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AARON WALKER
Por ela.por ele

Alguns dias depois

Se existia alguém bom com planos, era meu pai. E não, eu não me
arrependia de dizer que, para acabar com a raça do delegado, me juntei a ele.
O silêncio se instalou na sala esfumaçada de um galpão no subsolo,
lugar designado por ele para determinadas atividades. O eco da reportagem,
que passava em uma tela ampla, trazia mais informações sobre o caso que
deixou a população estarrecida e entregava a falta de esperança.
Um avião com três tripulantes e um piloto estavam desaparecidos há
alguns dias.
Nele estavam o Governador de Nova Iorque, um delegado
recentemente nomeado no Brooklyn, e Don Salvatore, um empresário
italiano. As buscas já estavam sendo consideradas suspensas e não havia
indícios que indicassem algum tipo de crime acometendo as “vítimas”.
Meu pai interrompeu abruptamente a voz da repórter ao desligar a TV com um gesto casual. Me virei para vê-lo como uma figura imponente no
assento atrás da mesa de mogno. Seus olhos, frios como o aço, encontraram
os meus.
— O avião cumprindo seu papel na peça enquanto o verdadeiro
espetáculo acontece nos bastidores. — Seu sorriso, uma expressão
cruelmente complacente, e a inclinação para trás na poltrona indicavam que
iria se levantar.
Fiz o mesmo, acompanhando-o pelo corredor extenso, como em todos
os outros dias, e tendo que ouvir, como sempre, detalhes sobre suas
ambições.
— Pense em Salvatore como um pino de boliche, faltam mais três —
falou, se referindo às outras famílias da aliança, duas que se uniram a
Salvatore e uma que se deixou de fora do impasse.
Bonanno almejava dar continuidade ao que começou, e já estava
tentando tomar decisões por mim quanto a isso.
— Ainda não entendo o porquê da conversa. — Olhei para ele. — Sabe
que não quero e não vou…
— Sabe de suas obrigações — me interrompeu —, mas não vou falar
sobre elas agora. — Riu, me observando. — Sempre achei que deveria ter
sido o primeiro, John…
— Não vai falar do meu irmão — avisei.
— Seu irmão não aceitou ser moldado, mas você estava aceitando.
— Fala das vezes que me fazia assistir às torturas? — grunhi. —
Aquilo era moldar?
— Aquilo se chamava aprendizagem. Com o tempo e com os estímulos
certos, eu o veria planando ao meu lado, inumano, inabalável. No entanto, o
estorvo Salvatore, ou o que ainda existe dele, fez questão de atrasar esse
processo.
— Esse processo nunca terá progresso — afirmei e passei por ele
quando vi seu sorriso surgindo.
Quando entramos no lugar, uma sala esverdeada com uma mesa repleta
de instrumentos para tortura, ele agarrou seu avental, a sensação que tive foi
de nostalgia. Era exatamente daquele jeito que ele punia quando estávamos
na Itália.
Me lembrava de quando John implorava para que não o colocasse na
maca dos que eram castigados.
De um lado, o Delegado Abernathy, com o corpo marcado por torturas há semanas; do outro, Salvatore, ou o que sobrou dele. O governador,
poupado, em uma sala ao lado. Meu pai dizia que ele iria servir para alguma
coisa.
— Acho que alguém tirou mais um pedaço desse aqui. — Referiu-se a
Salvatore, que já não tinha boa parte da pele sobre os ossos, mas era mantido
vivo, para sentir até o último segundo sua pele sendo arrancada e a carne,
moída.
Abernathy tossiu, engasgando com o próprio sangue quando nos
percebeu ali.
— E eles chegaram — declarou, sem voz. — Vou ser agraciado com a
morte hoje?
— Se depender de mim, nunca. — Bonanno voltou a falar como o
CDC. — Mas não sou eu o seu carrasco.
— Vou acabar com isso — falei, meus dedos enrijecendo ao redor do
cabo de um machado, que puxei da mesa de ferramentas. Pude sentir a
intensidade do olhar de meu pai em mim.
— Mas já? — Riu. — Não se fazem mais açougueiros como antes…
— Só tô cansado de sumir todos os dias por duas horas e inventar
desculpas.
