AARON WALKER
A culpa é minha
“A culpa é minha”.
Era a única coisa que pairava a cabeça enquanto assistia ao papà
arrastar John para uma das salas vazias da mansão.
Me arrependi de ter falado sobre a mãe e o Dimitri ao meu irmão. Ele
tentou passar adiante, mas nosso pai não acreditou nele. Era como se John
já soubesse que iria acontecer e preferisse se ferir a me ver ferido.
Segurei em uma das extremidades da porta, estudando os materiais de
tortura de nosso pai. Ele escolhia a dedo quando levava quem o desobedecia
até lá. Eu esperava que, daquela vez, fosse o idiota do Dimitri, mas ainda
será John, “o mentiroso”.
E, assim como em todas as outras vezes, Giordano Bonanno olhou
para mim. Distinguindo minha imagem da penumbra escura do cômodo,
mostrando que me via ali.
Na minha cabeça, era como se afirmasse saber da minha culpa, da
tentativa de proteção que John exercia para comigo. No entanto, era mais que isso. Papà sabia que, se eu visse meu irmão sofrer em meu lugar, doeria
mais do que se fosse eu ali. Por isso, permitia que eu assistisse.
A dor me tornaria inumano, e ser inumano, naquele mundo, era
essencial para a sobreviver.
— Tá aí, cara? — Brandon bateu uma palma perto do meu rosto e eu o
encarei, sério. — Vai ficar por aqui até quando? — perguntou, olhando pelo
corredor do alojamento feminino, no qual eu estava recostado na porta de
Brianna, esperando-a sair para o almoço.
Quem nos visse conversando normalmente, não acreditaria que tive a
vontade genuína de o matar poucos dias atrás. Brandon só estava vivo porque
jurou não ter tocado nela, e ela afirmou depois.
No entanto, eu ainda mantinha uma orelha em pé em sua direção por ter
feito aquela merda. E, como se não bastasse, me irritava fácil quando insistia
com aquela ideia infeliz de obsessão.
Não importava o que me induzia a fazer aquelas coisas, a persegui-la,
vigiá-la, prendê-la a mim, estar à espreita na porta de seu dormitório. A única
coisa que eu queria no momento era ver aquela garota.
Fazia dois dias que a vi naquele estado. Dois dias que, pela primeira
vez, não pensei em correr na direção do porco primeiro.
Ela tomava o espaço de todos os meus pensamentos.
Brandon se recostou ao meu lado. A cara de quem queria perguntar
qual era o motivo para eu estar ali era perceptível. Poupei meus ouvidos da
pergunta e parti para a resposta do infeliz.
— Ela se trancou aqui dentro e não quer sair. — Deixei escalar como
um resmungo e cruzei os braços.
— E o que você tem a ver com isso?
— Não me faça responder, Brandon.
— Falo sério, cara. Essa preocupação já excedeu o limite há um tempo
e… — sua fala cessou quando alguém girou a maçaneta.
Era Megan, ela nos percebeu ali e tentou fechar a porta de volta, mas eu
e Brandon a empurramos tal como uma pluma. A madeira bateu do outro
lado da parede e vasculhei aquele lugar em um milésimo de segundo até
encontrá-la, deitada na cama, com o cobertor em seu corpo. Seus olhos
levantaram devagar para conferir a amiga e, quando nos viu, quase saltou
sobre o colchão.
Marchei até lá, sem lhe dar tempo para pensar e enfiei a mão no meu bolso. Os olhos dela arregalaram quando me viu erguer uma algema. Fechei
uma das argolas ao redor do meu pulso e me aproximei o suficiente para
fisgar o braço dela com a outra, em segundos estávamos presos um ao outro.
— O que você fez? — Sacudiu a corrente curta fumegando em cima de
mim. O olho roxo pareceu se abrir tanto quanto o são.
