Capítulo Vinte - Primeira Parte

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Fui à consulta com o doutor Marinho, um senhor muito simpático. Ele fez muitas perguntas. E ao final da consulta, deu o diagnóstico...  Depressão.

Fiquei ainda mais desanimada, porque não tinha a menor ideia do que isso significava. Não era um assunto muito comentado na época. Eu só sabia o que eu sentia: "que o mundo era cinza. Não havia sol. Não havia cores, somente uma vontade de não estar vivo, para não ser capaz de sentir tanta angústia".

Com o diagnóstico, o doutor Marinho me prescreveu antidepressivos para tentar aliviar os sintomas para que eu me sentisse melhor.

Fui pesquisar o que significava isso:

"Depressão é um transtorno emocional caracterizado pela perda da felicidade e imersão em um estado de abatimento que, dependendo da causa, pode ser crônica ou momentânea. A depressão é uma das doenças da alma que afeta os pacientes de maneira intensa. Os enfermos se sentem deprimidos e sem vontade. Entre os possíveis sintomas de depressão estão os seguintes: cansaço psicológico e mental, além de esgotamento físico na primeira hora da manhã, mesmo após ter dormido a noite toda; dificuldade para manter a concentração no trabalho; incapacidade de desfrutar de atividades que antes que lhe davam prazer; pensamento negativo recorrente e até mesmo ansiedade."

Mas eu sentia muito mais do que isso. Era uma falta de vontade de viver, como se nada tivesse mais sentido para mim. E nesse período, ninguém me compreendia. Diziam que era manha, preguiça, frescura. Qualquer coisa era mais plausível do que ter uma doença invisível.

O Davi tentava me arrancar da cama, puxando-me pelos braços, porque não aceitava que eu tivesse uma doença. Nós começamos a nos distanciar. Ele não era capaz de me ajudar pela inexperiência, pela falta de bondade e por muitos outros motivos.

Quando o Guilherme estava com dois anos, fui chamada para trabalhar numa grande empresa, por um teste que eu tinha feito antes de ele nascer. Fiquei tão empolgada, que pedi demissão do estado. Mas, demoraram quatro meses para me efetivar. Nesse período, o Davi perdeu o emprego e nós ficamos praticamente sem ter o que comer. Não tínhamos economias. Então, resolvemos pegar roupas para vender. Nós pagamos com cheques, mas tudo o que vendíamos, gastávamos para comer, para a gasolina e outras necessidades. Não conseguíamos juntar dinheiro para pagar os cheques para a empresa que nos levava para buscar roupas em cidades onde havia fábricas.

Nossa situação era precária. Às vezes, não tínhamos leite para dar ao Guilherme. Não queria pedir para os meus pais, porque eles também não tinham muitas condições. Meu irmão que os sustentava. Mas, às vezes, não tinha outra solução.

Certa noite, estava tão solitária. O Davi viajando, tentando vender roupas. Deitei no colinho do Guilherme, que tinha dois aninhos e falei:

____ Cuide da mamãe, filhinho. Só tem uma mamãe.

____ Não. Tem "oto" mãe.

Aí, eu descobri que ele tinha adotado minha mãe como mãe dele. Senti-me impotente, por não poder cuidar direito do meu filho.
Porque viajávamos para poder vender e ele ficava com eles, ou quando não podíamos alimentá-lo corretamente, também acabava ficando com minha família.

Enfim, chegou o dia que eles me chamaram para efetivar a contratação...


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Continua...

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