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BRIANNA ABERNATHY

COLISAO

Fechei a porta do banheiro no quarto do alojamento, pela segunda vez
no dia. Me sentei no chão, abri meu notebook e puxei a folha na qual anotei
os e-mails do meu pai. Foi tudo que eu tinha encontrado em casa, na noite
anterior, em um computador velho que ele deixou para trás.
Com certeza, algum dentre eles estava ativo. Mesmo escondido, o
Delegado Abernathy estava trabalhando, isso era certo, mas tão certo quanto
isso era o fato de que ele não trataria de assuntos investigatórios importantes
por e-mail. Mesmo assim, queria tentar.
Era aquilo que eu passava a maior parte do tempo fazendo:
investigando, dando ouvidos à minha válvula de escape daquelas lembranças
frescas.
Quando não se quer pensar tanto num erro, tentamos nos esquecer
dele, certo?
O que aconteceu entre mim e Aaron, naquele lugar, foi o pior que poderia ter acontecido, pior do que um erro, mas eu estava trabalhando duro
para me esquecer, já que parecia ser quase impossível.
Segurei a cabeça por mais um minuto. Os pensamentos ainda estavam
lá, me fazendo remover o fato de que gostei, me entreguei. Nem tudo fez
parte do plano. Sequer pensei em um plano, inicialmente. Chamar a polícia
foi algo de última hora. Não fiz aquilo para o distrair, parecia vir de mim
também, não foi contra a minha vontade, e isso me irritava de modo
desumano.
— Presta atenção, porra! — gritei, voltando a olhar ao meu redor.
Eu tinha tudo que precisava ali. Tudo que consegui de pistas, e um
diário.
Sim, um diário que contava a história de um romance entre um buraco
negro e uma estrela.
Esse era o livro que o desgraçado do Alien estava lendo, na biblioteca,
quando se distraiu e o deixou por tempo suficiente junto aos inúmeros que eu
tinha aberto sobre a bancada.
Agora, ele tinha uma cópia do volume três de anatomia humana da
biblioteca e eu, um romance fofo, escrito à mão com letra feminina, desenhos
bonitos e com poucas palavras.
A primeira página era uma graça, contava sobre o encontro dos dois.
Como o sombrio ajudou a iluminada e a manteve com ele. E só por isso eu o
guardei. Porque estava fascinada.
“A última estrela e seu devorador”.
"Quando o vi pela primeira vez, em minha passeata, condensei todo o
medo que uma galáxia podia conter nas minhas pontas douradas. Ele
flutuava, imponente. Meu percurso beirava suas bordas e o horizonte de
eventos parecia borbulhar ao meu redor. Eu sabia que era meu fim. Vi
muitas sendo sugadas, espaguetizadas e explodidas. Eu as vi morrer. Nunca
pensei que justo comigo pudesse ser diferente, mas foi. Foi como se ele
tivesse calado sua própria natureza para me ver passar. Impossível, o
Universo diria, mas aconteceu. Nunca mais consegui sair do horizonte, e o
via todos os dias me observar perambulando sozinha. Foi assim que, no fim
de um passeio, fiquei presa em meio à escuridão, mas sem amarras,
brilhando. Ele mantinha minha luminosidade acesa. Viva. Quando perguntei
o porquê, disse que fui a última, porque há muito me poupava. Ele achou
minha luz bonita e me manteria ali, como um dos últimos vestígios da
galáxia. Brilhante como um broche. A última ainda acesa, mas flutuando somente em seus horizontes”.
Fechei o diário e suspirei.
Era poético. Irreal e impossível, mas poético. Dizia muito a uma mente
aberta à interpretação, e era disso que eu precisava: interpretações e
especulações sobre o Universo. Distrações enquanto eu não estava submersa
na investigação sobre aquela chave ou nos meus estudos.
Distribuir a atenção em tantas lacunas era o meu segredo de sucesso,
porque se eu pensasse na minha vida naquele momento, iria enlouquecer.
Olhei para a capa forrada por galáxias. Ela estava sendo coberta por
uma case preta enquanto ele lia.
O ruído da minha risada baixa reverberou pelo banheiro.
Com certeza, não era dele. Eu julgava que talvez tivesse tomado de
alguma pobre coitada e a usado para fazer chacota, mas, no fim, de muito
estava me servindo; isso, eu não podia negar. Afinal, tudo que me servisse
para me esquecer da noite passada era bom, para mim, para minha sanidade.