— Não disse que eu deveria estar preso, ratinha? Estou preso a você
agora. — Me aproximei de seu rosto. — Ninguém te toca, ninguém te olha,
ninguém sequer respira perto de você sem que eu saiba, e para cada uma
dessas ações, haverá consequências — pontuei tão sério quanto achei que
podia ser. Seus olhos aumentando de tamanho me mostraram isso.
Encaramos um ao outro por alguns segundos, até que a garota
pigarreasse.
— Bri, o seu almoço. Ainda quer que eu busque?
— Ela vai almoçar comigo — estabeleci e suas sobrancelhas franziram.
— O refeitório estará vazio. Somente eu e você. Agora, me siga.
— Você vai dar meia-volta e sumir daqui. Não vou a lugar algum —
grunhiu.
— Tudo bem. — Me virei e puxei seu braço comigo. Seu corpo se
arrastou pela cama e se segurou para não cair.
— Cadê a chave? — Tremeu tal como uma pequena roedora.
— Não tem chave — murmurei. — Vai comigo ou ficaremos os dois
com fome aqui. — Me aproximei da orelha dela. — Fico mil vezes mais
chato quando estou com fome.
Arrastei Brianna até o refeitório mantendo um certo cuidado já que
tinha o corpo inteiro dolorido.
Conseguir que a praça de alimentação ficasse vazia foi moleza. Bastou
um comando e todos sumiram do lugar até que eu permitisse que retornassem
outra vez. Com os pratos feitos, caminhamos até as mesas.
Brianna se sentou ao meu lado, por conta da algemas, mas pela cara e
pelo gelo que me dava, estava odiando cada segundo ali. Segurando a barra
do moletom que usava, suas pernas tremiam levemente e ela se encolheu no
banco.
Ela era forte demais, marrenta demais para ficar daquele jeito. Ver a
mudança me deixava inquieto e fumegando por saber que era tudo culpa
daquela desgraçado.
— Coma — falei, apontando para a comida, e ela brincou com o garfo
nos legumes. — Se desmaiar, não vou te carreg…
— Por que mandou esvaziar para que eu viesse até aqui? — ciciou pela
primeira vez depois que saímos do alojamento da irmandade.
— Não é o que você quer? Ficar longe de todos?
— Ficar longe de você — pontuou, segura, e ergueu o garfo com
algumas ervilhas.
No entanto, sua mão direita, algemada, puxou a minha esquerda e ela
parou no caminho. Percebendo isso, ergui o braço e deixei o cotovelo sobre a
mesa, consequentemente meus dedos tocaram em seus cabelos. Mesmo
relutando, ela começou a comer.
Parei um pouco, observando-a até que seu talher batesse com força no
prato.
— Vai ficar me encarando?
Oi de novo, ratinha…
Ignorando sua rigidez, segui com os olhos e mão ao seu pescoço. Tinha
um dos maiores hematomas, depois do olho, em tom roxo escuro, repleto de
sangue por baixo da pele. Toquei ali e, mesmo tentando ser suave, ela soltou
um suspiro trêmulo.
O que me fez afastar, no entanto, foi a presença indesejada da mais
nova sombra infernal entranhada ao campus.
— Dispensou todo mundo para um encontro romântico? — O filho do
abutre ergueu as sobrancelhas, mas seu ar sarcástico morreu quando a viu. —
O que houve?
— Você entrou aqui quando ninguém podia entrar. — Estreitei os olhos
e Brianna pigarreou.
— Estou satisfeita — disse e empurrou a cadeira para se levantar.
Dando um último olhar de aviso ao desgraçado, me virei e segui com
ela para o pátio. Ela se sentou no fim da escada que levava para fora do
campus e fiz o mesmo.
Mesmo que estivesse movimentado, quase ninguém olhava em nossa
direção por muito tempo, isso fez Brianna parecer ficar um pouco mais
confortável a ponto de abrir a boca mais uma vez, para reclamar.
