NACH KYLER
Washington - Seattle
— Se você quer continuar funcionando como um ser humano, precisa dormir, Kyler.
Foi o que Kyla disse antes de praticamente me ameaçar de morte se eu não saísse de lá pelo menos por uma noite.
Agora, estou deitado no sofá da sala, ouvindo a respiração de Lucas vinda do colchão no chão. O pirralho se acomodou ali como se fosse sua própria casa e apagou em questão de minutos, abraçando o ursinho ridículo que trouxe para Elicha.
Ele se mexe um pouco, resmungando algo inaudível, e então volta a ficar quieto.
Fico observando.
É estranho pensar que esse garoto, que não tem nem metade da minha idade, parece entender certas coisas melhor do que eu.
Ele simplesmente aceitou a situação. Aceitou que Elicha está ali, presa naquele estado entre a vida e a morte, e que cabe a nós ficarmos esperando.
Espero que ele esteja certo sobre uma coisa.
Espero que ela possa nos ouvir.
Minha mãe está na cozinha, terminando algo antes de dormir. A casa tem o mesmo cheiro de sempre, uma mistura de café e perfume floral, e por um momento eu me sinto com dez anos de novo.
Mas então olho para o lado e vejo Lucas.
Ele é tão parecido com Elicha que chega a ser estranho. O mesmo cabelo, os mesmos olhos intensos, o mesmo jeito irritante de sempre ter uma resposta para tudo.
Talvez seja por isso que é tão difícil olhar para ele agora.
Porque tudo nele me lembra ela.
E eu não sei se consigo lidar com isso.
.
Na manhã seguinte, Lucas me acorda cutucando meu braço.
— Vamos.
Minha cabeça dói.
— Aonde?
Ele revira os olhos, impaciente.
— Pro hospital, óbvio.
Me jogo para trás no sofá.
— Lucas...
— Se você não for, eu vou sozinho.
Filho da puta manipulador.
Solto um suspiro, esfregando o rosto, e me levanto.
Minha mãe observa tudo da cozinha, tomando seu café como se não tivesse nada a ver com isso.
— Quer que eu faça um café pra você, filho?
— Não.
— Ótimo. Porque eu não ia fazer mesmo.
Lucas ri. Eu só reviro os olhos.
.
Chegamos ao hospital meia hora depois.
Lucas entra no quarto de Elicha como se fosse dono do lugar, indo direto até a cama dela e segurando sua mão.
— Oi, irmã. - Ele fala com a naturalidade de quem tem certeza de que ela está ouvindo.
Eu fico encostado na parede, observando.
— Já descansou demais.
O monitor cardíaco apita suavemente ao lado dela, ritmado, estável.
Lucas balança os pés.
— A mamãe chorou ontem. E você sabe como ela odeia chorar. Então, antes que ela volte e fique irritada, acho que é melhor você acordar logo.
Levanto uma sobrancelha.
— Ótima motivação.
Ele me ignora completamente.
— Eu também chorei, mas não conta pra ninguém, tá?
Minha garganta aperta.
Lucas respira fundo, olhando para ela.
— O Kyler tá aqui todo dia. Acho que ele gosta de você. Mas não muito, porque ele é meio burro e não sabe demonstrar direito.
Jogo a cabeça para trás e encaro o teto.
— Filho da...
— Silêncio, adulto. Eu tô conversando.
Cruzo os braços, bufando, e deixo ele continuar.
— Acho que ele tá com medo. Acha que, se você não acordar, não vai ter mais nada pra ele.
Meu peito aperta.
Esse pirralho precisa calar a boca.
Lucas solta um suspiro exagerado.
— Então, por favor, irmã. Para de enrolar. Você sabe que já descansou o suficiente.
E então...
Os dedos de Elicha se movem.
Meu coração para.
Lucas arregala os olhos, e eu dou um passo à frente, segurando a borda da cama como se minha vida dependesse disso.
O monitor cardíaco pisca, o ritmo muda, e então os cílios dela tremem.
— Elicha? - Minha voz sai quase como um sussurro.
Lucas segura sua mão com mais força.
E então, devagar, os olhos de Elicha se abrem.
Ela pisca algumas vezes, a expressão confusa, tentando focar em mim.
Minha garganta se fecha.
Eu me inclino, sem saber o que dizer. Sem saber se sou forte o suficiente para encarar isso.
Mas então ela fala.
Com a voz rouca, baixa, fraca...
Mas fala.
— Que porra tá acontecendo?
Lucas sorri.
Eu rio.
Porque, claro, a primeira coisa que Elicha Angel diz depois de voltar dos mortos é soltar um palavrão.
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Transando Com A Morte
Fiksi PenggemarTransar com a morte não é como ser agredida ou ferida como Ella Quinn, a amiga inocente de Elicha Angel, imaginava. Transar com a morte ia muito além do que só pecar como Harley Morgan pensava. Transar com a morte é como estar no topo da maior mont...