AARON

Os pelos dos meus braços se eriçaram sob o vento noturno, e apertei as
mãos nos bolsos da calça enquanto me encostava no meu carro, em meio às
muitas luzes de Nova Iorque.
"Quieto demais".
Foi o que os babacas repetiram para mim, desde que cheguei da casa do
Abernathy.
Talvez eles entendessem meus motivos se eu dissesse que estava
enfrentando uma luta interna, depois de foder com vontade aquela vadia e
precisar correr, porque a dissimulada me enganou.
Aquelas duas viaturas para mim não eram nada, mas o ato dela, sim.
Me deixou indignado, enraivecido. Foi como uma traição.Passei as mãos pelo rosto e esmurrei o capô do meu carro.
O pior de tudo estava no fato de ser uma raiva diferente. Algo que se
desdobrava em alguma merda que nunca senti.
Para cada ação, há uma reação; assim como, para minha raiva, há um
distúrbio, uma vontade incessante de ver sangue, matar, estripar. Mas não
com a Abernathy. Nunca era assim com ela.
Talvez isso acontecesse por eu ter idealizado que, por ser a chave da
minha vingança, ela não devesse ver esse meu lado, para se manter
preservada. Essa era a única explicação, e era nisso a que me agarrava.
O que só me fazia acreditar que eu deveria encontrar o porco o quanto
antes, lhe dar o fim merecido e me livrar daquela garota o mais rápido
possível.
Minha mente estava uma confusão, e o resultado daquela merda era
pura adrenalina, a mesma que me levou a ficar em frente ao covil do
Governador.
New York State Executive Mansion, ou uma versão melhorada dela.
Com o reflexo da arrogância e prepotência do atual político, o lugar era
imponente, mesmo mantendo o ar clássico e patético em estilo colonial. A
neve se misturava às suas estruturas, impossibilitando ser distinguida — uma
bela imitação da casa branca, eu diria — e era cercada por altos muros,
guardada por homens armados que, para mim, não passavam de um batalhão
de fracotes em treinamento.
Ajustei a máscara no rosto e, com um impulso de adrenalina, saltei o
muro, aproveitando a escuridão da noite para me esconder nas sombras.
Evitei as câmeras de segurança, movendo-me silenciosamente pelos jardins
bem cuidados. Sabia que a entrada principal seria fortemente vigiada, então
decidi procurar uma rota alternativa.
Encontrei uma janela nos fundos da mansão, na qual a segurança era
um pouco mais relaxada. Com minhas próprias mãos, forcei-a e entrei.
Estava em um corredor escuro e silencioso em segundos. Minha pulsação
nivelada. Se mostrando resultado de muitas invasões bem sucedidas.
Ser quem eu era e carregar o sangue que carregava nas veias, mesmo
que fosse um fardo, também era uma vantagem. Invadia qualquer lugar que
quisesse, saqueava e matava quem me desse vontade também. Infelizmente,
nenhuma daquelas duas opções tinham me levado ali, porque, mesmo que a
Abernathy tivesse me deixado com uma raiva desumana, o democrata
precisava permanecer vivo. Mas isso não o isentaria de ter o que merecia, se eu percebesse que estava tentando me enganar.
Caminhei furtivamente pelos corredores até encontrar a sala na qual o
governador costumava receber visitantes importantes. O ar quente que saiu
pelas minhas narinas não era bom sinal, mas segui andando ainda assim.
Os olhares surpresos dos guardas não me intimidaram. Avancei com
passos firmes até alcançar a porta do escritório. Sem hesitar, empurrei de uma vez, fazendo a madeira bater na parede e ecoar pelo ambiente, mas eles me
seguraram, antes mesmo de eu colocar o pé na sala, e ergueram minha
máscara.

Dêem ⭐

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