44

25 3 0
                                        

AARON WALKER
Meu território

A pista lisa e escura do Brooklyn se estendia nua e crua sob meus
olhos. Era madrugada quando uma fina camada de neblina caía do céu,
deixando o ar um pouco mais gelado do que o habitual.
Estiquei a camiseta colada ao corpo e alonguei os braços. Ao meu
redor, os mais variados tipos de motores rugiam, vozes se misturavam como
em uma feira livre e apertos de mãos em apostas ressoavam de cinco em
cinco minutos.
Nada daquilo me chamava mais atenção do que a área em que ficava o
público. O lugar onde Brianna estava.
Benedete perguntou de mil e uma maneiras diferentes o porquê de
convidá-la para o racha, e em todas as suas tentativas, a ruiva não obteve
resposta.
Mesmo porque, a razão era incerta até para mim no momento. Só
pensei em tirá-la daquele ambiente por algumas horas.
Apesar do Brooklyn ser muito pior, era onde eu me sentia em casa.Nunca imaginei que ela aceitaria o convite, mas lá estava. De pé, com
os braços cruzados e a carinha redonda. Seu olho já estava bem melhor e não
parecia ter tido sequer um arranhão com a maquiagem que ela usava para o
cobrir, mas ainda assim, toda vez que me lembrava daquilo, meu sangue
mudava para um estado físico diferente.
Ela usava um jeans preto, botas longas, jaqueta, cachecol e um gorro e
roubava minha atenção de uma forma indescritível, como na primeira vez que
a vi. Estava ao lado da colega de quarto, assistindo a tudo de maneira atenta,
usando aqueles olhos para se certificar de que não corria perigo, tendo a falsa
sensação de estar no controle, quando eu a observava de todos os ângulos
possíveis, tanto com meus olhos quanto com os de mais cinco capangas,
afinal era a filha do porco que matou meu irmão e muitos dos que o seguiam
não hesitariam em derramar seu sangue pelo simples fato de ser quem era.
Deixei claro que não encostariam um dedo nela, mas estávamos falando
do Brooklyn, núcleo da infestação de mortos-vivos comandados por
entorpecentes e drogas caras, sem uma gota de sobriedade para seguir minhas
ordens, e para provar esse ponto, vi quando um infeliz bêbado se aproximou
dela.
Com a postura torta e a típica coceira no nariz, ele se inclinou perto de
seu rosto. O desconforto era quase palpável, eu já estava furioso só pelo fato
daquele magrelo estar respirando o mesmo ar que ela, piorou quando ergueu
a mão tentando tocar seus cabelos. Alguma coisa dentro de mim foi liberta,
me inclinei para marchar até lá, mas Brandon me segurou o braço.
— Cara, você já colocou uns cinco na cola dela — resmungou. — É só
um bêbado miserável, a própria Brianna derruba aquele infeliz.
Sem lhe dar resposta alguma, me livrei de sua mão decidido a ir até lá,
mas quando ergui os olhos, os infelizes já estavam fazendo o trabalho e
tirando aquele desgraçado de perto dela.
Sinalizei a um deles, que se aproximou de mim. Era o mais jovem, o
que insistiu em trabalhar para mim em troca de trocados para sustentar o
vício.
— Estão dormindo?
— Não, senhor.
— Estão, sim… — Me aproximei devagar. — Arranco seus dedos se
vacilar de novo, só para ver como vai acender seus cigarros. — Ele engoliu
em seco. — Levem o bêbado para a caverna. — Só de citar esse lugar, já
sabiam o que eu pretendia. — Pendurem pela perna, cuido dele depois. —Ele acenou e saiu.
Ao meu lado, Brandon balançava a cabeça com o rosto indecifrável e
era genuinamente ignorado por mim. A última coisa de que precisava era
mais um me monitorando, as babás da dupla de patetas bastavam, por
enquanto.
Voltei a observar o movimento caótico e inebriante que se formava
antes de todas as corridas, caracterizando meu habitat natural, o santuário de
carros que me consolava todas as noites.
