Capítulo 1

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Nasci e cresci em uma pequena cidade do interior de Minas Gerais. Vivi meus primeiros seis anos apenas com meu pai e minha mãe, em uma infância saudável, cercada de cuidado e amor, mas marcada por uma solidão silenciosa. Não havia outras crianças por perto e meus dias se preenchiam com bonecas, ursos de pelúcia e conversas inventadas. Todas as noites, antes de dormir, eu pedia a mesma coisa em minhas orações: uma irmãzinha.
Meu desejo se realizou quando completei sete anos. Alice chegou à nossa família ainda bebê e com ela vieram o riso fácil, o barulho bom da companhia e a certeza de que eu nunca mais estaria sozinha. Desde então, somos inseparáveis. Mais do que irmãs, parte uma da outra — como se o destino tivesse nos costurado com o mesmo fio, ainda que de tecidos diferentes.
Alice cresceu intensa e divertida, dona de uma beleza vibrante e de uma presença impossível de ignorar. Eu, ao contrário, sempre fui mais contida. Enquanto ela se guia pelas emoções, eu prefiro a lógica e os pés firmes no chão. O coração dela é fogo. O meu, cálculo. Ainda assim, compartilhamos o mesmo riso fácil e uma fé meio teimosa que, de algum jeito, tudo vai dar certo.

Junto com papai e mamãe, éramos uma família feliz. Não vivíamos cercados por luxo, mas vivíamos bem. Para mim, era como um conto de fadas — só que o nosso não teve um final feliz.
Lembro-me daquele dia com uma nitidez que ainda machuca.
Estávamos voltando da casa da vovó Joana, que morava na cidade vizinha, quando uma tempestade nos surpreendeu no meio da estrada. O céu escureceu de repente, a chuva veio de forma densa. Papai diminuiu a velocidade, tentando enxergar o caminho, mas não foi o suficiente — uma van surgiu de repente, desgovernada. O impacto foi violento. Nosso carro atravessou o guard rail e despencou ribanceira abaixo, engolido pela escuridão e o som do metal retorcido.
Não me lembro de como cheguei ao hospital. Só sei que acordei com o peito apertado, como se algo tivesse sido arrancado de mim. Quando perguntei por meus pais, a enfermeira evitou meus olhos. O silêncio veio antes da resposta.
Meus pais estavam mortos.
Eu tinha treze anos. Era apenas uma menina com o coração em pedaços e uma irmã pequena que precisava de mim.
Alice e eu passamos longos dias no hospital nos recuperando dos ferimentos. Ela precisou passar por uma cirurgia e eu fiz vários exames para garantir que as dores que sentia não eram por nada grave. Hoje sei que elas eram muito mais emocionais do que físicas.
Quando finalmente recebemos alta, fomos morar com a vovó Joana — uma mulher doce e cheia de afeto, apesar da saúde frágil. Ela vivia de suas costuras impecáveis e da venda de vasos de flores que cultivava com esmero em seu jardim grande e sempre bem cuidado.
Todos os domingos estávamos com ela na feira livre da cidade, em sua barraca branca e florida. Não por obrigação, mas porque aquele era, de longe, o nosso dia favorito da semana. Entre conversas soltas, vozes chamando clientes e o som das músicas mais tocadas do momento, o aroma do pastel do Seu Pedro se espalhava pelo ar. Ali, por algumas horas, a tristeza ficava em segundo plano — e ainda conseguíamos garantir um dinheirinho extra no fim do mês. Afinal, cada centavo contava.

A vida não foi fácil naquela época. Vivíamos do estritamente necessário; o dinheiro era sempre contado. Muitas vezes, a despensa quase vazia denunciava os dias difíceis e o gás era usado com cautela, como se cada chama precisasse durar mais do que devia. Foram tempos duros. E, em muitos deles, quem nos estendeu a mão foi Camélia — a vizinha de muro, de voz firme e sorriso doce. Ela aparecia com sacolas de mercado, bolos simples embrulhados em panos floridos e palavras que mantinham o mundo no lugar. Nos socorria sem alarde, com uma naturalidade quase invisível — como quem entende que amor também é presença silenciosa.
Vovó Joana nos ensinou a enfrentar as dificuldades da vida com dignidade e fé. Repetia, como um pedido e uma promessa, que jamais desistíssemos dos nossos sonhos, por mais distantes ou difíceis que parecessem. Mas, infelizmente, quando completei dezesseis anos, ela também nos deixou.
E foi ali — entre mais uma perda e o medo de passar a vida inteira lutando para sobreviver — que algo em mim acordou. Então eu criei um plano.