— Fala sobre Brianna Abernathy? — perguntou e fiquei em silêncio.
— Ela não sabe que o pai está pagando pelos pecados na Terra?
— Ela sabe, mas… — Engoli o grunhido.
— Você tem receio. — Tirou as luvas e se aproximou de mim. —
Conselho de pai: aproveite as férias e a leve para algum lugar.
— Acha mesmo que vou seguir seus conselhos? — Ergui as
sobrancelhas. — Não vou repetir o que fez com a minha genitora.
— Sua mãe foi a mulher a quem mais tive apreço em toda uma vida.
Uma pena que não teve equilíbrio mental suficiente para se manter em
minhas mãos. — Virou-se e andou até a mesa, mudando de assunto. —
Poderia estar matando dois hoje, Aaron. — Olhou para mim. — Se
conseguisse algo sobre Fillippo Salvatore.
— Não sei nada sobre o filhote de abutre, já falei.
— Ele será um problema no futuro. — A rigidez de como tirou a faca
de um faqueiro me atingiu como um aviso.
— Só se for pra você. Comigo, ele não tem vez — pontuei, ouvindo seu
riso e me virei para o porco. — Se arrepende do que fez a ela? — Meus
dentes cerraram. O homem estava pendurado, a pele das pernas esticando como a de um animal abatido no gancho, ele soltou um sussurro que exalava
à carne crua.
— Não. E eu faria tudo de novo, seu verme… — Ergui a lâmina e
enfiei em seu pescoço, vendo-o se engasgar com o próprio sangue.
Quando a puxei de volta, o corte jorrou sobre minha roupa e braço.
Fiquei ali, assistindo à sua morte dolorosa e dedicando aquele momento à
memória do meu irmão, à raiva que sentia por ele e a vontade de destroçá-lo
por ter feito Brianna passar por tanto.
Um suspiro trêmulo me fez piscar os olhos inertes.
— Como entrou aqui? — Bonanno vociferou e me virei para ver
Brianna, com os olhos enormes em cima da cena. — Aaron, não.
Deixei a lâmina cair e a segui, sentindo o sangue nas mãos.
— Brianna! — Meu grito reverberou pelos corredores vazios. O
silêncio que me entregou era ensurdecedor, e a preocupação se enraizou ainda
mais em mim.
Tive medo, porra! Eu tive medo pra caralho de ela me odiar, mesmo
sabendo que fiz o certo, medo de não me querer por perto, de se lembrar que
também a machuquei.
Dobrando um corredor, vislumbrei seu vulto desaparecer à distância.
Seu rosto expressava algo indecifrável me fez cerrar os punhos. Ela tinha
testemunhado a brutalidade que infligi ao pai. Meu passo se acelerou, a
urgência se transformando em desespero.
— Aonde você vai? Aaron! — A voz do meu pai ecoou, misturando-se
ao som dos meus próprios passos. Parei por um momento, relutante em
responder, mas a verdade me puxava de volta.
— Vou cuidar da minha garota. — As palavras escaparam de meus
lábios, carregadas de uma determinação feroz. Não era apenas uma promessa;
era um compromisso de reparar o que estava quebrado.
Corri em sua direção, alcançando-a no momento que ela parou,
chorando.
— Ei… — Ousei erguer o queixo dela na minha direção. Seus olhos
encontraram os meus. Era uma confusão que eu não conseguia identificar.
— Aaron... — murmurou, sua voz trêmula.
— Sei que parece errado, mas eu tinha que proteger você, fazê-lo
pagar. — Minha explicação saiu apressada, como se eu pudesse justificar
todo aquele sangue. — Acabou, ratinha… acabou.
Ela me olhou por um momento, e então avançou para mim, me envolveendo em um abraço apertado.
— Acabou…. — Sua voz era suave, mas firme.
— Vou fazer tudo que estiver ao meu alcance, e o que não estiver, para
consertar isso — murmurei as palavras com uma sinceridade desesperada,
enquanto ela permanecia enlaçada em meus braços. O silêncio pairou entre
nós, mas, nas entrelinhas daquele abraço, era como se um entendimento
mútuo estivesse se formando.
Naquele momento, desejei com todo o meu sofrido e desgraçado ser
que ela voltasse a sorrir de novo, que voltasse a sorrir para mim, e jurei que
faria acontecer, não importava quanto tempo levaria.

Dêem ⭐

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