Capítulo 45

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ELICHA ANGEL
Washington - Seattle

Os remédios para o transtorno bipolar não estão fazendo efeito.

Tive que fazer mais uma consulta com Scarllet, minha psiquiatra. Ela aumentou a dosagem e mudou o tipo de medicamento. Disse que meu corpo pode ter criado resistência aos anteriores. Não sei. Não consigo explicar o vazio que sinto, como se nada fosse suficiente para preencher o buraco que ele deixou.

Faz quatro dias desde que Nach disse que iria embora.

Quatro malditos dias em que minha vida parece estar girando em câmera lenta, cada segundo mais insuportável do que o anterior.

Nós nos cruzamos na escola. Ele está lá, como sempre. Sentado no mesmo lugar na aula de matemática, andando pelos corredores com aquela expressão indiferente, como se tudo estivesse perfeitamente normal.

Mas não está.

Ele não olha para mim. Nem uma única vez nesses quatro dias. Nem mesmo um deslize, um olhar furtivo. É como se eu fosse invisível para ele.

E isso me mata.

Porque, por mais que eu quisesse odiá-lo, por mais que eu me diga todos os dias que ele é um covarde, uma parte de mim ainda o espera. Ainda deseja que ele mude de ideia.

Mas ele não vai.

— Você está bem, Elicha? - A voz de Megan me tira do transe, e eu percebo que estou encarando o armário vazio como se fosse o responsável por toda a minha miséria.

Eu solto um suspiro e dou de ombros, tentando fingir que estou no controle.

— Estou... - minha resposta é fraca, mas é o melhor que consigo oferecer.

Ela me lança um olhar preocupado, mas não insiste. Megan sabe que, se pressionar, eu só vou me fechar ainda mais.

Enquanto ela se afasta, pego meu celular e vejo a mensagem de Scarllet me lembrando de tomar os novos remédios. Um lembrete frio e clínico de que minha vida depende de comprimidos e consultas.

Guardo o celular e fecho os olhos por um momento, tentando conter a onda de emoções que ameaça me consumir.

Por que ele veio até mim naquele dia? Por que ele apareceu, apenas para quebrar o que ainda restava de mim?

E por que, mesmo agora, mesmo com toda a dor que ele causou, eu ainda o quero aqui?

Eu me encosto no armário, sentindo a cabeça latejar, e penso em tudo que Scarllet disse. Os remédios vão ajudar, eventualmente.

É o que ela sempre diz.

Mas não há pílula no mundo que consiga silenciar o grito que Nach Kyler deixou dentro de mim.

Um dia eu disse que qualquer garoto de programa poderia me satisfazer como Nach Kyler. Mas a verdade é que aquilo tudo era uma mentira. Nem eu acreditava no meu próprio pensamento. Não existe outro como o Kyler.

Nunca irá existir.

NACH KYLER
Washington - Seattle

Eu vejo ela todos os dias.

Na escola, eu passo pela aula de matemática sem conseguir me concentrar em uma única palavra do que o professor diz. Meus olhos sempre acabam indo para o canto da sala, onde ela está sentada, com os fones nos ouvidos, rabiscando algo no caderno.

Ela é fodidamente linda, desde os cabelos ruivos que brilham com a luz do sol que atravessa a janela, os olhos verdes e escuros, as bochechas levemente rosadas, a boca redonda e perfeitamente desenhada...

Ela era a perfeição em pessoa, e eu estava destinado a admira-la de longe, quando todos não estavam vendo, quando ela não estava olhando, porque a nossa história era fudida.

É quase como uma tortura.

Mas isso não significa nada.

Porque amor nunca foi suficiente.

A prova disso está nos últimos quatro dias, no silêncio insuportável entre nós, no olhar vazio que ela lança para o nada quando pensa que ninguém está vendo. No modo como sua risada soa mais baixa, como se algo dentro dela estivesse se apagando lentamente.

E eu sei que sou o culpado.

Passo pelos corredores com as mãos nos bolsos, mantendo o olhar baixo, ignorando os comentários dos outros alunos. Eles não sabem de nada. Para eles, Elicha e eu nunca fomos nada além de um erro passageiro. Algo sem importância.

Se ao menos fosse verdade.

Quando saio do prédio principal e atravesso o pátio, vejo Megan ao lado dela. Elicha está com os braços cruzados, balançando a cabeça para algo que Megan diz. Ela finge que está bem. Finge tão bem que qualquer um acreditaria.

Menos eu.

Porque eu conheço cada detalhe daquela garota. Sei que quando ela pisca demais, está segurando alguma coisa dentro de si. Sei que quando ela passa a mão nos cabelos com mais força do que o necessário, está frustrada. Sei que quando morde o lábio e força um sorriso, está tentando esconder a dor.

E, naquele momento, ela está fazendo todas essas coisas ao mesmo tempo.

Megan se afasta, e por um segundo, eu me pergunto se Elicha vai me notar. Se vai levantar a cabeça, se vai olhar para mim como antes, se vai pelo menos me odiar com os olhos.

Mas ela não faz nada disso.

Ela apenas vira as costas e segue em direção ao estacionamento, como se eu não existisse.

E porra...

Dói pra caralho.

Eu achava que sumir da vida dela seria difícil. Mas nada, absolutamente nada, me preparou para o que é ser apagado da dela.

Eu deveria ir embora de vez.

Mas ainda estou aqui.

Ainda respirando o mesmo ar que ela.

Ainda fodidamente preso a algo que nunca deveria ter começado.

Transando Com A MorteOnde histórias criam vida. Descubra agora