Capítulo 44

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NACH KYLEE
Washington - Seattle

Era o aniversário dela.

Eu sabia disso, claro. Como eu poderia esquecer? Angel falava desse dia como se fosse o mais especial do ano, sempre sonhando com festas, presentes e o tipo de atenção que só ela conseguia carregar com tanta naturalidade.

E eu... eu estava sentado no meu carro, estacionado a alguns quarteirões de distância da casa dela.

Eu não devia estar aqui. Não fazia sentido. Passei as últimas semanas convencendo a mim mesmo de que me afastar era o melhor para ela. De que Angel seria mais feliz sem mim. Mas, mesmo assim, eu estava aqui.

Porque, por mais que tentasse me convencer, algo dentro de mim gritava que ela merecia mais do que um silêncio covarde.

Do banco do passageiro, o pequeno pacote embrulhado em papel prata parecia me encarar, me provocando. Era um presente simples — um colar de ouro com um pingente de asa. Algo simbólico, para lembrar a ela que, mesmo se eu não pudesse estar lá, eu sempre estaria com ela.

Como um anjo da guarda.

Solto uma risada com isso. Ela vive dizendo que sou "pecador", o próprio inimigo. Mas agora, aqui estou eu, segurando um presente que grita o contrário.

Encostei a cabeça no volante e fechei os olhos por um segundo, tentando encontrar coragem onde parecia não haver nenhuma.

Eu sabia que Angel ficaria furiosa comigo. Ela tinha todos os motivos para isso. Depois de semanas sem dar notícias, sem responder suas mensagens, sem sequer aparecer na escola... como eu poderia esperar outra coisa?

Mas eu precisava vê-la.

Estou prestes a sair do carro quando meu celular vibra no bolso.

— Achei que tivesse dito para ficar longe disso hoje - a voz do meu pai vem carregada de sarcasmo.

— Estou de folga - respondo secamente, minha paciência já desgastada.

— Não existem folgas nesse trabalho, filho. Você sabe disso.

Apenas desligo o celular. Eu sabia que, se respondesse, ele me puxaria para algum "compromisso" de última hora e eu nunca chegaria até ela.

Mas ainda assim, a dúvida me corroía.

Eu devia aparecer? E se minha presença estragasse o dia dela? E se ela me odiasse por ter sumido?

Merda.

Antes que pudesse pensar demais, pego o presente e saio do carro. Meu coração bate como um tambor enquanto me aproximo da casa.

Ao chegar no jardim, avisto a Angel de longe, rindo com as gêmeas e seus amigos. Ela estava linda. O vestido azul claro realçava sua pele, e o sorriso... aquele sorriso poderia destruir qualquer homem.

Mas, ao mesmo tempo, havia algo diferente. Uma tensão nos ombros, um olhar perdido, como se, mesmo no meio da festa, ela estivesse em outro lugar.

E então, como se sentisse minha presença, ela virou a cabeça e nossos olhos se encontraram.

O sorriso desapareceu.

Ela congelou por um instante, e eu senti meu peito apertar. Mas não era raiva que eu via em seus olhos. Era algo mais profundo.

Por um momento, apenas nos encaramos.

Porém, Elicha quebra nosso contato quando começa a andar em minha direção. As pernas perfeitas e graciosas pareciam flutuar enquanto ela se aproximava, mas sua expressão não deixava dúvidas: ela estava confusa, talvez até magoada.

Transando Com A MorteOnde histórias criam vida. Descubra agora