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BRIANNA ABERNATHY
Beijo e sangue

Meg estava terrivelmente impaciente ao meu lado enquanto
esperávamos em frente a uma porta alta e grande de um lugar totalmente
estranho.
Cruzei os braços, sentindo o corpo tremer de frio e o sono querer me
abraçar. Era pouco mais de três da manhã e já fazia horas que haviam trazido
Aaron de volta, mas o mantinham confinado lá dentro, no que chamavam de
caverna dos Skulls, cercada de guardas.
Minhas mãos não paravam de suar. Sentia a pele trêmula e os lábios
frios. Tentava ignorar o fato de que Megan queria me matar e esperava por
algum sinal de vida dentro ou fora daquele lugar, e eu o tive, mas vindo de
fora.
Benedete finalmente apareceu e meu primeiro impulso foi o de seguir
até ela, como se minha vida dependesse daquilo.
— Vai entrar? Onde você estava? Ele está sozinho lá dentro e nem sei se… — Ela segurou um dos meus ombros.
— Calma, garota. Estávamos atrás de Fellipo. — Nem precisei
perguntar e já se adiantou. — Não o encontramos.
— Foram perseguir aquele merda enquanto o Aaron…
— O Aaron está bem, fofinha. — Piscou para mim. — Aquele ali é
ruim demais pra quebrar com um golpe. — Me empurrou uma caixa de
primeiros socorros. — Pode ir lá, acho que ele vai preferir você a mim, e
como estou percebendo que está super preocupada….
— Eu não estou… — Fez sinal de silêncio quando me viu erguer o
tom, com os dentes semicerrados.
— Ele tem alguns ferimentos, mas nada muito alarmante. É teimoso e
insiste estar bem. — Se aproximou. — Você faz medicina, vai saber dar uma
olhada melhor e bom… — Piscou de novo. — O Alien vai gostar de te ver, já
que foi a primeira pessoa de quem perguntou quando me ligou há uns dez
minutos.
— O que disse a ele ?
— Que você estava segura e com a gente… — Ela me deu um sorriso e
agarrei a caixa.
— E você mentiu, porque eu sozinha aqui com Meg.
— Precisávamos encontrar o filho do mafioso, era prioridade. — Dei
um último olhar em sua direção e quando iria falar com Meg, Benedete a
segurou pelo braço.
— Deixo sua amiga no alojamento, estou indo para lá. — Acenei sob o
olhar apreensivo da coitada e forcei um sorriso.
— Tudo bem, Benedete não é tão ruim assim. Você vai chegar inteira.
— Sem dar tempo para que contestasse, segui até a porta e os caras as
abriram, finalmente.
Assim que entrei, fecharam-na por fora e me vi presa no que pareceria
ser um saguão muito bem iluminado, repartido em cômodos e repleto de
caixas empilhadas. Minha curiosidade aflorou e dei alguns passos adiante,
para então ouvir sua voz.
— Veio me visitar, ratinha? — Vinha do único lugar que tinha sombra,
em um dos cantos daquele imensidão, e fisgou minha atenção como nada ali
conseguiu fazer.
— Onde você está? — Minha voz ondulou nervosa e sua risada me
atingiu tão próxima que se fez como um impulso elétrico por toda a minha
carne.— Estou bem atrás de você. — Estremeci quando seus braços me
seguraram e ele me abraçou por trás, levando os lábios até minha orelha. —
Oi, ratinha.
Me virei para averiguar cada canto de seu corpo sob aquela expressão
convencida. Pela cara, ele realmente estava muito bem, mas eu não confiava
nisso. Tinha uma ferida na testa, os braços estavam ralados, mas não era nada
muito profundo. No entanto, o acidente tinha sido horrível. Com certeza ele
quebrou ou deslocou algum osso.
— Não minta pra mim, Aaron. Você está bem? — Segurei um de seus
braços e o ergui com dificuldade, examinando. — Sente dor em algum lugar?
— Estava apreensiva, meu coração apertava no peito toda vez que olhava
para ele.
— Que linda, preocupada comigo… — soprou, me fazendo querer
encolher.
— Não estou.
— Não minta…
— Faria isso por qualquer um.
— Até pelo Filippo? — Ergueu a sobrancelha.
— Menos pelo Filippo! — Minha cara se contorceu de raiva genuína,
sem que eu soubesse de onde vinha aquilo. Ele me olhou com um sorriso e
senti meu corpo inteiro esquentar, foi o que me trouxe de volta ao agora. —
Me diga onde sente dor, por favor. — Entreguei meu tom de quase súplica e
assisti a ele se esticar.
— Minhas costelas. Estão me matando — apontou. — E meu
tornozelo, acho que quebrei.
— Deus! E você fica aqui?
