- Eu sei, Drª. Eu só estou... – Respirei fundo antes de voltar a sentar, colocando meus óculos novamente. Toquei em uma mão de Huang, que repousava sobre a mesa. – Graças a você, eu tenho um ótimo psicólogo, pude voltar as aulas logo após o acidente que sofri…
Obrigada por tudo, de verdade. É só que...
- É difícil de aceitar, eu entendo. Já tive essa conversa com alguns alunos antes de você... – Confidenciou, bebericando um pouco de algo em sua xícara de porcelana.
Conversamos por mais uns minutos, onde ela me passou as informações e instruções do que aconteceria comigo nos próximos dias. Tentou meu convencer a ficar, mas sem a bolsa, eu não tinha condição alguma. Eu dependia inteiramente da bolsa de auxilio para viver em MC. Em Thunder Bay, querendo ou não, seria bem mais fácil de continuar a graduação. Eu só precisava de alguns papéis para finalizar minha transferência para minha cidade natal, já que eu havia finalizado a maioria das matérias daquele semestre. Após o recesso de natal, no mês de janeiro, eu já estaria oficialmente integrada a uma unidade da Universidade Nacional no meu estado.
Logo Anna pediu licença, já que precisava ter a difícil conversa com outros bolsistas. A mulher pediu-me desculpas mais uma vez antes que eu saísse da sala. Eu não queria deixá-la pior do que ela parecia, então eu fingi que eu não estava em pânico quando despedi-me dela. Pelo menos até a hora em que encontrei Mary, sentada no chão, esperando por mim no corredor.
- E aí? O que ela queria? – Mary levantou e veio em minha direção, limpando a calça com as mãos. Não falei nada, apenas me joguei em seus braços, abraçando-a com força. – Ah, não. Tem algo errado.
- Você não vai acreditar... – Proferi, magoada.
Expliquei para a garota tudo o que tinha acontecido, repetindo as mesmas palavras que a reitora. Até mesmo para tentar aceitar melhor, mas a cada vez que eu falava que estava indo embora de MC, parecia uma ideia ainda mais absurda.
- Não tem mesmo como...? – Balancei com a cabeça, negando. Mary suspirou fundo, jogando os braços sob meus ombros. – Caramba, vivi. E agora?
"E agora?"
Essa pergunta vinha me assombrando demais esse ano. Foi a mesma pergunta que Bianca fez quando eu descobri sobre seus sentimentos. Foi a mesma pergunta que William fez quando me contou que estava indo embora. Foi a mesma pergunta que Fane fez quando nós deixamos o celular de Gabb cair no vaso sanitário tentando tirar umas selfies divertidas. A verdade é que eu não sabia o que fazer agora.
Eu estava totalmente desnorteada. Voltar para Thunder Bay – distrito onde eu morava – não estava em meus planos pelos próximos quatro ou cinco anos. Eu tinha planos de ficar em Meridian mesmo depois da formatura. Agora, eu sentia que a cidade estava me expulsando, deixando-me na porta com minhas malas já prontas. Fazia um mês desde que William se fora, agora faltavam duas semanas para eu ir também. Eu voltaria a Thunder Bay no recesso, iria celebrar o natal em Thunder Bay, como de costume. Entretanto, dessa vez eu não voltaria alguns dias depois e essa veracidade estava me matando.
Tive que repetir a mesma explicação mais três vezes para o resto dos meus colegas de classe, já que muita gente não estava entendo porque eu, dois alunos da mesma sala e vários de outras salas, estavam desolados após sair do escritório da reitoria.
- Você não vai se formar com a gente? – Noah, um cara ruivo e bom demais para seu próprio bem, um grande amigo meu, choramingou e abraçou-me pelos ombros. Encostei a cabeça em seu ombro e fechei os olhos porque senti que ia começar a chorar ali mesmo.
Passar a formatura ao lado de outra turma, em outra cidade, com pessoas que eu sequer conhecia, deixava-me destruída. O que seria pior que isso?
- Vivi? – Abri os olhos ao ouvir o chamado de Lucca, que me olhava consternado. – Você já falou com a Bianca?
Isso seria absolutamente pior.
Dirigi calmamente pelas ruas da cidade, tentando retardar minha chegada em casa. Eu só conseguia notar que caiam alguns fracos pingos de chuva por conta das marcas que apareciam no para-brisa do meu carro. Deixei as janelas abertas, aproveitando o tempo gélido que fazia para me afundar em um casaco que William havia deixado para trás. Não tinha mais seu cheiro, mas a lembrança dele ali quase parecia um conforto. A voz melancólica de Beck Hansen era a minha companhia, eu murmurava baixinho a letra, esperando que o cover da música de Daniel Johnston desse um pouco de vazão à minha dor.
Enquanto esperava o semáforo mudar de cor, comecei a pensar nas tantas mudanças que haviam acontecido comigo nesse ano, que eu começaria a classificar como o mais intenso da minha vida dali em diante. Eu sentia que minha vida era uma grande quebra cabeças, onde eu encaixava duas peças e quatro saiam do lugar. Eu costumava quebrar as regras que me eram ditadas, mas agora, todas as regras que eu ditava acabavam sendo quebradas pelas outras pessoas.
Eu não costumava ser uma pessoa de choro fácil, porém, desde que eu comecei a frequentar as consultas com o psicólogo assiduamente, eu havia aprendido que chorar não era sinal de fraqueza e sim, sinal de que você sente. E está tudo bem em sentir. Então, eu chorei durante o meu caminho inteiro até em casa. Logo meus devaneios sobre mudanças tornaram-se esmagadores quando dobrei a esquina e vi meu prédio, desbotado e caindo aos pedaços. Minha casa.
Tentei recompor-me quando cheguei em frente ao 305, tentei engolir aquele bolo de angústia que estava preso em minha garganta, mas minha tentativa falhou quando abri a porta e vi a habitual cena que sempre aquecia meu coração. Fane estava sentado no chão, olhando atentamente para a TV, com um prato em mãos. Bianca estava deitada no sofá e mexia no celular e Gabriel mexia nas panelas em minha cozinha, como sempre. Fiquei parada na porta, encarando a todos ali presentes. Aquilo ali era meu lar, minha casa e ninguém me faria pensar o contrário. Fechei a porta, respirando lentamente. O apartamento de Fane era bem localizado, Will IV nunca estava em casa e a casa de Gabb era a maior de todas, mas ainda assim, meu apartamento ainda era o ponto de encontro preferido do grupo. Eu entendia, eu também era apaixonada por aquele lugarzinho.
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Loml? | Will grayson Iv
Fiksi PenggemarEla já foi a vilã que tentou separar o casal principal por solidão e falta de amor. Ela já foi traída pelo casal principal que eram vizinhos e se apaixonaram perdidamente. Ela já foi a amiga parceira da mocinha nerd que se apaixonou pelo popular. El...