— Quando pretende tirar isso? — Balançou as algemas.
— Qual a parte do nunca mais não entendeu? — Ergui a sobrancelha.
— Mesmo que precise arrancar o meu braço, vou me soltar —
murmurou, impaciente.
— Não vai, teimosa. Você fica presa a mim até que eu decida que deve
andar com as próprias pernas — falei, sorrindo, e ela me olhou nos olhos por um longo momento. Quando percebi que estava tão expressivo, virei o rosto.
— Até que seu pai tente te pegar de novo. Estarei longe de você na primeira
oportunidade, não se preocupe.
Silêncio.
Ela fazia de tudo para me ignorar, mas, volta e meia, eu a pegava
encarando as chaves do meu carro pendurada na calça.
— Gostou delas? — Virou o rosto e eu sorri. — Ganhei do meu irmão
quando completei a maioridade.
— O seu irmão bandido? — Saiu entredentes.
— É, o meu irmão bandido — afirmei e percebi que esmoreceu um
pouco.
— Eu não tive a intenção de…
— Seu pai também vai dizer essa frase quando me levar até ele? —
Balancei a algema e ela se enfureceu.
— Você… — Virou-se de costas e suspirei, olhando para o lado
oposto.
O silêncio reinou por horas sobre nós dois ali, observando o
movimento, Brianna ficou sonolenta e encostou na base do corrimão da
escada, cedendo ao sono. Precisei chegar um pouco mais perto para que
ficasse confortável, uma vez que seu braço se esticou para manter distância
entre nós.
Tendo certeza de que estava dormindo, tirei-a de lá e coloquei sua
cabeça em meu colo, já que acordada nunca aceitaria, e daquele jeito, eu não
teria dor no músculos por causa da teimosia daquela vadia.
O tempo passou rápido e, quando percebi que escurecia, peguei-a nos
braços e caminhei de volta ao alojamento feminino, pelo menos até que ela
acordasse no caminho e começasse um berreiro para que eu a colocasse no
chão.
— Estamos quase chegando.
— Mandei me colocar no chão, caralho!
— Você vai andar como a porra de uma lesma sedentária. — Ignorando
a firmeza com a qual eu a mantinha ali, moveu-se freneticamente e encarei
sério. — Não me deixa irritado, ratinha.
— É desconfortável ter você por perto! Abre essa merda de algema!
— Se sente tão desconfortável que adormeceu algemada a mim… —
Ri, mordendo os lábios.
— Eu estava cansada!
— Então terá a oportunidade de descansar um pouco mais. — Empurrei
a porta do quarto com o pé e Megan pulou quando nos viu. — Dê meia-volta
e suma. Vou ficar com ela aqui — falei.
— O quê? — As duas ergueram a voz em uníssono.
— Não vou repetir. — Essa frase bastou para que a garota evaporasse e
a Abernathy ameaçasse me arrancar um pedaço da carne com os dentes.
— Saia do meu quarto!
— Se eu sair por aquela porta, vou te levar junto, e eu acho que vai
preferir dormir aqui. — Ela bufou e cruzou os braços, mas acabou me
puxando para mais perto. — Vai ter que me aturar. — Percebi que estávamos
perto de seu guarda-roupas e abri as portas. O cheiro doce me atingiu como
um maldito banho frutado e me surpreendi quando vi a minha camiseta ali.
Ela guardou junto com suas coisas. — Qual quer usar para dormir depois do
banho? A minha peça parece a única coisa confortável para uma ratinha se
esquentar. — Seus olhos arregalados me fizeram erguer as sobrancelhas.
— Não vou tomar banho com você! — Puxou a algema e revirei os
olhos.
— Está nos fazendo perder tempo, Brianna. — Ela sacudiu a mão com
mais força.
— Vai se foder!
— Então quer do jeito difícil. — Segurei-a pelos braços e a levei com
roupa e tudo até ao banheiro. Liguei o chuveiro e a coloquei embaixo
comigo.
