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BRIANNA ABERNATHY
Iniciação

O Campus tinha um movimento frenético alucinante, calouros e
veteranos se misturavam e a turma nova parecia se encaixar muito bem
naquele ambiente caótico que era a Libert, tive certeza disso quando um dos
novatos surgiu na minha frente depois que terminei meu discurso.
Ele era encantador.
Dono de olhos escuros, mandíbula desenhada e uma energia caótica
entornada pelo cavalheirismo. Filippo Salvatore, pelo sobrenome um italiano,
modelo exato pelo qual Mavi aconselharia a me aproximar.
Fiquei ali olhando para ele e tentando encaixar a sementinha de
interesse em algum lugar na minha cabeça, mas as raízes escuras que me
cercavam apertaram no exato momento que vi o Aaron marchar até nós. Uma
de suas mãos envolveu o meu braço.
— O que você está fazendo? — Me debati para que soltasse, mas ele
apertou ainda mais forte. — Tira a mão de mim. — Ignorando a minha cara feia, ele se aproximou.
— Quietinha. Não faça parecer que odeia quando aperto você. — A
piscada que me deu conseguiu arrancar um rubor das minhas bochechas e ele
se desviou de mim para encarar o calouro enquanto completava. — Você vai
com a ruiva.
Percebi ali que Filippo era o problema em questão. Aaron o encarava
como se pudesse matá-lo com um pensamento.
— Não sei se percebeu, mas estávamos conversando. — Ergueu
ligeiramente as sobrancelhas, me olhando por baixo dos cílios grossos, e
então se voltou para o Alien.
— Foda-se sua conversa. — Seus passos o levaram um pouco mais
perto do novato e Benedete me impediu de me aproximar deles. — Só
preciso mandar um recado para o governador & cia. — Seus rostos ficaram
mais próximos, ecoando ameaças não ditas. — Se quiserem me monitorar,
que venham eles mesmos. Até porque, depois de matar você, eles terão
motivos para me considerar fora da linha.
— Do que você está falando? — Puxei o braço de Benedete e segui até
lá, mas pareciam vidrados um no outro, como se sequer me vissem ali.
— Não preciso de tantas babás para me ditar regras, seu verme! —
Aaron completou.
— De babás, não, mas de rivais eu acredito que sim — Benedete
resmungou, juntando-se a mim.— Tá na cara que mandaram ele, porque
sabiam que você iria colocar a atenção nele. Estão tentando te distrair. —
Suspirou quando viu os olhares mortais que os dois trocavam. — E estão
conseguindo.
Quando menos esperei, Aaron sinalizou aos veteranos e um movimento
começou a aumentar por ali. Repetiu que iria começar a inicialização dos
calouros, e pela cara dele, eu sabia que não seria nada bom. Nunca era.
Dois dos caras agarraram o novato pelos braços e o fizeram caminhar
como um prisioneiro ao cumprimento da sentença de morte. Percebendo
minha apreensão, Felippo sorriu para mim, frio e imperturbável.
— Vou ficar bem, gatinha. — Recebi a segunda piscada da noite e
mordi a boca por dentro.— O alienígena não me assusta.
E quem ele deveria ser para conseguir tamanha façanha?
— Quer assistir? Vai ser divertido. — A ruiva falou e não perdi tempo,
seguindo-a até o pátio principal na entrada da universidade, onde Aaron se
sentava em uma cadeira como o rei em seu trono, assistindo à preparação ao ritual.
As poucas luzes na entrada no campus piscavam fracas, refletindo a
desordem que habitava aqueles umbrais, como na noite que me receberam e
me aterrorizaram ao limite.
Me encostei no capô do carro de Benedete ao lado dela, concentrada na
ação. Os caras tiraram tudo de Felippo e, quando restou somente a roupa no
corpo, fizeram-no tirar a camiseta e sapatos.
— Que merda vão fazer com ele? — Eu já estava sem paciência.
