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- Você vai vomitar no meu carro? – Questionei, tentando manter a expressão fechada para esconder minha ansiedade.

- Eu, sinceramente, não sei! – Gargalhou alto como se fosse a coisa mais engraçada já dita.

- Só vou pegar um casaco, aí nós vamos. – Avisei, virando o corpo para procurar o meu casaco.

Foi difícil alguém do meu tamanho ter que praticamente carregar William até o carro, foi difícil até chegar no elevador, mas difícil mesmo foi fazê-lo desistir da ideia de ir comprar milk-shake de morango. Eu falo sério quando eu digo que ele abriu a porta do carro em movimento quando eu passei em frente ao McDonald's 24h, ignorando seus pedidos. Acabei dando a volta e comprando-o o maldito milk-shake.

A cena tornou-se sutilmente nostálgica para mim. Eu, dirigindo pela chuva fina, enquanto Grayson cochilava no banco ao meu lado, o mesmo que havia acontecido a meses atrás, quando o conheci no Carté. Nas mãos dele, o milk-shake pela metade, quase derretido. Revirei os olhos, odiando-me por ceder as vontades dele. Peguei o copo da sua mão e tomei, sentindo o gosto do nosso beijo no píer.
Talvez essa fosse a intenção, me fazer lembrar do início agora que parecíamos estar no fim.

- Violet ? – A voz baixa e rouca de William me chamou de modo suave, arrancando-me da minha lembrança. Eu amava que apenas William me chamava pelo nome inteiro. Nem meus pais me chamavam de Violet , todos só me chamavam de "Vivi". Eu gostava disso, pois parecia uma coisa só dele. Coisa nossa.
Eu só conhecia duas Violet s. Violet Evergarden e Violet Harper.
De Violet Evergarden, eu só tinha o azar e o dedo podre para relacionamentos, também ao fato de não compreender totalmente meus próprios sentimentos e os dos outros, mas eu tinha muito de Violet Harper. Ela era uma cantora argentina que tinha os cabelos platinados e em todas as vezes que a vi, ela usava um vestido preto rodado. Eu sempre a via quando ia à feira do outro lado da cidade aos sábados pela tarde. Eu amava vê-la xingando as pessoas e furtando frutas das barracas.
Acho que eu era a única pessoa que gostava de Violet , o resto do mundo só a via quando ela cantava. E como cantava! Ela dizia que era triste, referia-se a Etta James como Deus e me disse que o amor era superestimado e supérfluo. Um mês depois, eu vi Harper de novo. Estava apaixonada e casada.

Uma vez, contei a ela que meu nome também era Violet . Ela sorriu, entregou-me uma de suas peras roubadas e disse: "O fardo de ser Violet só existe graças na ficção, esses desgraçados".

- Você estava simplesmente deslumbrante hoje. – Articulou, lentamente. Estranhei William não estar falando exageradamente, talvez ele não estivesse tão bêbado assim.

- O elogio que eu esperei a noite inteira. – Confessei, sem conter um sorriso.

- Você me desculpa não ter falado antes? – Perguntou, achei adorável ao extremo ele estar receoso comigo.

- Antes tarde do que nunca, não é? – Virei o rosto para olhá-lo no mesmo segundo em que ele virou também. Como dois adolescentes envergonhados, viramos o rosto para frente logo em seguida, não suportando o nosso próprio peso.

Parei no início da rua de pedras já tão conhecida por mim. Estacionei e apoiei as mãos no volante. Pela segunda vez, eu não sabia como agir perto dele. Não sabia como dizer adeus, não sabia se o abraçava, acenava. Não sabia o que nós éramos, o que não éramos mais.
Antes que eu fizesse algo, William abriu a porta, mas pensou por dois segundos e fechou a porta novamente. Olhou-me interessado, estudando minha expressão.

- Sobe comigo? – Eu não sei o que acontecia comigo quando se tratava de William Grayson. Eu travava, tropeçava, me atrapalhava, meus pensamentos se tornavam incoerente.

O que era isso, afinal? Eu costumava ser uma pessoa centrada e calma, mas era apenas William falar algumas palavras a mais e eu me perdia completamente. Nem era minha intenção tratá-lo mal ou algo assim, eu tinha plena consciência que não o merecia, mas não conseguia evitar questionar suas intenções comigo.
O universo brincou comigo várias vezes, me colocando em histórias de amor como coadjuvante e antagonista, que quando chegou minha vez de ser protagonista, eu acabava pisando na bola e me tornando uma babaca gigantesca.

- William... – Interrompeu-me, provavelmente percebendo que eu ia dar para trás. Eu nem sabia porque ia dar para trás! Eu estava desesperada para pular no colo dele e beijá-lo a noite inteira.

- Que porra, Violet ? Eu vou embora amanhã, vou sumir da sua vida por um tempo! Será que dá para subir comigo e deixar eu te beijar? Por que eu acho injusto você aparecer assim, estupidamente linda e sair com outro. – Retrucou, meio embolado. Ok, talvez eu estivesse errada e Will IV estava um pouco bêbado, sim. Era fácil medir seu nível de álcool quando falava sem parar. – Eu sei que tem alguma coisa acontecendo, e que Bianca está no meio disso tudo. Só que eu ainda estou tentando entender muito coisa e você deve achar que eu sou o maior idiota da face da terra, mas será que você pode fazer o favor de deixar eu me despedir de você do jeito que eu quero?

- Você não vai embora para sempre. – Tentei argumentar, sentindo o nervosismo cada vez maior conforme ele aproximava-se. Estremeci quando ele citou Bibi na conversa, ele sabia? Bianca avisaria se falasse com ele. Ambos estavam bêbados demais hoje, poderia algo ter saído sem querer.

- Você é impossível. – Riu sem humor, bagunçou o próprio cabelo e saiu do carro, batendo a porta com força. Trombei a cabeça no volante, sentindo-me uma completa idiota.

William Grayson estava ali, vulnerável e pedindo por mim. Por mim. Ele passou a noite ao lado de Bianca e pediu para ficar comigo. Ele sempre voltava para mim e eu voltava para ele. Eu o queria tanto quanto ele me queria, por que era tão difícil para mim simplesmente deixar essa angústia de lado? Eu não tinha mais dúvidas de meus sentimentos por ele, porque eu não ligava o foda-se e arriscava? Eu só precisava de dois segundos de coragem.

Sem importar-me com a chuva, sem me importar em estar descalça, estacionei o carro do melhor jeito que pude, sem conseguir conter a tremedeira em minhas mãos. Saí do carro, dando uma corridinha pra alcançá-lo e quando cheguei ao seu lado, segurei sua mão. Ele não me olhou de volta, mas deixou que eu segurasse sua mão desajeitadamente. E isso já significava muito.
A casa dele era a última da viela de pedras, então até lá, fui apenas sentindo as gotas de chuva tornarem-se fortes e geladas contra o meu rosto, embaçando minha visão. Tudo o que fizemos desde que entramos em sua casa foi automático e não trocamos uma palavra sequer. William fora direto para o banheiro e eu fiquei meio em dúvida do que fazer a seguir, mas lembrei que estava ali para levá-lo até o aeroporto então fui até o quarto dele. Uma mala aberta em cima da cama e uma mochila por fazer deixavam a área ainda mais bagunçada do que de costume. Aproveitei para dobrar algumas roupas amassadas e controlar a ansiedade enquanto ele não saía do banheiro. Engoli em seco quando abri o armário dele e notei-o quase vazio.

Loml? | Will grayson Iv Onde histórias criam vida. Descubra agora