— Me larga! — berrou.
— Não! — Apertei-a com mais força contra mim, a água morna
escorria por nossos corpos, encharcava seus cabelos e nossas roupas. Brianna
continuava se debatendo. — Você vai se machucar!
— E o que isso importa para você? — gritou entredentes com o queixo
erguido, me olhando nos olhos sob a fina cascata de água. Os fios de cabelo
estavam colados ao rosto e o corpo amolecendo aos poucos. Ela fechou os
olhos, dando-se por vencida, e eu a trouxe até meu peito, apertando o
maxilar.
Passei os dedos por seus cabelos, a água quente fazia o vidro embaçar
aos poucos. Senti sua mão roçar, levemente, nas minhas costas e ali ficamos.
Desliguei o chuveiro quando achei suficiente e a tirei do box, junto a
mim.
Sem ter como nos separar, me aproximei dela e segurei a alça da blusa.— Vou rasgar e te cobrir com toalhas. Depois, quero que troque a parte
de baixo, não vou deixar que durma molhada — falei baixinho e puxei sua
blusa, rasgando no corpo, deixando o sutiã à mostra.
Ela ergueu a mão e me parou ali. Desabotoou a parte de trás e segurou
os seios, me dando a alça dele para rasgar também. A toalha alva estava sobre
seus ombros assim que terminei e, depois que pegamos uma peça para a parte
de baixo, seu rosto já parecia estar menos cansado.
— Melhor? — Ela não respondeu, apenas abaixou a cabeça devagar.
Resguei a roupa molhada do corpo e chacoalhei a cabeça como um
felino. Brianna me evitou quando desci a calça e só me olhou de novo quando
eu estava com uma toalha na cintura e o jeans pendurado em uma cadeira.
Seguimos até a cama em silêncio. Ela se deitou na ponta do colchão de
solteiro, com o braço esticado mantendo uma distância considerável de mim,
e me acomodei ali, ao seu lado.
— Foi ele, não foi? — Não consegui controlar.
— Não sei onde ele está agora, por favor… — Sua voz ondulou, fraca.
— Não quero saber dele. Só quero que me confirme. — Ficou em
silêncio e suspirei. — Por que deixa que seu pai tenha tanto poder sobre
você?
— Por que se importa, agora, depois de tudo? — Foi a minha vez de
não responder. — Pelo visto, realmente nunca vou entender você, Alien —
sussurrou, sonolenta.
Sua respiração logo se tornou pesada e, tendo a certeza de que dormia,
juntei nossos corpos.
— Me importo porque já não dói só em você — soprei a reposta em seu
ouvido, observando-a adormecida.
Passar por aquilo foi como reviver minha maldita infância, quando
Papà torturava meu irmão para me atingir. Ele sabia que doeria mais em mim
do que em John. E foi o que tentei replicar com o pai de Brianna, para acabar
concluindo que aquele porco imundo fechava os olhos diante da própria filha
sendo sacrificada em seu lugar. Mas, quando vi que ela estava machucada por
minha causa, senti algo ainda maior do que tudo já experimentado antes.
Não doía somente nela. Doía em mim também, e foi ali que entendi
isso.
Passei a ponta do nariz próximo ao hematoma em seu ombro, jurando
estraçalhar aquele porco sem piedade, somando mais um grande motivo para
buscar vingança.A única coisa que eu temia era aquele sentimento de necessidade e
importância que já ultrapassava o que eu sentia pelo próprio John, meu irmão
de sangue.
Dêem ⭐
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AO CAIR DA NOITE
FanfictionLivro 1 O homem mais poderoso dos EUA te ofereceu um emprego como babá. Ele precisa de ajuda para cuidar de sua doce filha, que acabou de perder a mãe. Só tem um problema. Ele nunca está em casa. Você o encontrou só algumas vezes - e há meses isso n...