— Vão só tirar a prova. Ver se ele é digno de estar aqui. — Ela me
olhou com aqueles olhos intensos. — Mas com esse aí, é mais o início de
uma guerra mesmo. — Sorriu. — Só tente não vomitar no meu carro.
Voltei a olhar para aquele cenário perturbador. Aaron encarava Felippo,
que fazia o mesmo em troca. Era absurdo o modo como um embate se fazia
perceptível mesmo à distância. O Alien era uma força eminente, como o puro
ódio encarnado, e Felippo tinha um sorriso de lado, como se o desafiasse a
fazer o seu melhor, a colocar aquilo tudo para fora.
Comecei a entrar em desespero e me virei de costas, tentando pensar
em como resolver aquela merda. Rocei a arma que mantinha bem escondida
por baixo do meu uniforme tendo certeza de que a usaria se necessário.
Eu já tinha passado por algo semelhante, mas, daquela vez, parecia ser
ainda mais pessoal para o Aaron. Ele não iria pegar leve.
— Se chama obsessão — Benedete falou e ergui a cabeça devagar,
olhando para ela pelo canto dos olhos. — É o que Aaron nutre por você. Ele
fica irracional quando tentam se aproximar, essa guerra em ascensão vai além
de seus motivos pessoais, é por você também. Estão querendo o distrair por
algum motivo, e o espetinho ali sacou que, usando a ratinha, vai conseguir.
— Voltou a falar da história misteriosa.
— Quero que o Aaron se foda!
— Eu também iria querer, acredite. Nunca o vi agir assim. — Um
cigarro surgiu entre seus dedos.
— Ele é maluco!
— Você também é — continuou falando enquanto procurava por algo
no bolso, a voz saindo meio abafada por já estar com o rolinho na boca. —
Afinal, voltar pra ele foi uma escolha sua.
— Não voltei para ele! — quase vociferei.
— Voltou sabendo que ele dizia que era dele.
— Tive meus motivos!
— E, mesmo assim, permanece aqui… — Ela ergueu um isqueiro.
— Porque tenho meus motivos, caralho!
Benedete deu uma pausa. A fumaça dançava por seu rosto, aliviando a
tensão em seus músculos.
— Aaron mudou — pontuou, olhando para o movimento. — Depois da
morte do irmão, achei que ele surtaria e daria lugar à força maior que
esconde. Pensei que viraria um monstro.
— E ele não é um? — Ergui a sobrancelha.
— Não com você. Pensei que ele seria um monstro para você. — Com
essa, ela conseguiu que eu me virasse em sua direção, incrédula.
— Em que terra você vive? Está dizendo que ele pode ser pior do que
já é? — Minha risada era pura descrença.
— Você não viu nada, Abernathy, mas pode ver agora. — Ergueu a
mão com o cigarro. — Se olhar bem nos olhos dele, vai ver o maldito Alien
sem controle. — Segui a linha de seus olhos e alcancei o alcancei. — Vê? Ele
está lá agora.
Parecia fumegar. Como se estivesse em chamas, mesmo que ninguém
visse. Aaron sequer piscava. Era como se toda sua raiva viesse à tona. Era
diferente de como olhava para mim, quando parecia querer me matar. Eu
diria que ele destruiria o mundo inteiro agora, bastava querer.
— O que ele tem contra Filippo? E que papo é esse de…
— Aaron é o novo líder da facção do irmão — disse e eu quase me
engasguei, mas já era de se esperar algo similar, vindo dele. — Fez um
acordo com alguns caras e acabou encontrando um antigo inimigo da família.
— Estalou a língua, como quem não poderia contar. — Esse é o filho do
chefe da família inimiga. Foi enviado para monitorar o Alien. — Cruzou um
dos braços, levando o cigarro até a boca.
— Com chefe você quer dizer…
— Máfia — respondeu e engoli em seco. — Essa briga é antiga,
Abernathy. Vem do sangue, e se quer saber, é assim que ele deveria olhar
para você — completou. — Afinal, é a filha do homem que se tornou inimigo
quando matou John.
