Zoe não esperou um segundo antes de ir atrás de Andy. Chamou seu nome mais de uma vez, mas ele disparou escadas acima e, se a ouviu, não olhou para trás.
A mulher sentiu um misto de dor e angústia, além de uma pontada de raiva. Samira podia não ter sido sua irmã de sangue, mas ela a considerava uma tanto quanto Andy, e a perda da melhor amiga a sufocava lentamente. Ela tentara entender Andy – ele vira muito –, mas jogá-la contra a parede daquela forma, olhar em seus olhos com aquela descrença, beirava o egoísmo, senão a infantilidade.
Sua mãe estava trancada no quarto e não respondia aos chamados de ninguém, nem mesmo da filha. E ela não podia dar-se ao luxo de ignorar a violência que podiam sofrer a qualquer momento. O cianeto que Samira tomou acabou com sua vida, foi rápido, ela não sofreu como sofreria se a pegassem com vida. No entanto, ainda assim, os Corvos não eram estúpidos. Andy fugiu. E, se ao menos um deles ainda estava por lá, vivo, vagando pelas terras que tomaram por suas, iriam atrás dele até encontrá-lo. Era uma questão de tempo até acharem aquele lugar.
Zoe entrou no quarto de Andy sem bater, os pensamentos a mil. Viu o amigo transtornado, os pés batendo no chão com força ao andar, as unhas roídas em um hábito que ela achou que ele há muito tivesse deixado. Os olhos vermelhos a encararam.
– Agora não, Zoe – vociferou.
Ela não lhe deu ouvidos. Encostou a porta às suas costas.
– Você não é o único que está sofrendo com a perda dela, Andy – a mulher grunhiu entre os dentes cerrados. – Ela também era a minha irmã.
– Então por que quer jogar o sacrifício dela no lixo? – Ele parou de andar de um lado para o outro. Quis escancarar as janelas, deixar o ar entrar, abrir as portas, fazer algo para que se sentisse menos sufocado dentro daquele prédio.
Zoe ficou vermelha de ódio.
– Deixe de ser criança, Andy!
– O que q-
– Sam nos deu tempo – ela o interrompeu, os punhos cerrados –, e eu sempre serei grata por isso. Mas eles sabem que estamos perto, agora. Não são estúpidos. O quanto acham que vocês dois andaram pra ir até o IBMAL? Eles são bilhões, Andy, porra! E nós, até onde sabemos, somos menos de duas centenas. Então, engula a merda do seu orgulho e abaixe esse nariz. Eu nunca tiraria o mérito de Samira por ter nos dado mais uma chance. Mas não vamos dar descarga no que ela fez por nós.
Andy calou-se. Não esperava por aquilo. Conhecia Zoe mais da metade de sua vida, desde antes do mundo como conheciam desmoronar. Aproximou-se dela durante os anos, e sabia o quanto ela era dura na queda. Tanto quanto fora Sam. E, mesmo assim, nunca a imaginou furiosa daquela forma, ainda mais com ele.
O ódio de Andy apaziguou-se quando a porta se escancarou. Tanto ele quanto Zoe olharam para a figura que jazia debaixo do batente; Benji tinha o rosto choroso, o lábio inferior trêmulo, olhos marejados e uma postura que tentava mostrar-se firme, mas bambeava como se o menino estivesse com as pernas fracas.
– Ben? – Zoe chamou.
– Vocês mentiram – Benji segurou as lágrimas, mas a voz denotou o esforço que fazia para que elas não rolassem. – A Sam não foi pra campo, não é?
Zoe congelou. Não queria ter que lidar com aquilo agora. Não sabia se conseguiria.
Ela olhou para trás, para Andy, e viu-o com a boca entreaberta, os olhos petrificados.
– Querido, o que...? – Zoe tentou dizer, percebendo a incerteza na própria voz.
– O dia inteiro as pessoas tem me olhado com... com dó. E eu sei que não tem a ver comigo. Eles estão falando da Sam como se...
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Olhos de Corvo
AcciónDas cenas que sua mente não bloqueou, cuja memória Samira guarda com carinho, entram as íris caramelo de seu pai na última vez em que ele a olhou no olho. Daquele dia em diante, aprendeu a preciosidade daquele gesto, o olho no olho, íris na íris. Fo...