Depois de anos de correria, foco e muita determinação, a primeira etapa de meu plano estava concluída. Helena — a garota do interior de Minas — era, agora, oficialmente uma contadora. E uma contadora ousada, que não descansou até finalmente conseguir sua tão sonhada entrevista em umas das maiores empresas de construção do país.
Eu havia vencido todas as fases anteriores. Restava apenas o último desafio: encarar o diretor-geral da Imperium Construtora. Nada naquele momento era improviso. Trabalho duro, noites mal dormidas, estudo constante, uma pós-graduação em Auditoria e Controladoria e um curso intensivo de inglês haviam me trazido até ali.
Aquela etapa não separava apenas uma candidata de um cargo.
Separava a sobrevivente da estrategista. A garota que resistiu da mulher que estava pronta para vencer.
Belo Horizonte — 09h42, manhã de segunda-feira
A sede da Imperium Construtora parece mais um monumento corporativo do que um prédio comercial. Cravada no coração de Belo Horizonte, ergue-se entre arranha-céus envidraçados, trânsito elegante e cafés silenciosos — desses onde contratos milionários são fechados em mesas discretas.
Reunindo a coragem que ameaça me abandonar naquele instante, caminho em direção à entrada do edifício, forçando passos firmes. A porta de vidro se abre automaticamente com um leve sopro de ar frio assim que adentro o saguão. À minha frente, um painel retroiluminado exibe o nome IMPERIUM em letras metálicas e imensas. O piso de granito polido reflete o ambiente com discrição, enquanto o som dos meus sapatos ecoa pelo espaço amplo, misturando-se às batidas do meu coração.
Me aproximo do balcão da recepção, ajeitando a manga do meu blazer preto com a mão livre, enquanto a outra segura uma pasta fina com meus documentos e um currículo impresso por pura precaução. Atrás do balcão, uma mulher elegante, de expressão neutra, digita silenciosamente em um monitor ultrafino. Assim que nota minha presença, ela ergue os olhos com um sorriso profissional e cumprimenta:
— Bom dia. Em que posso ajudar?
— Bom dia… Eu sou Helena Mendes. Tenho uma entrevista agendada com o senhor Henrique Duarte, às dez.
A recepcionista analisa o nome numa lista digital, sem pressa.
— Ah, sim. Auditora Fiscal, certo?
Assinto, tentando manter a voz firme.
— Sim, isso mesmo.
A mulher me fita discretamente de cima a baixo, com um julgamento quase imperceptível escondido atrás da cordialidade.
— Pode me entregar um documento com foto, por gentileza?
Abro a fina pasta preta e entrego minha identidade. A recepcionista a escaneia, depois devolve com um rápido sorriso.
— Tudo certo. Seu acesso já foi liberado. — Ela avisa, enquanto digita algo e retira um crachá provisório branco com letras pretas: “VISITANTE 0322”. — Por favor, prenda o crachá na parte superior da roupa e o mantenha visível o tempo todo. — Sua voz é educada, mas robótica, como quem repete aquilo vinte vezes por dia. — Pegue o elevador até o 7º andar. Ao sair, vire à esquerda. A assistente do senhor Henrique irá recebê-la. — Ela faz uma pausa, junto de um leve sorriso automático. — Boa sorte, senhorita Helena.
— Obrigada. — Sorrio de volta, tensa, seguindo com passos contidos até os elevadores. Enquanto espero, observo meu reflexo na porta espelhada. O blazer não está amassado, meu cabelo está preso como planejei. Mesmo assim, sinto meu coração bater no pescoço.
O elevador sobe em silêncio absoluto, exceto pelo leve zumbido elétrico que quase não ouço, mas sinto nos ossos. As portas se abrem com um sutil “ding” metálico. Aperto o crachá na altura do peito, respiro fundo e dou um passo para fora.
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Plano B
RomanceHelena perdeu seus pais em um trágico acidente, ainda muito nova. Desde então, trabalha duro para sustentar a casa e oferecer uma vida digna à sua irmã, Alice. As dificuldades a fizeram ter sede de vitória e traçar um plano para sua vida: se formar...