— É diferente…
— Constatei há alguns dias que Aaron esconde toda sua maldição de
você por algum motivo. — Semicerrou os olhos. — Já deveria estar morta, e
sabe disso. — Sorriu para mim. — Por que ele não matou você?
— Ele diz que sou dele. — Meu rosto esquentou quando mencionei.
— Mas não ofereceu nada de que precisa. Você é inútil, e mesmo
assim, o Alien te trata como se valesse muito.
— Sou filha de seu alvo. Posso servir para alguma coisa — continuei,
tentando lançar respostas por já saber aonde ela queria chegar.
— Seu pai não se importa com você. Isso, todo o Campus percebeu,
não insinue que o Alien seja um idiota. E, além disso tudo… você o faz sentir
raiva, mas ele não revida como deveria.
— Fala como se ele fosse um animal.
— Ele é uma besta, e uma besta não escolhe a quem atacar, só ataca —
falou. — Aaron colocou a concentração toda em você e não é para te
destruir.
— Eu não teria tanta certeza. — Minha voz saiu mais trêmula do que
eu pretendia. — Posso falar algo de que não goste e ser encontrada morta na
lata de lixo mais próxima amanhã.
— Brianna Abernathy… a quem está tentando enganar? Você fala
merda desde que o encarou de frente, e olha só… — Fingiu surpresa. —
Ainda está respirando! — Virei o rosto e ela riu. — Te daria um conselho,
mas confesso que nem eu saberia o que fazer na sua situação, então te desejo
boa sorte! — Começou a se afastar.
— Por que me contou isso tudo? — Ela parou. — A história por trás da
intriga entre os dois, o fato de que agora ele é o líder de uma facção e…
— A obsessão incomum que ele nutre por você. — Sorriu, virando-se.
— Gosto de você, ratinha, e acho que, de alguma forma, o meu líder também.
Mal tive tempo para processar aquela conversa quando um motor rugiu,
me chamando a atenção.
Filippo estava no chão, usando apenas sua calça, amarrado pelas mãos
na traseira de um carro. Os espectadores estavam lá, esperando o início do
show de horrores.
Aaron iria fazer como da última vez, amarrar e arrastar alguém até a
morte ou quase morte. E, sim, eu sabia que atrocidades eram normalizadas,
mas isso? Isso lá era um trote universitário?
Aaron ergueu o que parecia ser a chave do dormitório. Todos ficaram
em silêncio para ouvir o que tinha a dizer.
— Se seus restos mortais não estiverem espalhados por esse chão, vai
conseguir um crachá de estudante no fim do dia e uma passagem exclusiva
para o inferno por minhas mãos, filhote de abutre. — Sua voz reverberou
diferente, tão intensa como quando me ameaçava.
Aceleraram o carro e os pneus cantaram sob o granizo cinza da Libert.
Meu coração começou a bombear mais forte quando Felippo foi puxado e
suas mãos arrastaram pelo chão, concentrando o peso do corpo ali.
Que merda você está tentando fazer?
Só saquei a tentativa quando ele se virou de bruços e começou a
balançar as mãos, usando o peso corporal para se livrar das amarras.
Os universitários ao redor vibraram, como infelizes sedentos por
sangue. Eu não via nada muito nítido, afinal era noite e os pneus faziam
curvas rápidas ao circularem o campus como um foguete sob o olhar frio de
Aaron.
Felippo se mexia freneticamente, batendo nas calçadas e sendo
arrastado pelo chão, mas de algum modo ainda parecia saber o que estava
fazendo. Ele era rápido e colocava força nas mãos para se soltar; isso, eu via.
Até que sua cabeça bateu forte em uma valeta. O som uníssono que
saiu dos que assistiam me fez apertar os olhos com força e só os abri
segundos depois, com o coração pulando, tendo a certeza de que ele estava
morto.
Mas o novato tinha agora apenas uma mão agarrada à corda e
conseguia fazê-la escorregar do laço com mais facilidade, surpreendendo
todos ao redor, menos o Alien que o encarava como a própria morte faria ao
pecador.
