Ao contrário do que eu pensei, os dias após a partida de William passaram de forma inesperadamente ligeira. Com a faculdade tomando grande parte do meu tempo, eu quase não senti falta do rapaz. Eu disse "quase", pois haviam dias em que eu sentia falta até das nossas brigas alucinadas e imprudentes. Sentia falta de servir de motorista para ele e de seus resmungos. E haviam noites que a saudade era grande demais para uma simples ligação me ajudar. Então, a saudade ficava ali, guardadinha e recolhida no meu peito.
Também nos dias seguintes, Bianca e eu conversamos muito sobre tudo o que havia acontecido nos últimos meses. Bianca deixou claro que ainda tinha uma queda (um abismo) por William, mas eu também fiz questão de avisar que desistir dele não era mais uma opção. Ela sempre mudava de assunto, alegando estar envergonhada, disse que nunca mais queria falar sobre aquilo e propôs fingir que nada nunca aconteceu. Nós tentamos resolver até nossas antigas pendências. Conversamos sobre coisas que nunca tínhamos falado antes, como nossa primeira grande briga na época da escola, quando ela se envolveu com um delinquente juvenil da nossa área. No fim, Bianca aceitou minha teoria de que ela só havia se metido nessa confusão por conta da reprovação de seus pais com o rapaz. Ela nem sequer gostava dele mesmo, era pura provocação.
A quarta-feira estava agradável, o tempo ameno e, o melhor, sem nuvens. O meu dia estava sendo completamente normal. Eu estava realizando todas as minhas atividades costumeiras: Acordei cedo, fui para a fisioterapia e para a psicoterapia, preparei minhas aulas durante a manhã quando voltei para casa, arrumei a sala, preparei o almoço com o auxílio de minha linda mãe via chamada de vídeo. Fui para a faculdade e assisti minhas primeiras aulas do dia. Até que Anna Huang, a mulher de longas tranças nagô por todo o cabelo e olhos puxados, solicitou minha presença em sua sala.
E meu mundo inteiro virou de cabeça para baixo pela segunda vez no ano.
- Não acho que eu esteja entendendo muito bem, Dra. Huang. – Pisquei repetidas vezes, alisando minhas mãos ansiosas em minha saia jeans. A sala amarela da reitoria da Universidade Nacional de Meridian City parecia menor a cada palavra da mulher sentada do lado oposto da mesa.
- Toda a direção mudou, Srta. Valentine. Com isso, nós perdemos grande parte dos fiadores e... – Tentou explicar o que eu já havia compreendido.
- Não, isso eu já entendi. Eu só queria ter a certeza que estou sendo mandada embora! – Engoli em seco, falando um pouco mais grosseira com Huang. Minha garganta parecia seca demais, mesmo depois de ter dado um longo gole de água do copo que me foi servido.
- Você foi uma das melhores acadêmicas financiadas que tivemos aqui. Vimos o quão longe você chegou, acompanhamos sua luta contra você mesma, te apoiamos e você foi…
- Ah, meu Deus! Eu realmente estou sendo expulsa. – Obstruí a fala da mulher novamente quando senti o tom de despedida em sua voz. Levantei da cadeira, retirando meus óculos e comecei a ofegar. De repente, parecia não haver oxigênio algum ali. Comecei a mover meus braços para cima e para baixo, afim de gastar toda a adrenalina que meu corpo havia reunido após a notícia.
Eu sabia que a diretoria da universidade havia sido modificada, é normal, acontece sempre que o governo também muda. Eu só não sabia que essa mudança poderia afetar a mim, não sabia que existia mais alguma forma do universo me ferrar. Dra. Huang contou que, com a mudança de todo o corpo docente do lugar, eles perderam muitos fiadores por conta da mudança política no local e para cortar os gastos, eles decidiram acabar com alguns programas. E como a corda sempre arrebenta para o lado mais fraco, o financiamento estudantil interestadual fora o primeiro a ser cortado.
Em outras palavras, significava que a minha hora de voltar para casa chegara (bem!) antes do que eu imaginei.
- O que eu faço? O que eu vou fazer agora? – Murmurei para mim mesma várias vezes, sentindo minha cabeça rodar, como se eu tivesse tomado taças de vinho o dia inteiro.
- Violet ... – Chamou, parecendo alarmada com minha agitação preocupante até para mim.
- Eu não sei o que fazer agora... E-eu tenho provas para fazer! – Rebati em tom de questionamento. Eu buscava razões absurdas para ficar, mesmo sabendo que nada do que eu falasse faria diferença.
- Bom, você não é mais alun... – Parou bruscamente, notando que sua frase provavelmente seria bruta demais para mim. A reitora tomou uma grande quantidade de ar antes de continuar. – Você agora é estudante da UN de Thunder Bay, então, todo o processo vai continuar lá…
- Mas a minha irmã, Clary, está morando com meus pais de novo. E ela está dormindo no meu antigo quarto. E William foi embora um dia desses, não é justo eu ter que ir também! – Desatei a falar em um claro ato de desespero e pânico. A mulher em minha frente suspirou profunda e pesarosamente. Eu sabia que a reitora não fazia ideia de quem eram as pessoas que eu estava citando, mas não liguei. Só precisava pôr em palavras meu desatino. – Eu tenho meus alunos, a monitoria…
- Srta. Valentine! – Interrompeu-me com uma voz grave, que me assustou. Imaginei que eu devia estar torturando a mulher com meu surto. – Você precisa ir para casa.
- Eu nem sei mais onde fica minha casa. – Minha voz falhou quando proferi tal frase.
- Eu faria o possível por você, Violet , mas para ser bem sincera, eu não sei nem se eu vou sobreviver a tudo isso. – Ela parecia aflita ao ver meu breve estado de desespero. Eu andei pela sala de um lado para o outro, meus cabelos já quase não sobreviviam ao ataque constante de minhas mãos.
Eu não acreditava no que estava acontecendo. Faltava menos de um ano para eu me formar, eu não podia simplesmente desistir agora, mesmo que eu não quisesse mais uma carreira no jornalismo. Minha mente trabalhou rapidamente, buscando por soluções para meu infortúnio. Eu daria tudo para ficar em Meridian City, mas minha graduação é minha prioridade. Em poucos segundos de raciocínio, eu comecei a aceitar a minha ida. Eu poderia voltar depois de formada, as coisas definitivamente seriam diferentes sem o auxílio do governo, apenas com uma boa ajuda dos meus pais. Eu nem sei se daria certo, porém, eu precisava ter um conforto, uma esperança de que eu voltaria um dia.
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Loml? | Will grayson Iv
Fiksi PenggemarEla já foi a vilã que tentou separar o casal principal por solidão e falta de amor. Ela já foi traída pelo casal principal que eram vizinhos e se apaixonaram perdidamente. Ela já foi a amiga parceira da mocinha nerd que se apaixonou pelo popular. El...
