Capítulo 37

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Nem consegui almoçar direito. Esse assunto estava me deixando com um nó na garganta que por pouco não dei uns tapas no Professor Amadeu quando ele passou por mim na hora do almoço. Precisei de toda minha expertise para me manter normal, tinha muita coisa em jogo. 

Passei o resto do dia em minha sala analisando notas de alunas e quando vi que esse tipo de atitude dura há muitos e muitos anos resolvi buscar apoio das minhas amigas do curso de formação. 

As chamei no zap e marquei uma chamada de vídeo com elas a noite, depois que tivesse algum retorno de Eliza.

Deixei no meu computador, em uma pasta oculta, e uma cópia bem guardada comigo da listagem daquelas que foram prejudicadas e beneficiadas nos últimos 20 anos. Para o meu encontro de hoje esperava que boa parte das meninas que levantei comparecessem.  

Na hora combinada cheguei à confeitaria. Busquei uma mesa de canto e pedi um copo de capucino para me aquecer. Não demorou muito vejo Eliza entrar com mais duas meninas de sua turma. Nem bem elas sentaram mais 3 vieram se sentar conosco.

Agradeci a presença de cada uma e ouvi suas histórias. Algumas simplesmente se negaram se render às cantadas do professor, outras, de alguma forma, o desagradaram e por isso eram perseguidas. Algumas das presentes eram alunas consideradas encrenqueiras e que criava problemas constantemente, o que de certa forma tirava a credibilidade de seus  depoimentos. 

Todas tinham algum tipo de prova. Mensagens, bilhetes e e-mails que tirei fotos e mandei direto para minha nuvem. Agradeci e orientei uma a uma como proceder a partir de hoje. O tempo corria contra mim já que em breve nova turma se formaria. 

Cheguei em casa a tempo ainda de dar um beijo de boa noite nas crianças. Conversei com Léo a respeito do que descobri e ele entendeu minha indignação e me deu força para continuar na investigação.

Fiz a chamada de vídeo com as meninas e pedi para elas me ajudarem buscando algumas das mulheres que foram prejudicadas ou beneficiadas conforme minha pesquisa. Acreditava que, passado tanto tempo, a possibilidade de alguma delas se manifestar era bem maior do que esperar que alguma aluna o fizesse. 

Como esperava, elas toparam na hora. Passeia elas a listagem e não demorou 15 minutos já tinha a garantia de uma das apontadas, que estava em uma missão com uma delas. Dormi mais calma pois tendo ao menos um depoimento já fechava o cerco e  dificilmente ele sairia impune. 

Um novo dia começou e com ele a rotina matinal de arrumar as crianças, fazer o café da manhã, arrumar as merendeiras, mandá-las para a escola com Ana, me arrumar e ir para o trabalho. Diferente dos outros dias, me arrastei durante toda a manhã tamanho era meu cansaço. 

Acredito que o stress que esse assunto me causou tenha me deixado assim. Peguei mais provas das alunas matriculadas, tirei cópia das que achava suspeita e devolvia rápido ao arquivo. Vai que alguém procura uma prova! Continuei minha investigação e para minha sorte minhas amigas conseguiram levantar um bom número de mulheres. A maioria já tinha largado o serviço militar e não sofreria represálias. Outras ainda estavam na ativa, mas em cargos altos, arrependidas do que aconteceu ou sem medo de denunciar.

Finalizava mais um relatório quando Eliza entrou na minha sala com um olho arregalado e tremendo. A cara de pau e certeza de impunidade desse Amadeu era incrível. 

Ele teve a coragem de sugerir a ela que ela poderia reverter sua situação se topasse sair com ele. Na mesma hora ela veio me procurar e tínhamos que pensar rápido. Com meu celular gravei ela ligando para ele e toda a conversa.

- Professor Amadeu, recebi uma mensagem sua. Não entendi bem.

- Entendeu! Você é esperta. Mas se quiser posso ser mais claro.Sai comigo se quiser passar de ano.

- Mas senhor, sair como?

- Sair ué.  Um jantar, uma boa conversa e um fim de noite num hotelzinho .

- Então você propõem que eu me durma com você  a troco de nota, é isso? 

- Bem, dormi é a última coisa que pretendo tendo você na minha cama.

- E se eu disser não?

- Bom, você que sabe. Só não esquece que seu soldo fará falta para sua família e que emprego por ai está bem difícil.

- Posso pensar?

- Pensar até pode, só não esqueça que quanto mais demorar, menor sua chance. - disse o nojento e desligou. 

Encerrei a filmagem e corri pára o banheiro vomitar. Assim que voltei ao escritório Eliza me perguntou o que faria. para segurança dela, passaria o resto do dia às minhas vistas. 

Pedi aos seu instrutor para me liberá-la o resto da semana. Com a autorização dele pedi para minha secretária ficar com ela. ela poderia até ajudar mas não devia sair de forma alguma sozinha nem para o banheiro. A segurança dela estava em risco e teria que agir agora. 

Desde minha promoção não falava com o Comandante do Batalhão, mas agora era mais do que necessário. Liguei direto em seu celular e pedi para lhe falar com urgência. Ele estranhou, mas aceitou me receber imediatamente. 

Separei tudo que já tinha, inclusive o depoimento em vídeo das mulheres que minhas amigas me mandaram e fui até o Comandante. Não tinha como dar errado.

Apresentei tudo ao Comandante que apenas ouvia calado. Ao final fiquei calada esperando ele se posicionar. 

- Você se lembra que  alguns meses atrás falei que você era o que o Departamento precisava? E mais uma vez você me surpreende. Faz tempo que eu desconfiava que alguma coisa muito estranha estava acontecendo. As recrutas aprovadas eram muito fracas e algumas muito boas ficavam pelo caminho. Pensei que fosse alguma influência política, o que seria ruim, mas isso é muito pior. 

Toda essa situação me enojava e gostaria de pensar que fosse um terrível pesadelo, mas era real. Só de pensar quantas recrutas boas foram deixadas no caminho por não cederem, quantas poderiam estar prestando um serviço de qualidade ao nosso país meu estômago revirava. 

Do meu tamanhoOnde histórias criam vida. Descubra agora