Puxei as faixas para acertá-las nas mãos com o dente. Já podia sentir o
cheiro da pista, a adrenalina pulsando nas veias, o borrão das luzes fracas dos
postes e, pela primeira vez, os olhos da Abernathy em mim enquanto corria.
Tudo ia bem até que Ryus, Brandon e eu passássemos a compartilhar
da mesma visão do inferno: Fillippo. A poucos metros de nós, preparando seu
carro.
— O filho do abutre parece saber o que está fazendo. — Ryus quebrou
o silêncio, analisando o manuseio calculado do infeliz.
Brandon assentiu, um sorriso se formando em seu rosto.
— Tenho que concordar. O cara tem habilidade. Não subestimaria.
Mantive o olhar fixo na pista, sem expressar totalmente minha opinião.
Ele só correria porque nunca fui de negar uma disputa. Eu respirava aquilo,
era impossível dizer não ao amasso que aquele merda pedia.
Me virei e abri o capô do meu carro para dar a supervisão furtiva de
sempre, antes de entrar na pista.
— O infeliz tá há horas ali e só vai correr na segunda partida. Isso tem
outro nome — pontuei e eles se entreolharam — Iniciantes… eles precisam
ter certeza de que todas as pecinhas estão no lugar. — Fechei a tampa do
capô e terminei de puxar as faixas das mãos.
— Com aquele arsenal de peças monstruosas num único carro, até eu
ficaria namorando a lata. Preciso descobrir alguns fornecedores, inclusive, tá
na hora de eu montar uma ainda melhor pra amaciar nessa pista — disse
Ryus.
— Talvez, se você rastejar até lá, ele te passe algumas dicas, panaca. —
Minha voz soou mais séria do que pretendia, não consegui evitar.
Brandon percebeu meu tom e tentou acalmar as águas.
— Relaxa, Alien.. Ninguém aqui planeja convidar o cara para o
próximo churrasco.
— Ele não deveria nem mesmo estar aqui — murmurei e segui pela margem, chamando a atenção de todos que se preparavam. — Vamos dormir
esperando por vocês, merdinhas! Mexam as bundas, não temos a madrugada
toda! — vociferei. — Não precisam enfeitar tanto os carros cor-de-rosa,
vocês vão engolir mais poeira do que podem imaginar. Estão prontas para
perder suas apostas?
No meio dos uivos e gritos de rachadores e telespectadores, o filhote de
abutre me encarou com o sorriso torto e a cara suja de graxa. Era um otário
mesmo. Eu estava confiante e já imaginava o estrago que minha máquina
faria àquela latinha dele. Aquela vitória merecia ser marcada na minha pele
de tão ruim que seria para ele.
Voltei para o meu carro, passando os olhos no turbo enquanto aquela
parte morta do Brooklyn era acendida pelos faróis. Quando o alvoroço
começou a abaixar, ouvi a voz de Brianna do lugar onde estava, sendo
direcionada a ele, e não quis crer naquela palhaçada.
— Vai, Filippo! Estou torcendo por você!
Isso é sério?
Me virei para encarar aquela atrevida, mas ela sequer olhava para mim,
tinha toda a atenção nele. Assisti a quando o infeliz a chamou e ela começou
a caminhar até lá, como se tivesse permissão, ignorando minha presença ali
ou mesmo o fato de que aquele almofadinha era meu inimigo.
Fiz as narinas se dilatarem, coloquei as mãos na cintura e me virei de
costas, dando uma trégua ao meu cérebro.
— Ela sabe. — Saiu como um grunhido.
— O quê? — Brandon, que passava uma flanela em seu vidro, me
encarou.
— A vadia sabe me deixar puto — completei e os dois ergueram os
olhos.
— Aí é foda. — Ryus já imaginava o tamanho da minha raiva quando
completou. — Vai matar ele agora ou depois da corrida?
Pude sentir sua troca de olhares com Brandon, que se apressou para
abrir a porta do meu carro.
— Você já tem cinco caras de olho na garota. Vamos encostar as latas,
Alien, o racha já vai começar.
Era como se soubesse o que viria caso eu continuasse assistindo àquela
