O céu está encoberto e sem sinal de estrelas em Campina Branca. Pelas frestas da janela entreaberta, o vento entra frio, balançando as cortinas com delicadeza. Da cozinha, vem o aroma do café que Camélia sempre passa depois do jantar — ela não consegue dormir sem um gole, diz que a acalma, contrariando tudo o que dizem sobre cafeína à noite.
Estou sentada na beirada da cama, descalça, com um caderno no colo e a caneta parada no ar. Lá fora, os grilos cantam como sempre. Aqui dentro, tudo está parado, exceto meus pensamentos. Eu encaro a folha do caderno. No topo, está escrito: “O que mais eu posso fazer?”
Tento listar possibilidades. Mandar mais currículos? Esperar mais um pouco? Voltar para a loja de materiais de construção?
Nada parece vivo o suficiente. Nada parece capaz de me tirar daquele limbo entre ser boa demais para aceitar qualquer coisa e invisível demais para ser escolhida por algo melhor.
Ouço Alice rir sozinha na sala, provavelmente vendo vídeos do TikTok no celular e Camélia cantarolando baixinho na cozinha. Aquilo, por um instante, me segura aqui. O amor. O conforto. A certeza. Mas algo dentro de mim grita mais alto do que o medo de ir. Não é arrogância, nem desespero — é uma espécie de intuição. “Eu preciso tentar. Em outro lugar. Com outra sorte.”
Levanto-me devagar, pego o celular e começo a pesquisar:
“Kitnet curta temporada São Paulo.”
“Escritórios que contratam temporários, SP.”
“Bairros seguros para mulher sozinha.”
Não sei exatamente o que vou encontrar. Mas sei que se não for agora, talvez não vá ser nunca mais.
Fecho o caderno e escrevo, bem no meio da página: “Eu vou.”
❁ ❁ ❁
Uma semana após meu surto de coragem, vou até a sala e aviso com a voz firme, mesmo desabando por dentro:
— Camelinha, Li... Eu vou pra São Paulo. Aluguei uma kitnet por lá. Já até comprei a passagem.
O silêncio cai como uma toalha úmida sobre a mesa da cozinha. O barulho da chaleira no fogão parece mais alto do que o normal.
Alice é a primeira a se mover. Arregala os olhos, depois cruza os braços, tentando parecer séria — mas a voz sai trêmula.
— Cê tá falando sério, Helena? Sozinha? Pra São Paulo?
Assinto, com os olhos marejados, mas firmes.
— Eu sei que parece loucura, mas eu preciso tentar. Aqui não dá mais... Eu quero buscar uma vida melhor, tentar a sorte, correr atrás do que eu realmente quero pra nós. E não é só sobre trabalho. É sobre recomeçar. Sobre me dar uma chance.
— Você simplesmente decidiu e pronto? Do nada?
— Não foi do nada, Li. Eu já vinha pensando nessa possibilidade. Eu só... Não queria preocupar vocês antes de ter certeza.
Camélia continua em silêncio. Pega a chaleira, desliga o fogo e joga a água fervendo no coador, com pó de café. Ela faz todo o processo com calma, como se as palavras estivessem escondidas entre a borra úmida.
— Eu sabia que esse dia ia chegar. — Diz enfim, com a voz baixa, mas segura. — Você tem essa vontade de vencer no peito, Helena. Sempre teve. Desde menina.
Mordo meu lábio inferior, segurando o nó que se formou na minha garganta.
Alice desvia o olhar, fungando disfarçadamente.
— Eu tô com medo, mas... Sabe que sempre vou torcer por você, por seu sucesso. — Murmura. — Só não esquece da gente, tá?
Sorrio, com a visão levemente turva pelas lágrimas recém-formadas.
— Nunca. Vocês são meu alicerce, minha força. Sempre vão ser. Eu volto para buscar vocês assim que me firmar por lá. Prometo.
Camélia me encara por longos segundos, como quem vê uma filha escolher o próprio caminho e precisa engolir o medo para não engasgar o apoio. Alice, chorando, abre um sorriso molhado.
— Então vai, Lena. Vai e conquista o que é seu.
Nos abraçamos apertado e sinto que estou no caminho certo. Eu devo isso a elas, foi uma promessa e eu vou cumpri-la.
❁ ❁ ❁
A noite foi feita de despedidas silenciosas. As duas ficaram comigo no quarto, ajudando a separar cada peça de roupa com um toque de cuidado. Alice insistiu para que eu levasse o blazer cinza, “o da sorte”, enquanto dobrava as roupas com habilidade. Camélia, com paciência e olhos marejados, colocou sachês de lavanda entre as roupas, “pra levar um pouco de casa no cheiro”.
Mais tarde, Alice dormiu ao meu lado, agarrada ao meu braço como fazia quando era criança. Camélia, antes de se recolher, preparou um chá de camomila para eu ter uma boa noite de sono e acordar disposta. Mesmo assim, o sono veio tarde e foi leve — como se meu corpo soubesse que aquela era uma noite de transição.