— Foi o mínimo que poderia ter acontecido, estou bem pra quem
sofreu um puta acidente como aquele. — Chiou. — Mas vou ficar melhor
quando amassar o crânio daquele infeliz… — Comecei a arrastá-lo para a
cadeira mais próxima, em uma mesa de madeira que tinha por ali.
— Agora, fique quieto. Vou cuidar disso — falei, olhando para a ferida
na testa. — Ele tirou a camiseta branca manchada e afrouxou o botão da
calça, grunhindo.
Precisei me segurar.
Como era possível que até quebrado aquele imbecil fosse um tremendo
gostoso?
Abri a caixinha, peguei alguns equipamentos e, de pé em frente a ele,comecei a limpeza sob seu olhar predatório. Eu sabia que não me deixaria em
paz, e não demorou para aproveitar nossas posições e segurar minha cintura.
— Está mesmo cuidando de mim ou estou sonhando, ratinha? — Riu.
— Isso me faz ter vontade de quebrar um braço toda semana, sabia?
— Essa ferida está me dando agonia, só isso — falei, passando o
algodão pelas margens. — E parece que você nem mesmo se importa com
quanto sangue pode perder se isso continuar exposto. — Apertei um pouco
mais e ele grunhiu.
— Às vezes, me esqueço de que cursa Medicina.
— Faria mais sentido se eu tivesse escolhido ser veterinária. — Sua
risada rouca ecoou pelo lugar. — Você não para quieto. — Apertei a ferida e
ele quase rugiu. Meu pequeno sorriso o fez erguer a sobrancelha.
— Então essa é a sua intenção, me ver sofrer…
— Não. Só você é o maluco aqui. Não tenho prazer em ver as pessoas
sofrerem.
— Está enganada se acha que sinto. — Nos encaramos por mais alguns
segundos até que eu desviasse.
— Você vai ficar bem. — Guardei as coisas. — Depois que for a um
hospital. — Cruzei os braços e ele amoleceu na cadeira.
— Odeio hospitais — resmungou.
— Odeio você e ainda estou aqui. — Me virei olhando ao redor. —
Tem água em algum lugar? — Segui andando na direção de um dos
cômodos. — Eu estou morrendo de… — Meus olhos piscaram,
desacreditando do que eu via. — Sede…
Era um homem. Pendurado no teto. Em sua perna, um gancho
atravessava a panturrilha e saía do outro lado, esticando a pele. Sangue
escorria desde ali até rosto magro, e ele girava como um pedaço de carne no
açougue.
Puta merda.
— Não precisava ver isso. — Me virei para vê-lo encostado na porta,
com os braços cruzados.
— É por isso que chama quem não gosta de porco? — Ele riu. — Esse
era o cara que tinha tentando…
— O cara que te assediou lá fora. — Descruzou os braços. — Todos
sabiam que ninguém deveria chegar perto de você. Era uma ordem. —
Devagar, começou a entrar no cômodo e parou na minha frente. — Sou um
líder aqui, preciso mostrar como as coisas funcionam. — Seus dedos ergueram meu rosto aos seus olhos. — Preciso punir quem não anda na
minha linha — pontuou e, pela cara que fez, parecia estar esperando um
escândalo da minha parte.
— Já vi coisas piores. Sou filha de um delegado — ciciei e ele riu.
— Por que você é tão diferente? — sussurou. — Sou perigoso, Brianna,
um monstro, e mesmo assim não está tentando se distanciar de mim… por
quê?
— Talvez porque você não me deixa em paz. Você que me prende, diz
que te pertenço.
— Engraçado… não me lembro de ter te obrigado vir até aqui.
E foi ali que me lembrei do meu real objetivo naquele lugar: encontrar
uma porta para a chave, respostas, pistas. E o que eu estava fazendo? Aaron.
Tudo se resumia ao Aaron. Estava focada demais cuidando dele, me
preocupando com ele, sendo uma idiota. Era como se tudo se apagasse sem
que eu percebesse, e só o Alien restasse ali.
Ele me segurou pelo pescoço e me fez inclinar para trás enquanto eu
via o cara pendurado, em cima de nossas cabeças.
— É isso que faço com quem toca em você, ratinha, e eu acho que sabe
o porquê. — Seus lábios se juntaram aos meus e, debaixo do sangue fresco
gotejando, nos beijamos.
Separar nossos corpos foi mais difícil do que pensei e, quando o fiz,
estava ofegante como uma condenada.
— Por que faz assim comigo, Alien?
— Isso?
— Você faz parecer que vai me dar algo e nunca o faz, é só mais
escuridão. Está fazendo isso agora. Quanto tempo acha que vai me ver
chorando por sua culpa? — Passou os dedos pelos meus cabelos.
— Deveria me odiar, Abernathy.
— Estou tentando e claramente fracassando. — Olhei para seus lábios.
— Deveria me massacrar, Alien.
— Estou tentando e pretendo não fracassar… — sussurrou. — Pelo
menos não na cama.

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