Dezesseis anos e o mundo para enfrentar.

Durante meus dois últimos anos no colégio, passei a me dividir entre os estudos pela manhã e o trabalho na Papelaria Girassol à tarde, enquanto minha irmã frequentava a escola. A papelaria era pequena, mas cheia de vida. Prateleiras abarrotadas de agendas, fichários, canetas, cadernos e mochilas escolares criavam um caos organizado que logo aprendi a entender. Foi ali que comecei a lidar, cedo demais, com contas, responsabilidades e escolhas. E foi naquela rotina simples do comércio que nasceu o sonho de ser contadora.
Na época, eu recebia um salário modesto e os materiais escolares para mim e Alice. Parte do dinheiro eu fazia questão de deixar com Camélia para ajudar nas despesas, mesmo ela recusando — e, em silêncio, depositando tudo na poupança que havia aberto para nós. O restante eu gastava como a adolescente que ainda era: algumas bobagens da moda e umas porcarias gostosas, como dizia vovó, para matar a vontade quando ela aparecia.
Camélia — vizinha e grande amiga de nossa falecida avó — ficou com a nossa guarda graças a um testamento feito pouco antes de sua partida. Sou profundamente grata à vovó por isso. Nenhum dos nossos poucos parentes faria sequer metade do que essa mulher faz diariamente por nós. Digna descendente de italianos, Camélia não abre mão da boa e velha macarronada no almoço de domingo, mesmo com o médico insistindo para que maneirasse nos carboidratos. Ela a prepara com cuidado quase ritual, entre risadas, histórias e um amor que nunca economizou.
Ela se tornou nossa família — não por sangue, mas por escolha. E nós nos tornamos a dela do mesmo jeito. Éramos três tentando sobreviver às próprias perdas. Sozinhas no mundo, até nos encontrarmos. Desde então, seguimos juntas, nos amparando como quem sabe que amor, às vezes, é a única coisa que impede tudo de desmoronar.


                          ❁ ❁ ❁

Passei o ano seguinte à conclusão do ensino médio me preparando. Aos dezenove, ingressei na FACEM — Faculdade Central de Minas Gerais — no curso de Contabilidade, graças a uma bolsa de 70% conquistada à base de muito estudo e disciplina. Alguns meses depois, deixei a papelaria e comecei a trabalhar em uma loja de materiais de construção, no setor administrativo. Passei a conciliar o trabalho durante o dia com a faculdade à noite.
Meu tempo com Alice era curto, mas precioso. Aproveitávamos o horário do almoço para conversar ou adiantar alguma atividade da escola. Antes de voltar ao trabalho, eu a deixava em aula; no fim do dia, ela passava na loja para irmos juntas para casa, onde Camélia sempre a esperava. Restava-me pouco menos de uma hora para tomar banho, me arrumar e correr para o ônibus da faculdade. Quando chegava em casa, depois das onze da noite, quase sempre as duas já estavam dormindo. Eu lhes dava um beijo de boa-noite, devorava a comida deliciosa e ainda quente de Camelinha e apagava — muitas vezes no sofá mesmo.
Todos os dias, no trajeto para a faculdade, eu repassava mentalmente o mesmo plano: me formar, sair dali e conquistar uma vida melhor — sobretudo para elas. Cada noite mal dormida, cada renúncia, cada sacrifício valeriam a pena.
Eu seria bem-sucedida e lhes daria o conforto que mereciam. Repetia isso como um mantra.

Esse era o Plano de Helena.
O meu plano de sucesso.

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