati os pés no chão.
- Acorda, Megan! Você quer morrer, caralho? Temos uma chance! -
Ela sacudiu a cabeça e se concentrou nos pés, soluçando com o choro
entalado.
Foi a caminhada mais sofrida da minha vida. Quando chegamos nas escadas e olhei para trás, consegui discernir sua silhueta da penumbra.
Brandon não nos deu muito tempo. Nem mesmo perguntei a ela se
conseguia subir, dei alguns passos nos degraus e, quando a vi tropeçar,
coloquei os braços por baixo de suas axilas.
Olhos fechados. Inspirei fundo e comecei a arrastá-la para cima.
Quando os degraus acabaram, Aaron pulou no primeiro lá embaixo e
meu corpo gelou.
- Espere por mim, ratinha...
Não tinha tempo para mais nada, então só continuei arrastando Megan
pelo longo corredor, até a porta do nosso quarto, que era perto da entrada.
Para a minha felicidade, ou não, só ali ela reagiu. Sua mão segurou a
maçaneta, ajudei a abri-la e nos joguei lá dentro. Trancamos a porta com
pressa, esperando que fosse suficiente para nos proteger.
Fechei os olhos. O silêncio reinava no lugar, anunciava que tinha dado
certo. Me aproximei da porta nas pontas dos pés. Prendendo a respiração.
Pálpebras tremendo. Fiz sinal de silêncio para Meg, que choramingava
incontrolável e encostei a orelha na madeira.
Nada.
Meu suspiro veio do mais íntimo e se dissipou no ar em forma de
alívio.
Pelo visto, desistiu da perseguição.
- Acha mesmo que pode se esconder de mim? - ele sussurrou, sua
voz rouca me fazendo tremer.
Pulei para longe da porta, o som dos punhos de Aaron contra a madeira
ressoavam pelas paredes.
Meg recuou com os olhos arregalados de medo e eu me via paralisada
com o corpo tenso, olhando para a porta. As investidas faziam o chão tremer.
A cada golpe, a estrutura ao redor da porta ameaçava desmoronar e levar meu
coração junto.
Com um estrondo ensurdecedor, a fechadura cedeu. A porta foi lançada
contra a parede.Ele entrou no quarto, sua presença dominante parecia invadir o lugar
como um oceano em uma tempestade noturna. E tal como um, ele veio até
mim.
Recuei até me ver presa contra a parede enquanto seus olhos tentavam
me engolir e nossos ofegos se misturavam. Ele apertou os dedos em meus
cabelos e eu apoiei as mãos em seu peito.
Forte, suado, com os meus olhos tristes tatuados ali, na carne.
- Aaron... - chamei seu nome, com a voz cortada pela respiração
irregular. Não sei por qual motivo, só veio e o liberei.
Lutamos com os olhos. Sem armas, armaduras, nada.
Nus e crus.
E naquele momento, tudo sumiu. Minha barriga parecia um pedaço da
galáxia, fria, flutuante, cheia de energia granulada.
Eu queria odiá-lo, queria resistir àquela sensação magnética que parecia
nos puxar um para o outro, mas algo em seu olhar me segurava, me mantinha
cativa, submersa, desarmada.
Não houve movimento, não houve palavras. Apenas a sensação
avassaladora de que algo grande e incontrolável estava se formando ao nosso
redor. Me fazendo sentir ao mesmo tempo atraída e repelida por ele.
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AO CAIR DA NOITE
Hayran KurguLivro 1 O homem mais poderoso dos EUA te ofereceu um emprego como babá. Ele precisa de ajuda para cuidar de sua doce filha, que acabou de perder a mãe. Só tem um problema. Ele nunca está em casa. Você o encontrou só algumas vezes - e há meses isso n...