cena, e coisa boa não iria ser, eu tinha certeza, e só por isso, obriguei a mim
mesmo a entrar no carro.
Só serviu para que eu continuasse assistindo à cena, só que sentado.Já estavam anunciando a corrida quando liguei o motor e o acelerei,
olhando fixamente na direção dos dois. Ela conversava com ele tão
entusiasmada que mexia as mãos no ar, como uma boneca.
Apertei o volante e mexi nas chaves. Impaciente, fechei os olhos.
Precisava ignorar.
Olhei para lá, ela sorria. O som da risada se destacava e alcançava meus
tímpanos, como se só ela fizesse barulho ali em meio àquela poluição sonora
do inferno.
Está sorrindo para ele?
Ela nunca sorriu daquele jeito para mim.
Mordi o lábio inferior e funguei, virando a cara. Minha mão bateu na
testa e me forcei a prestar atenção em qualquer outra coisa. Aquele infeliz
não ficaria nela, os caras estavam de olho e eu só precisava me concentrar no
racha.
Estava encarando os dois pela vigésima vez segundos depois, para
captar Brianna colocando fones nos ouvidos.
Claro, devido à fobia de som muito alto, seus tímpanos eram
sensíveis…
O infeliz resolveu ajudá-la, ajustando o gorro por cima do das orelhas,
passando os dedos por seu cabelo. Tocando nela.
Bati no volante e olhei para a pista. Estavam prestes a anunciar a
largada e, enquanto os motores borbulhavam, minha cabeça parecia querer
explodir.
Não fazia ideia de como consegui aturar aquilo ou até onde minha
paciência se estenderia.
Descobri no momento seguinte, quando o filhote de abutre acomodou a
mão no vão de sua cintura e a induziu a entrar no carro.
Comecei a rir feito um maluco. Minha chave girou, acordando o motor
da em um rugido agressivo. Passei adiante pela pista e fiz meus pneus
derraparem no meio do asfalto, bloqueando a corrida.
Pulei para fora do carro sob burburinhos, gritos e até vaias.
— Ninguém passa adiante — murmurei. — Preciso resolver alguns
assuntos antes dessa merda começar ou não vou ser capaz de correr sem
partir ao meio todos os carros que surgirem no meu caminho.
Marchei pela margem da pista, espumando feito um animal, e cheguei
aonde estavam em poucos segundos. Os dois já me olhavam com expressões
distintas um do outro. Enquanto o infeliz me entregava uma carranca,Brianna tentava esconder o que eu facilmente classificaria como satisfação.
Satisfação em me ver tendo um ataque de raiva.
— Só estou conversando com seu amigo, Alien. — Sua voz ondulou
quando me aproximei.
Segurei-a pela cintura levei e a joguei no capô do carro dele, o barulho
da bunda reverberou pelo lugar, eu a fiz abrir as pernas, me coloquei entre
elas e a puxei para mim. Meus dedos estavam em sua nuca e minha boca a
centímetros da dela quando grunhi.
— Continua com essa merda e eu fodo você na frente dele. Nada
melhor que te fazer gritar o meu nome para deixar claro que me pertence,
hum?
— Não faria iss… — Fisguei seus lábios com força e ela não resistiu.
Quando nos separamos, estava ofegante.
— Odeio você, Alien.
— Você me ama, ratinha, e vai torcer por mim. — Olhei nos olhos
dela, segurando seu rosto com força. — Vai entrar no meu carro, vai deixar
eu te ajudar com seus fones. — As pupilas cintilaram, dilatando-se devagar.
— Por quê? — ciciou.
— Porque eu quero — respondi. — Porque é minha. Você mesma disse
isso. — Deixei mais um beijo em seus lábios e a puxei para o outro lado, sob
o olhar risonho e os braços cruzados do Salvatore.
Quando a coloquei junto da amiga e sob a supervisão dos meus
homens, ouvi o anúncio de que todos os carros correriam juntos devido ao
atraso que se acarretou — com minha ajuda, claro.
Era bom.
Ela não ficaria no mesmo ambiente que o filhote de abutre enquanto eu
corria, e ainda me veria dar um trato nele naquela pista. Coisa melhor eu não poderia querer.