Pisquei os olhos. Ele soltou um grunhido que me causou desespero.
Inspirei fundo. As pessoas pareciam torcer por ele, mas ainda havia
vaias.
Pisquei de novo. Ele passava, sendo arrastado, bem perto de mim,
algumas garotas me empurravam com os flashes ligados, tentando captar
cada momento.
Fechei os olhos. Iria acabar, mais cedo ou mais tarde. E então os abri
para vê-lo a poucos metros de mim, fazendo a mão deslizar da corda.
Felippo se soltou e pulou de pé, como um ninja treinado por toda uma
vida. Seu corpo pegou impulso e a corrida parou quando ele chegou até mim,
com a testa sangrando, o corpo banhado de suor e grãos de terra colados nas
feridas frescas, mas sorrindo.
— Disse que ficaria bem — ciciou e não tive palavras para lhe dar. Ele
me pegou de surpresa de todas as formas possíveis.
Meus olhos se arregalaram quando Aaron desceu do lugar onde assistia
e se aproximou, batendo palmas ocas. Ele se colocou na minha frente,bloqueando Felippo. O sorriso do novato cresceu. — Encontrou alguém no
mesmo patamar que você, está surpreso?
— Quem te iludiu? Não sou como você — rebateu com outro sorriso
frio.
— Vai dizer que não é filho de um…
— Eu calaria a boca. — Aaron se livrou do tom sarcástico.
— Tenha mais orgulho do seu sangue, Alien.
Ele se aproximou do Felippo com as duas mãos para trás. A tensão era
palpável.
— Só vou perguntar uma vez. Por que te mandaram aqui e o que estão
tentando esconder?
— Invadiu o escritório do governador. Isso já foi motivo suficiente.
Governador?
— Não deveriam temer minha presença, a não ser que escondam algo.
— Escondem, sim, suas verdadeiras identidades. Prezam pela
furtividade. Você sabe disso, não é burro — pontuou. — É um problema,
Aaron Walker.
— E acham que é você quem vai resolver?
— Tenho minhas cartas. — Olhou para mim e engoli em seco. — Você
é um livro aberto quando está com raiva, dá pra saber exatamente o que se
passa aí dentro. — Apontou com os olhos a cabeça dele.
— Aposto que não, mas já que insiste… — Aaron riu. — Me diga se
sabia sobre isso. — Ele deu uma cabeçada em Filippo que firmou os pés no
chão e partiu para cima.
Captei apenas borrões. Me empurraram cada vez mais para trás e uma
confusão se instalou no lugar em segundos. Minha cabeça dava indícios de
que iria explodir quando, sem que eu estivesse esperando, meu telefone
vibrou no bolso e o tirei para ver uma notificação do meu pai.
Numa hora dessas?
Pai:
Estou na casa. Preciso falar com você
pessoalmente.
Meu coração recebeu uma pontada avassaladora. Olhando bem, era um
momento relativamente bom. Aaron e os outros estavam distraídos, eu tinha
chances de sair sem que eles me vissem. E foi o que fiz.Corri até o quarto, eu sabia onde Meg guardava suas chaves e não pedi
daquela vez. Só as joguei dentro da minha mochila e sai furtivamente em
direção ao estacionamento.
Meu celular estava encaixado onde ela usava o GPS. Fiz questão de
reler a mensagem durante o caminho inteiro. Na minha cabeça, só se passava
uma coisa: ele podia ter notícias da minha mãe.
Quando finalmente estacionei, percebi pelo vidro que a porta estava
entreaberta. Pulei do carro e a empurrei devagar. Sua sombra estava lá. Ele
estava com as mãos nos bolsos com a habitual aura sombria e autoritária.
Apesar de tudo, era bom vê-lo de novo.
— Pai? — Caminhei até ele, sem perder tempo. — Meu Deus! Achei
que você… — Minhas palavras cessaram quando ele me deu um tapa tão
forte no rosto que me fez cair.
— Sua vadia!

Dêem ⭐

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