TRINTA E CINCO

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Any.

Quatro dias depois...

Quarta-feira.

Não vem sendo fácil.

E eu não posso lhe afirmar um motivo específico para isso. Todos os motivos são bons o suficiente para estar tudo uma merda.

Então: Simplesmente não vem sendo fácil.

Desde que Josh fora embora do meu apartamento com sentimentos tão difundidos que não pude identificar qual o consumia mais: A ansiedade, a raiva, o medo, o susto ou até mesmo a mágoa. Se é que não existiam outros além desses.

Nunca pensei que alguém fosse capaz de sentir tanto ao mesmo tempo, não dessa forma, quando em apenas uma singela troca de olhares antes dele ir embora, eu pude perceber tudo aquilo. Fazendo-me repensar pela primeira vez se não havia feito besteira.

Deixei minha mente falar alto demais e infelizmente ela não sabe se expressar bem quando é conflitada dessa forma. Quando meu corpo se sente forçado a provar meu ponto independente de quantos corpos eu derrubarei no meio do caminho. Eu apenas tenho vontade falar o que vem na mente, independente de se fará sentido ou não, se será propício ou não.

Não havia mentido, mas também não havia sido verdadeira. E essa incerteza me deixa cem por cento fora de mim. Não posso dizer que nunca me senti assim por motivos parecidos, mas essa é a primeira vez que me incomoda tanto.

Que eu sinto que fui gratuita e injusta.

Saber que a Heyoon fugiu me desequilibrou, eu admito. Tentei fingir que não, me esforcei para isso e mesmo sabendo que estava me enganando, insisti em um tema de conversa que naquele momento poderia não agregar em nada.

Tomei a liberdade de marcar as consultas no dia seguinte e sendo honesta, as vagas são bem apertadas. O psicólogo está marcado para um pouco mais de sete dias.

O psiquiatra... Bom, em um mês, por sorte, ele conseguirá ir. Costuma demorar muito mais. Lembro-me de já ter marcado uma consulta para quatro meses depois da data que liguei.

Não sabia se ele iria. Julgava que não, ainda mais por eu não ter cooperado em momento algum, mas eu ainda tentaria. Daria um jeito.

E como se não bastasse me preocupar ao ponto de perder a cabeça com relutâncias que não são minhas, também me preocupava com o que faria com assinaturas e um copo. Sei que devo usar a cabeça, mas me sinto paralisada. Não há onde procurar, não há onde avançar.

O que eu provarei com um copo e assinaturas?

É o que eu preciso pensar.

Tenho ideias. É claro que eu tenho, mas me parecem cheias de furos e incertezas. É difícil de acreditar no que tenho até agora e se nem eu acreditar, ninguém mais irá.

Estou na aula da História da Música Americana e não consigo prestar atenção. Copio o que está no quadro e tento grifar algo que julgo importante, mas compreender o que o professor diz é realmente impossível.

Não só pelo meu estado mental, mas pelo fato dele babar demais enquanto fala, formando um brilho no canto de seus lábios que se torna muito nojento e incômodo quando seca, além de que ele parece se engasgar com a saliva, se tornando muito difícil entender o que ele diz.

Meu celular reserva vibrou várias vezes seguidas no bolso da calça jeans e não hesitei em puxa-lo. Não olhei para os lados e tampouco escondi o telefone. Agi como a pessoa normal que era.

Sei que muitos alunos vêm prestando uma atenção redobrada em mim, mesmo que saibam que Krystian e Shivani foram presos, o julgamento ainda não aconteceu e apesar de já estar marcado — e acontecer em mais quatro dias —, nada está definido. Entendo que dividir ambiente com uma potencial assassina não deva ser confortável.

Imagine eu saber que divido diariamente como um desses, sem ao menos imaginar quem é o infeliz.

Any.

Você sabe quem é.

Eu estou bem.

Estou lhe enviando mensagem por esse número. É de um celular antigo e o chip nunca foi usado por mim antes, mas é antigo, não se preocupe.

Sei que não quer ser descoberta, mas eu muito menos.

Eu encontrei uma oportunidade que apesar de crer na sua inteligência, acho que não conseguiu racionar da mesma maneira que eu.

Fala logo. Estou na aula.

Os professores não ligam.

Mas sabem reduzir minha nota no fim do semestre.

Certo.

Eu achei uma abertura perfeita.

Conte antes que eu entre na tela do celular e me teletransporte apenas para lhe socar por esse suspense besta.

Calma gata.

Fala.

A autópsia cita a droga.

Use o copo.

Abaixei o celular, travando a sua tela pra que ninguém a lesse. Essa é uma opção. Opção que eu já havia analisado, mas sabia exatamente no que resultaria e não gostaria.

No tempo certo Heyoon.

No tempo certo.

Torço para que o seu tempo certo não seja tarde demais.

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