ELICHA ANGEL
Washington - Seattle
Um dia eu disse a ele que não queria machucá-lo. Que tinha medo de algum dia as minhas emoções saírem de controle e algo de ruim acontecesse. E eu pensava que nunca teria uma família feliz, porque ninguém iria querer uma garota problemática ao seu lado.
Por isso, preferia manter distância.
Mas ele quis.
Nach não fugiu. Ele ficou. Ele queria que aquilo desse certo. Ele insistiu. Nós insistimos.
E foi a primeira vez que eu sonhei em ter uma família — um noivo, um filho, um casamento. Até a notícia de que havia algo que me impedia de ter filhos... aquela notícia não teria me abalado tanto se eu não tivesse me envolvido com ele.
Parecia que o universo queria nos ver separados pela eternidade. De qualquer forma. Porque essa merda aconteceu, um simples acordo e um aperto de mãos. Ele disse que faria qualquer coisa por mim, mas esse contrato não... tinha nenhuma forma de ser anulado.
Eu não vou mentir. Nos primeiros dias, eu quis morrer. Mesmo sabendo dos motivos, mesmo sabendo que era para nos proteger. Porque saber não muda nada quando a dor se agarra a você como uma praga, espalhando-se até os ossos, contaminando cada pensamento, cada tentativa de seguir em frente.
E o pior é que ele me pediu isso. Para seguir em frente. Como se fosse fácil. Como se ele não fosse a porra da razão pela qual eu conseguia respirar. Como se eu pudesse apagar tudo o que vivemos com um estalar de dedos.
Eu sei que para ele também não foi fácil, mas dói saber que nunca mais teremos contato. Que eu nunca irei saber nada sobre ele — onde ele está, onde mora, ou se pelo menos continua vivo. Tudo por causa dessa merda de sigilo.
— Você precisa comer, Eli. - Megan diz, enquanto eu encaro meu prato de comida sobre a mesa.
Eu não estou afim.
Seguir em frente.
Eu preciso seguir em frente.
As aulas acabaram, o ensino médio acabou e agora eu tenho que ir para a faculdade. Apesar da confusão mental — os remédios me ajudam a controlar isso, porém o processo está sendo lento devido a ingestão de drogas — quando aquela loira filha da puta aparecer na minha frente eu juro que vou matar ela.
não deixamos essa história para trás.
Harley está sendo julgado pelos seus atos. Nós conseguimos gravações das câmeras do banheiro da Holf High School no exato momento em que ela trocou os meus remédios.
Eu ainda não acredito como pude confiar nela. Ela é maluca.
Literalmente.
Mas eu acreditei que ela finalmente pudesse mudar. E não que ela fosse capaz de fazer isso comigo, algo tão cruel e baixo.
O curso que escolhi foi...
Psicologia.
Eu sei, parece clichê. A garota emocionalmente ferrada decide estudar a mente humana como se isso fosse curar alguma coisa. Mas não é sobre cura. É sobre compreensão. Sobre entender por que eu sinto tudo tão forte. Por que pessoas como eu existem. Por que pessoas como ela fazem o que fazem.
No fundo, acho que também é uma forma de me manter perto do Nach. Ele sempre dizia que eu tinha um jeito estranho de ler as pessoas — como se eu enxergasse além. Talvez eu enxergasse ele, por inteiro, e por isso doeu tanto quando ele se foi.
E talvez eu queira ajudar outras pessoas a não chegarem no ponto que eu cheguei. Ou talvez seja só mais uma tentativa de me salvar.
O prédio da faculdade fica a alguns quarteirões da minha casa. Megan está comigo sempre — ela faz medicina veterinária na mesma universidade que eu.
Bellhaven University
Addy e Scott estão na casa de verão dos pais delas, mas logo começam os cursos. Eu não faço ideia do que eles querem fazer. Ele só estão aproveitando algum tempo juntos, já que Scott foi aprovado em uma universidade fora do país por ser um dos melhores jogadores do time da Holf.
Os olheiros realmente estavam de olho.
Já Nick virou um empreendedor nato. Ele criou uma marca de moletons que se chama "Brutal Soul".
Irônico, né? Vindo de alguém tão solto, que dança no meio da rua, que sorri até quando o mundo desaba. Mas ele sempre disse que todo palhaço tem um pouco de poeta, e talvez ele seja mesmo isso: o cara que transforma dor em piada, e piada em arte.
Ele me chamou para ser modelo, já que eu era "parecida" com ele.
Sabemos que é apenas a cor do cabelo.
Eu até tirei algumas fotos, ele não parava de encher o saco.
Os moletons dele têm frases marcantes, do tipo "rir ainda é um jeito de resistir" ou "minha leveza pesa mais que muita armadura por aí". E olha... vende como água. Tem até influencer usando. Mas pra quem conhece ele de verdade, sabe que aquelas frases não são só estética — são cicatrizes costuradas em tecido.
Ele e Megan ainda se alfinetam, claro. Aquela implicância clássica que todo mundo já percebeu o que significa, menos eles. Eles parecem ter se tornado inimigos. Mas tudo bem. Alguns romances nascem no caos — e o caos parece amar essa turma.
A Harley não apareceu mais. O julgamento está marcado para daqui dois meses. Ela sumiu como um rato acuado, mas a justiça vem. E quando vier, quero estar de pé.
Sem Nach.
Sem remédios trocados.
Sem culpa.
Apenas eu.
E o que sobrou de mim.
fim.
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Transando Com A Morte
FanfictionTransar com a morte não é como ser agredida ou ferida como Ella Quinn, a amiga inocente de Elicha Angel, imaginava. Transar com a morte ia muito além do que só pecar como Harley Morgan pensava. Transar com a morte é como estar no topo da maior mont...