O sol ainda mal rompeu o céu por completo quando me levanto. Pego as malas em silêncio e as levo para a sala, conferindo tudo de novo. O zíper prende no tecido da minha blusa preferida, como se até as roupas quisessem ficar. Respiro fundo e puxo com cuidado. Consigo.
Tudo o que eu julgo necessário cabe aqui. O resto — lembranças, medos, saudades — terá que ir dobrado no coração.
Na cozinha, o café já está passado. Camelinha se levantou antes de mim, como sempre faz. O bule fumega ao lado da mesa posta com pães de queijo ainda quentinhos, cobertos por um pano transparente bordado.
Entro devagar no cômodo. Ela está sentada de avental, com o olhar quieto.
— Dormiu um pouco?
Puxo a cadeira, me sentando ao seu lado.
— Quase nada. Mas tá bom assim.
Camelinha coloca uma tapioca no prato e me oferece.
— Come alguma coisa, senão chega lá e só vai encontrar fila e pressa.
Sorrio com o canto da boca, mastigando um pedaço.
— Eu te conheci menina. Agora estou vendo uma mulher forte e decidida. E mesmo que meu coração fique apertado, meu orgulho é maior.
Seguro sua mão levemente enrugada e cheia de pintinhas.
— Obrigada… Por tudo. Você nos deu a chance de pensar no futuro, de vivê-lo. Eu nunca vou me esquecer disso.
Nos abraçamos em silêncio. O tipo de abraço que guarda coisas que não cabem em palavras.
Quando Alice aparece, ainda com os olhos inchados de sono e os cabelos presos num coque improvisado, não chora. Apenas vem direto e me abraça por trás.
— Quando você tiver rica, quero um quarto só meu, com parede de tom pastel e janela daquelas grandonas.
— Combinado.
Nós três rimos, mesmo com a pontinha de tristeza pendurada no ar. É o tipo de dor boa: a que vem junto da coragem.
Rodoviária de Campina Branca — 07h22
O ônibus já está com o motor ligado, soltando fumaça e fazendo um barulho de pressa. Entrego as malas no bagageiro e subo devagar os degraus, virando-me uma última vez. Lá estão elas: Camelinha com a mão no peito e Alice segurando um papel dobrado. Nos despedimos antes do ônibus estacionar. Teve chororô, conselhos e avisos. Muitos abraços e sorrisos também.
Antes de me sentar, abro a cortina da janela. Alice acena, levantando o papel como se fosse uma placa improvisada. Está escrito com caneta azul: “Vai com tudo, irmã. O mundo é seu.”
Camélia não acena. Apenas fecha os olhos marejados por um segundo, como se dissesse, em silêncio: “Vai, minha filha. Mas volta inteira.”
Aceno da janela e sussurro um “Amo vocês” para as duas, que retribuem com as mesmas palavras. O ônibus parte, sacolejando devagar pelas ruas com buracos até encontrar o asfalto. Encosto a cabeça na janela e observo Campina Branca ficar pequena no retrovisor.
São Paulo, Bairro Vila Mariana
São Paulo não dá trégua. Ela engole.
Prédios altos, ruas cheias, gente andando depressa demais. O ar é pesado; o som nunca some.
Ainda assim, caminho com firmeza entre eles. A mochila pesa nas costas e a mala arrastada pela calçada irregular faz a rodinha falhar e me obriga a reduzir o passo. Meu coração bate no ritmo apressado da cidade e o envelope de currículos na pasta pesa mais do que deveria — como se carregasse, junto do papel, todas as minhas expectativas.
Do Terminal Tietê até a Vila Mariana, são pouco mais de trinta minutos de Uber. A kitnet que aluguei fica num prédio antigo, de paredes descascadas e elevador hesitante. É pequena, mas tem uma janela que dá pra ver o céu. E para mim, isso já basta.
O colchão já meio gasto no chão e o ventilador barulhento são parte do acordo que firmei comigo mesma: pouco conforto, muita coragem.
O bairro respira um pouco mais leve, mas ainda pulsa no ritmo apressado de São Paulo. Há estudantes pelas calçadas, cafés escondidos entre os prédios e o som das conversas se misturando ao ronco dos ônibus. Mesmo sem conhecer ninguém, me sinto parte de alguma coisa maior — um movimento, um novo ciclo. Há algo de reconfortante nesse caos milimetricamente desorganizado — como se, pela primeira vez, eu estivesse exatamente onde deveria estar.
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Plano B
RomanceHelena perdeu seus pais em um trágico acidente, ainda muito nova. Desde então, trabalha duro para sustentar a casa e oferecer uma vida digna à sua irmã, Alice. As dificuldades a fizeram ter sede de vitória e traçar um plano para sua vida: se formar...