BRIANNA

Estávamos um pouco distante da pista livre, observando os carros
esquentando seus motores para dar partida.
Suspirei devagar sentindo os olhos insistentes de Meg em mim. Quando
seus lábios deram sinal de que ela falaria alguma coisa, me adiantei.
— Você está tentando falar sobre aquilo de novo.
— E você está tentando ignorar.
Fechei os olhos.
— O que quer que eu diga, Megan? — Apertei os olhos, farta.
— Que merda foi aquela? Deixou ele te beijar! E pareceu retribuir.
— Não foi nada disso! — Ela era a cópia de Mavi no quesito
implicância.
— Eu vi, Brianna.
— Só estava…
— Sim? — insistiu e apertei os cantos dos olhos com os dedos.
— É carência, tá legal? Nada além disso. — Tentei me convencer
também, mas nem acreditava naquela merda.
— Cara, você é maluca! Pra começo de conversa, nem deveria estar
aqui.
— Ah, ótimo. Agora, vai ditar regras pra mim.
— Posso ficar calada e fingir que não vejo você se jogar nos braços de
um doido.
— É uma ótima ideia! — Me virei com a testa franzida, tentando
ignorar a energia caótica que ela emanava.
Só a chamei para ir comigo, porque insistiu em saber aonde eu estava
indo. E só estava ali por causa daquela maldita chave. Se John morou ali,
alguma fechadura aqueles segredos bem desenhados abririam.
Suspirei com os braços cruzados, observando uma fileira de telões transmitirem recortes de câmeras de segurança do trânsito. Pelo que Benedete
me disse, eles conseguiam hackear o sistema e formar uma espécie de
cobertura em primeira mão dos rachas. As transmissões aconteciam às sextas-
feiras para o público disposto a pagar para assistir. Olhando aquele lugar
superlotado, com certeza faziam uma grana.
Meus olhos piscaram na direção dos carros. Não era nada como eu
imaginei. Máquinas enfileiradas, bandeirinha xadrez anunciando o início da
partida… nada. A coisa era um tanto quanto descontraída. Ninguém ligava
para posição inicial, mas com certeza brigavam feito animais pela linha de
chegada.
Meu coração palpitou quando vi o carro do Aaron. Preto como a noite,
brilhante como um espelho. Os vidros escuros não me impediam de sentir sua
energia intensa, de relembrar coisas que eu preferia esquecer.
Apertei as pernas e mordi os lábios. Ele acelerou naquele exato
momento e eu tive certeza de que estava olhando para mim, o tempo todo.
Dei um pequeno pulo quando, seguindo-o, um a um os carros
aceleraram. Em segundos, cobriram a pista e, no telão, as imagens
começaram a estabilizar, mostrando os líderes no racha.
Aaron e Filippo já começaram lado a lado, deslizando pela pista com
uma facilidade e habilidades incríveis. Pelo menos, foi o que achei até
perceber que se aproximavam um do outro. Suas latarias se bateram, fazendo
faíscas de fogo voarem pela pista escura.
— Podem fazer isso? Não existem regras? — ciciei, desesperada, e
Benedete, a ruiva, surgiu em um piscar de olhos.
— Quem está liderando? — Parou ao meu lado, averiguando a tela. —
Hum… interessante.
Cada batida me fazia encolher os ombros.
— Interessante? Eles vão se matar!
— Não se não quiserem — falou, antes de franzir as sobrancelhas. —
É, e parece que eles querem. — Suspirou. — Droga, Alien! — Seus dedos
fuçaram o bolso de trás e agarraram um dispositivo parecido com o que ele
usava. Ela colocou no ouvido. — Alien, que merda é essa? — Pelo estalar de
sua língua, ele não respondeu. — Ótimo, está me ignorando.
— Faça alguma coisa! — exclamei quando os telespectadores ergueram
a voz em uníssono, diante de mais uma batida bruta. — Me dá isso aqui. —
Segurei o aparelho. — Aaron, já sabemos o que vocês estão fazendo, parem agora!

Como resposta, ele empurrou Felippo para a margem, mas dessa vez,
quando o italiano revidou, seus pneus derraparam.
— Não…
Foi tão rápido que, se eu piscasse, perderia o exato momento em que
ele se transformou em um borrão, formando uma linha grossa na pista. O
barulho do freio fez todos ao redor franzirem a cara.
Aaron girou no ar e eu contei três vezes em que meu coração deu
cambalhotas junto dele. De ponta cabeça, a lateral do automóvel ralou pelo
asfalto e se arrastou até parar mais adiante.
O fone de Benedete ainda estava na minha mão e a pequena vibração
me fez levá-lo até o ouvido.
Era como se respirasse, lentamente, quase nada, e então sussurrasse,
vagamente, o meu nome.
— Brianna…

Dêem ⭐

AO CAIR DA NOITE Onde histórias criam vida. Descubra agora