NACH KYLER
Washington - Seattle
Os dias passam, mas nada realmente muda.
Elicha continua na cama de hospital, respirando com a ajuda das máquinas, enquanto eu caminho pelo mundo como um fantasma. Meu corpo se move, minha voz dá ordens, meu dedo aperta o gatilho quando necessário, mas por dentro... nada.
A única coisa que me mantém em pé é a promessa que fiz a ela.
A promessa de que ninguém mais vai machucá-la.
No terceiro dia, Lucas apareceu.
O pirralho entrou no quarto como se tivesse pleno direito de estar ali, segurando um ursinho de pelúcia ridículo nas mãos.
— Ela gosta desse - diz simplesmente, colocando o ursinho ao lado dela na cama.
Fico apenas observando, sem saber exatamente como reagir. O moleque nem hesitou antes de puxar uma cadeira e sentar-se ao lado da irmã.
— Quando ela acordar, vai te bater por deixar o cabelo crescer tanto - murmura baixinho, os olhos grudados no rosto dela.
A semelhança com a irmã é inegável.
O mesmo cabelo ruivo ardente, os traços finos e afiados, como se a genética tivesse esculpido os dois para serem versões opostas da mesma moeda. Mas enquanto Elicha parece feita para ser admirada, Lucas tem um quê de... diabólico.
O garoto poderia facilmente passar por uma versão infantil do boneco assassino Chucky. O mesmo sorriso calculista. A mesma aura de que, se você piscar, ele pode cortar sua garganta.
Meu riso sai seco.
— Acha que sim?
— Tenho certeza.
Lucas fica em silêncio por um tempo, os olhos sérios demais para um garoto de seis anos. Então, vira-se para mim.
— Você gosta da minha irmã, né? - Ele me olha, inclinando a cabeça de lado, como se estivesse tentando decifrar minha alma.
Não respondo.
Ele solta um suspiro exagerado.
— Eu sabia.
— Sabia o quê?
Lucas se levanta, ajeita a gola da blusa e me encara como se estivesse prestes a revelar o maior segredo do universo.
— Que você ia se apaixonar por ela.
Franzo a testa.
— E por que achou isso?
Ele sorri de novo, e dessa vez, o brilho nos olhos dele é puro entretenimento.
— Porque você age como um idiota perto dela.
Filho da puta.
Me aproximo da cama e cruzo os braços, observando a forma como ele segura a mão de Elicha. Diferente dos outros, que olham para ela com pena ou preocupação, Lucas está tranquilo.
— Você vem aqui todo dia? - pergunto.
Ele dá de ombros.
— Sim. Mamãe disse que eu devia ficar em casa, mas ela não manda em mim.
Típico.
— Como entrou aqui?
Lucas dá outro daqueles sorrisos inquietantes.
— Eu tenho meus truques.
Meu maxilar trava.
Se esse moleque tivesse nascido no meu mundo, estaria destinado a ser um dos grandes. Ele tem aquela esperteza perigosa, aquele brilho nos olhos de quem gosta de ver o caos acontecer.
Me pergunto se Elicha também era assim quando criança. Se sempre teve essa fagulha de fogo dentro dela.
Afinal, eles são iguais.
Mas enquanto Elicha tem aquele ar de tempestade prestes a desabar, Lucas parece o tipo de problema que você só percebe quando já é tarde demais. Pequeno, afiado e inquieto, ele se move com a energia de quem nasceu para infernizar o mundo. Um demônio de olhos verdes e sorriso de quem sempre sabe mais do que deveria.
Ele encara a irmã desacordada.
— Ela tá estranha assim desde que chegou?
— Não. Ontem ela levantou, dançou um tango e voltou a deitar.
Lucas revira os olhos.
— Nossa, você é tão engraçado. Sério. Devia virar comediante.
Dou de ombros, sem paciência para discutir com um pirralho de seis anos. Mas Lucas, sendo Lucas, não cala a boca.
— Ela vai ficar bem, né?
Eu suspiro e me aproximo do garoto, pondo um braço sobre seus ombros, o abraçando de lado.
— Vai. Só precisa de tempo.
Nós a encaramos por um momento. Mesmo pálida e conectada a mais de dez aparelhos, Elicha Angel conseguia ser a mais bela de todas. Seu cabelo ruivo se destacava entre os lençóis brancos, como uma chama teimosa que se recusava a apagar.
Lucas solta um suspiro curto e se afasta, voltando a sentar na cadeira. Seus pés não alcançam o chão, mas ele balança as pernas de leve, como se estivesse entediado.
— Ela sonha? - ele pergunta de repente, os olhos presos no rosto da irmã.
Franzo a testa.
— O quê?
— Quando as pessoas ficam assim... elas sonham?
Não sei responder. Nunca pensei nisso. Mas a ideia de Elicha presa em algum sonho sem fim me incomoda.
— Talvez.
Lucas assente devagar, como se aceitasse essa resposta.
— Se ela sonha, então ela pode ouvir a gente.
Não respondo, mas fico me perguntando a mesma coisa. Será que Elicha sabe que estamos aqui? Será que consegue sentir quando pego sua mão? Será que escuta quando falo com ela, mesmo que seja só para reclamar do café ruim do hospital?
Lucas se inclina para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos.
— Então você devia falar mais com ela.
Levanto uma sobrancelha.
— Eu falo.
— Não essas coisas idiotas.
Solto um riso seco.
— E o que eu deveria dizer, gênio?
Lucas dá de ombros.
— Que você gosta dela. Que tá esperando ela acordar. Que se ela demorar muito, você vai ficar velho e enrugado. Sei lá. Qualquer coisa.
Reviro os olhos, mas, no fundo, o moleque tem um ponto.
Ele boceja e se estica na cadeira, como se já estivesse acostumado a esperar.
— Vou dormir na sua casa hoje. Mamãe disse que sim.
— E desde quando sua mãe manda em mim?
Lucas sorri com aquele brilho de puro deboche nos olhos.
— Desde que você decidiu se apaixonar pela filha dela.
Balanço a cabeça, soltando um suspiro cansado.
— Você é um pé no saco, sabia?
— Sim. Mas você gosta de mim.
Filho da mãe.
Mas ele não está errado.
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Transando Com A Morte
FanficTransar com a morte não é como ser agredida ou ferida como Ella Quinn, a amiga inocente de Elicha Angel, imaginava. Transar com a morte ia muito além do que só pecar como Harley Morgan pensava. Transar com a morte é como estar no topo da maior mont...
