NACH KYLER
Washington - Seattle
Eu sabia que não deveria estar aqui.
O shopping lotado, as risadas espalhadas pelo ambiente, a música ambiente tocando no fundo—nada disso combinava comigo. Esse tipo de lugar sempre foi mais dela do que meu. Mas, por algum motivo, eu estava ali, cercado pelos caras, tentando ignorar a sensação incômoda no peito.
Então, vi ela.
Angel.
Foi como um soco no estômago.
Ela estava linda. Sempre foi. Mas, ali, havia algo diferente nela, algo que me fez prender a respiração e apertar os punhos. O vestido realçava suas curvas, os cabelos soltos emolduravam seu rosto delicado, e aquele brilho nos olhos... um brilho que não era felicidade, não era contentamento. Era algo frágil, algo quebrado.
Apertando os olhos, percebi o detalhe que ninguém mais parecia notar: ela não estava bem.
Os passos dela estavam hesitantes. Um tremor sutil percorreu seus braços quando segurou o copo de milkshake. Vi a forma como suas amigas a cercavam, conversando animadamente, sem perceber que Angel oscilava entre a realidade e um abismo invisível.
Ela se virou, provavelmente para ir ao banheiro, e nossos olhares se cruzaram.
E então, tudo desabou.
O copo em sua mão escorregou, caindo no chão e espirrando milkshake para todos os lados.
Angel piscou algumas vezes, como se estivesse tentando focar a visão, mas algo dentro dela já havia cedido. Sua respiração vacilou, os joelhos tremeram, e num piscar de olhos seu corpo tombou para trás.
Porra.
Antes mesmo que eu percebesse, meus pés se moveram por instinto. Atravessando a multidão de forma agressiva, empurrei quem estivesse no caminho. O tempo pareceu desacelerar enquanto ela caía, e meu coração parou por um segundo.
Eu a segurei antes que sua cabeça batesse no chão.
Mas o pior ainda estava por vir.
Seu corpo começou a tremer violentamente. As mãos se fecharam descontroladamente, seu peito arfava como se o ar estivesse escapando.
— Angel, porra, olha pra mim!
Seus olhos estavam revirando, e foi então que vi: o sangue escorrendo pelo canto da boca.
O choque me acertou como um soco.
— Caralho, alguém chama uma ambulância!
A multidão ao redor parecia em pânico, mas ninguém realmente sabia o que fazer. Eu segurei a cabeça dela com cuidado, mantendo-a firme, ignorando o desespero que tomava conta do meu próprio corpo.
Ela estava quente demais. Tremendo demais.
E então, seus lábios começaram a ficar arroxeados.
— Angel, fica comigo. Por favor.
Mas ela não ficou.
O corpo dela foi ficando mole em meus braços, os tremores cessando, e um medo sufocante subiu pela minha garganta.
A ambulância chegou segundos depois, mas para mim pareceu uma eternidade.
E, pela primeira vez em muito tempo, eu senti que estava prestes a perder o controle de tudo.
...
Eu odiava hospitais.
O cheiro de desinfetante e doença, o silêncio pesado, a iluminação branca que tornava tudo mais sufocante. Odiava a forma como o tempo parecia se arrastar, como se cada segundo fosse uma tortura.
E agora, tudo isso estava dez vezes pior.
Angel estava ali dentro, atrás daquela porta, lutando pela vida.
Eu estou parado no corredor, a cabeça baixa, os ombros rígidos, os punhos fechados. Minhas costas encostam contra a parede fria, mas nem isso alivia o calor fervente que queima dentro de mim.
A mãe dela está sentada em uma das cadeiras, os olhos vazios, como se estivesse esperando que alguém dissesse que tudo não passou de um engano. As amigas dela choram baixo, trocando olhares incertos entre si. Kyla está mais afastada, de braços cruzados, as unhas cravadas contra a pele do próprio braço. Ela não chora, não surta. Só observa. Ela sabe o que isso significa.
Mas eu?
Eu estava imóvel.
Eu sentia tudo e, ao mesmo tempo, não sentia nada. Era como se meu peito estivesse vazio, como se meu coração estivesse preso em uma corrente invisível, me apertando a cada segundo que passava.
E então o médico apareceu.
— O estado dela é crítico. Ela entrou em coma.
Por um momento, achei que não tinha ouvido direito.
Mas eu ouvi. Coma.
A palavra me atingiu como um soco.
Minha garganta secou. Minhas mãos ficaram frias.
Eu deveria ter previsto isso. Deveria ter notado os sinais. Mas eu estava ocupado demais tentando me afastar, tentando fingir que ela não era mais minha responsabilidade.
E agora, ela estava pagando o preço.
Mas o pior ainda estava por vir.
O médico pigarreou, olhando para nós com um semblante sério.
— Os exames toxicológicos mostraram algo preocupante.
Eu senti o aperto no peito aumentar.
— Os remédios que ela vinha tomando estavam adulterados.
Eu congelei.
— Adulterados como? — minha voz saiu fria, mas por dentro eu estava em chamas.
— Ela não estava tomando os medicamentos corretos. O que encontramos no organismo dela eram substâncias ilícitas, drogas pesadas.
E então, o mundo parou.
Minha respiração ficou pesada. Meus pensamentos giraram rápido demais, voltando para aquela primeira vez. Aquela primeira vez em que Harley a drogou.
Não podia ser coincidência.
Não era coincidência.
Minha visão ficou turva de raiva.
Minha mandíbula doeu de tanto apertar os dentes.
Harley.
Aquela desgraçada.
O ódio subiu pelo meu corpo como um veneno, queimando minha pele. Ela fez isso. Ela tinha trocado os remédios de Angel, feito ela tomar drogas sem saber, quase a matou.
Eu não podia deixar isso impune.
Eu não ia deixar.
Me levantei abruptamente, os punhos cerrados.
— Nach, onde você vai? — tia Kyla me chamou, mas eu não respondi.
Eu já sabia exatamente para onde estava indo.
Eu já sabia exatamente o que precisava fazer.
E, desta vez, eu não teria piedade.
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Transando Com A Morte
Fiksi PenggemarTransar com a morte não é como ser agredida ou ferida como Ella Quinn, a amiga inocente de Elicha Angel, imaginava. Transar com a morte ia muito além do que só pecar como Harley Morgan pensava. Transar com a morte é como estar no topo da maior mont...
