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Eu sempre gostei de estudar. Nunca fui o tipo de criança que chorava na porta da escola para não entrar. Nunca fui o tipo de adolescente que cabulava aula. Na faculdade, apesar de todas as adversidades, eu ainda tinha uma das maiores médias da turma. Entretanto, existiam exceções para minha vibração com os estudos. Sabe aquela aula tão chata que você não conseguia manter seus olhos abertos? Quando uma piscada que deveria durar um attosegundo, acaba durando três segundos? Isso resume bem o que era a aula do professor Vitor.

Graças a ele, eu havia desenvolvido uma técnica, que metade da sala já havia aderido: Anotar cada palavra do professor. Eu apostava comigo mesma que conseguiria anotar um parágrafo inteiro sem interrupções, para isso eu tinha que escrever bem rápido. O professor Vitor ajudava bastante, já que ele sempre falava como se estivesse com cinco batatas na boca e numa lentidão terrível. No final, todos comparavam seus cadernos, se alguém estivesse com uma frase a menos que todo mundo, já sabíamos que essa pessoa havia perdido um parágrafo.

Eu já estava igual um zumbi, sentia meus olhos arderem, mas esse método mantinha todos acordados, gerava uma divertida competição e ainda éramos obrigados a prestar atenção na aula. Às vezes, ficava um pouco confuso, mas na prática geral, funcionava direitinho.

- Vivi? – Ouvi a voz de lucca chamar meu nome em uma cadeira atrás da minha, mas não quis me mover. Olhei para o lado, preocupada com a disputa e notei que Mary escrevia tão rápido que já tinha uma frase inteira antes da minha. – Quer que eu passe na sua casa hoje?

Franzi a testa, em dúvida sobre o que ele estava falando. Inclinei meu corpo um pouco para trás, tentando ouvi-lo melhor. Lucca foi um dos primeiros amigos que fiz em Meridian. Fizemos nosso primeiro projeto de área juntos, nos tornamos bem próximos após isso e eu até conheci sua adorável família.
O "adorável" foi ironia.

- Para quê? – Questionei, confusa. Resmunguei quando precisei pular uma grande quantidade de palavras para chegar na frase atual do professor.

- O aniversário da Hellena. Você esqueceu? – Reclamou, cutucando meu ombro. Eu tinha esquecido completamente, é claro. Com o semestre chegando ao fim e minha vida amorosa explodindo de uma forma diferente a todo final de semana, eu acabava ficando bem alheia a tudo em minha volta. – Droga, Vivi! Você me prometeu…

Lucca era o típico "pobre menino rico". Ele não se adequava aos padrões que sua família, podre de rica, impunha sobre ele.
Começando pelo fato de ser uma família cristã ortodoxa e ele era bissexual assumido. Acho que só não o expulsavam de casa pois ele era inteligente e estava sempre salvando a editora da família de afundar-se em polêmicas e mal gosto. Apesar de todo o dinheiro e status, o homem não gostava nada da vida que levava. Ele, na verdade, sempre quis ser pintor.

Hellena, sua irmã mais velha, era diferente dele. Ela era atriz e cantora, já havia até participado de um musical na Broadway. Hellena era uma mulher legal, mas sua criação no meio do luxo e riqueza acabaram deixando marcas fortes em sua personalidade. O nariz empinado e o esnobismo era uma delas. Apesar de eu ter problemas com gente rica, acabamos nos tornando amigas. Eu adorava musicais e Hellena encontrou em mim uma parceira em potencial para suas festas musicais, já que Lucca fugia dos padrões impostos sobre gays/bissexuais e odiava musicais.

- Ah! É claro que eu não esqueci! É que eu estava concentrada aqui. – Larguei a caneta, olhando para os lados, vi Mary e Enzo sorrindo debochados ao perceberem minha desistência. Aceitei a derrota no jogo que eu mesma criei. – Que horas? É hoje mesmo?

- Posso passar às 22h? – Concordei, assentindo. Sorria, mas por dentro, quis morrer.

Quando voltei às aulas, após o acidente, a psicóloga da faculdade achou melhor que eu me focasse apenas em uma coisa de cada vez. Na semana seguinte, eu já havia pedido demissão do Daily, jornal em que eu trabalhava e que era culpado pelos meus recentes surtos. Mas é claro que eu não ficaria quieta, focada em apenas uma meta. Agora eu era monitora da disciplina Ética Jornalística. Com meu recente desemprego, eu tive tempo o suficiente para melhorar minha situação na faculdade e agora eu tinha tempo para dar aulas todas as quintas e sextas.

Loml? | Will grayson Iv Onde histórias criam vida. Descubra agora