AARON WALKER
Moldura
Anos antes
A luz dourada do meu quarto refletia sobre o papel no qual eu escrevia
a sigla mais uma vez.
“CDC”
Significava “Chefe dos chefes”. Era como chamávamos meu pai, o
chefe da máfia.
John já tinha dito muitas vezes que eu não podia expor aquilo, mas
quem iria ver, afinal? Não havia um bundão que não soubesse quem era meu
pai dentro daquela casa, e eu não saía de lá, então não tinha risco de outras
pessoas verem.
Recostei a cabeça no travesseiro, olhando para o teto. Era rotineiro
fazer isso todas as vezes antes de dormir. Aproveitava para pensar sobre o
meu dia também, as aulas — em casa —, os jogos — em casa —, as refeições
que também aconteciam naquela casa, mas em lugares diferentes. Sala de jantar para o jantar, almoço no saguão bege da minha mãe e café da manhã na
área do jardim, quando a cuidadora estava disposta.
Fazer tudo em casa era um tédio. Por isso, eu queira me tornar um
Homem de Honra o mais rápido possível e poder sair para onde quisesse.
Comprar o que eu quisesse e fazer o que desse na telha também.
Desci da cama, caminhei até minha estante e agarrei a caixa do jogo de
xadrez que havia encontrado nas coisas de Papà e me sentei no chão.
As peças polidas em ébano e marfim tiniam sob influência do reflexo
da luz fraca do meu quarto e, com quatro delas, formei um círculo no chão.
Voltei à caixa, peguei a maior de todas e a posicionei no centro com a sigla.
Cada uma daquelas quatro peças era uma família, e a do meio era meu
pai, Bonanno. O Chefe dos chefes da máfia. Essa era a repartição da
hierarquia ali, e era assim que aprendíamos desde cedo.
Um dia, seria tão poderoso quanto Papà.
Olhei pela janela, era só mais uma noite em que o céu semeava neve lá
fora. Assisti a quando um carro parou no estacionamento e um guarda se
aproximou do motorista, provavelmente para coagi-lo.
— Acelera e derruba ele! — gritei da janela, mesmo sabendo que não
podiam me ouvir. E, se me ouvissem também não adiantaria, o cara era um
frouxo, como dizia John, nunca faria o que nós faríamos.
Mas quando chegasse a minha vez, eles iriam ver só! Todos eles! Papà
dizia que John e eu estávamos sendo treinados para ocupar cadeiras da
hierarquia e, para isso, deveríamos saber de algumas coisas. Essa era uma
delas, não dar mole aos que diziam ser justos, porque justiça nunca existiu.
Chamávamo-nos de porcos. Todos eles. Mas ninguém podia saber,
porque não sabiam quem éramos, tínhamos códigos secretos e um juramento
de silêncio. Era complicado, mas aprendi bem rápido.
A única coisa de que não gostava era que não tínhamos crédito algum,
e ainda não podíamos participar das reuniões com os Homens de Honra. Pelo
menos, eu não. John, quando podia, quase sempre levava um castigo por
quebrar alguma regra.
A mãe vivia sendo assediada por Dimitri, mas Papà nunca acreditava
no meu irmão, e John nunca me deixava contar eu mesmo o que via.
Foi por isso que decidi parar de falar e começar agir. Já tinha um plano
na cabeça e iria derrubar aquele verme, custe o que custar!
Uma batida forte à porta fez com que me levantasse, agarrasse e
erguesse a arma de brinquedo. Apontei para a porta e me esquivei para trás da cama, em silêncio.
Quase atirei quando John arrombou a porta e me olhou com a cara toda
suja de cinzas.
O que parecia ser uma nebulosa de fumaça passou a tomar o corredor
depressa.
— O que aconteceu, John? — Meus olhos se arregalaram.
— Precisa ficar aqui e se esconder. Vou pegar a mãe. — Tiros
começaram a ser disparados não tão longe de nós.
— O que foi, John? — Voltei a perguntar, impaciente.
— As famílias estão nos atacando, é uma rebelião. Os Salvatore estão
no comando, querem matar Papà.
— O quê? — Meus punhos se cerraram. — Mas não podem fazer isso!
Ele me olhou, sério,e não respondeu nada. Antes que saísse e eu o
seguisse, Dimitri apareceu.
— Seu pai está em fuga. Vou tirar vocês daqui. — Nossa mãe tremia
em seus braços.
— Tira as mãos dela! — vociferei. — Não vamos a lugar algum com
você!
— Cala a boca, pirralho. Vocês dois estão sem ninguém agora. Se não
me seguirem, serão mortos. As famílias adorariam exterminar os herdeiros de
Bonanno.
A mãe tremeu ainda mais, mostrando estar em choque. Era o que as
famílias tinham feito. Aquele rebanho de filhos da puta.
— As famílias têm um vínculo! Não podem fazer isso!
— Você não sabe o que as pessoas são capazes de fazer por poder,
tampinha, então cala a boca! — Foi a vez dele de vociferar.
— Papà me designou para cuidar do meu irmão e da mãe — disse
John.
— Mas eu estou me designando. Vai seguir as minhas ordens, como
Conselheiro do Bonanno, ou morre.
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AO CAIR DA NOITE
FanfictionLivro 1 O homem mais poderoso dos EUA te ofereceu um emprego como babá. Ele precisa de ajuda para cuidar de sua doce filha, que acabou de perder a mãe. Só tem um problema. Ele nunca está em casa. Você o encontrou só algumas vezes - e há meses isso n...
