Capítulo 54

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NACH KYLER
Washington - Seattle

— Se você quer continuar funcionando como um ser humano, precisa dormir, Kyler.

Foi o que Kyla disse antes de praticamente me ameaçar de morte se eu não saísse de lá pelo menos por uma noite.

Agora, estou deitado no sofá da sala, ouvindo a respiração de Lucas vinda do colchão no chão. O pirralho se acomodou ali como se fosse sua própria casa e apagou em questão de minutos, abraçando o ursinho ridículo que trouxe para Elicha.

Ele se mexe um pouco, resmungando algo inaudível, e então volta a ficar quieto.

Fico observando.

É estranho pensar que esse garoto, que não tem nem metade da minha idade, parece entender certas coisas melhor do que eu.

Ele simplesmente aceitou a situação. Aceitou que Elicha está ali, presa naquele estado entre a vida e a morte, e que cabe a nós ficarmos esperando.

Espero que ele esteja certo sobre uma coisa.

Espero que ela possa nos ouvir.

Minha mãe está na cozinha, terminando algo antes de dormir. A casa tem o mesmo cheiro de sempre, uma mistura de café e perfume floral, e por um momento eu me sinto com dez anos de novo.

Mas então olho para o lado e vejo Lucas.

Ele é tão parecido com Elicha que chega a ser estranho. O mesmo cabelo, os mesmos olhos intensos, o mesmo jeito irritante de sempre ter uma resposta para tudo.

Talvez seja por isso que é tão difícil olhar para ele agora.

Porque tudo nele me lembra ela.

E eu não sei se consigo lidar com isso.

.

Na manhã seguinte, Lucas me acorda cutucando meu braço.

— Vamos.

Minha cabeça dói.

— Aonde?

Ele revira os olhos, impaciente.

— Pro hospital, óbvio.

Me jogo para trás no sofá.

— Lucas...

— Se você não for, eu vou sozinho.

Filho da puta manipulador.

Solto um suspiro, esfregando o rosto, e me levanto.

Minha mãe observa tudo da cozinha, tomando seu café como se não tivesse nada a ver com isso.

— Quer que eu faça um café pra você, filho?

— Não.

— Ótimo. Porque eu não ia fazer mesmo.

Lucas ri. Eu só reviro os olhos.

.

Chegamos ao hospital meia hora depois.

Lucas entra no quarto de Elicha como se fosse dono do lugar, indo direto até a cama dela e segurando sua mão.

— Oi, irmã. - Ele fala com a naturalidade de quem tem certeza de que ela está ouvindo.

Eu fico encostado na parede, observando.

— Já descansou demais.

O monitor cardíaco apita suavemente ao lado dela, ritmado, estável.

Lucas balança os pés.

— A mamãe chorou ontem. E você sabe como ela odeia chorar. Então, antes que ela volte e fique irritada, acho que é melhor você acordar logo.

Levanto uma sobrancelha.

— Ótima motivação.

Ele me ignora completamente.

— Eu também chorei, mas não conta pra ninguém, tá?

Minha garganta aperta.

Lucas respira fundo, olhando para ela.

— O Kyler tá aqui todo dia. Acho que ele gosta de você. Mas não muito, porque ele é meio burro e não sabe demonstrar direito.

Jogo a cabeça para trás e encaro o teto.

— Filho da...

— Silêncio, adulto. Eu tô conversando.

Cruzo os braços, bufando, e deixo ele continuar.

— Acho que ele tá com medo. Acha que, se você não acordar, não vai ter mais nada pra ele.

Meu peito aperta.

Esse pirralho precisa calar a boca.

Lucas solta um suspiro exagerado.

— Então, por favor, irmã. Para de enrolar. Você sabe que já descansou o suficiente.

E então...

Os dedos de Elicha se movem.

Meu coração para.

Lucas arregala os olhos, e eu dou um passo à frente, segurando a borda da cama como se minha vida dependesse disso.

O monitor cardíaco pisca, o ritmo muda, e então os cílios dela tremem.

— Elicha? - Minha voz sai quase como um sussurro.

Lucas segura sua mão com mais força.

E então, devagar, os olhos de Elicha se abrem.

Ela pisca algumas vezes, a expressão confusa, tentando focar em mim.

Minha garganta se fecha.

Eu me inclino, sem saber o que dizer. Sem saber se sou forte o suficiente para encarar isso.

Mas então ela fala.

Com a voz rouca, baixa, fraca...

Mas fala.

— Que porra tá acontecendo?

Lucas sorri.

Eu rio.

Porque, claro, a primeira coisa que Elicha Angel diz depois de voltar dos mortos é soltar um palavrão.

Transando Com A MorteOnde histórias criam vida. Descubra agora