12. Olhe Para Mim

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Por um apavorante segundo, Eric achou que o tivessem matado.

As agressões cessaram, ele ouviu os tiros tão altos dentro da sala que os tímpanos ainda estalavam e, de repente, não conseguiu ouvir mais nada.

Como se lutasse para respirar em água gelada, o homem abriu os olhos e puxou o ar com força. O simples gesto de expandir sua caixa toráxica fez seu corpo gritar em dor, e Eric abraçou-se ainda mais no chão, arfando. A visão tomou foco aos poucos e, junto com ela, a sensação de segurança.

Os olhos azuis piscaram. Ele viu os corpos dos Corvos ao seu lado, e suas orbes logo decifraram alguém a andar em sua direção. Estava fardado como os soldados, e seu primeiro instinto foi recuar ainda mais, encolher-se na própria redoma de dor enquanto esperava o próximo golpe. Mas este não veio. Tomaram seus braços e o puxaram, colocando-o sentado, e Eric só percebeu que estava sendo abraçado quando ouviu a risada de alívio reverberar por entre os ruídos da sala que ainda rodava sob sua perspectiva enevoada.

Quem o abraçava o afastou, e Eric viu dois pares de olhos castanhos o olhando. Quase apagou nos braços de Louis com o alívio que o atingiu. Sorriu ao ver o amigo, uma risada engasgada crescendo pela garganta. Não conseguia acreditar.

– Lou – chamou, como se para confirmar que não era uma miragem –, caralho, você...

– Ainda bem que está vivo, cara! – Louis o abraçou outra vez e Eric retribuiu, mesmo com as dores no corpo. Uma parte dele era completa esperança de que não o deixariam para trás. A outra, tinha medo de nunca mais vê-los. – Ficamos com medo de ser tarde demais...

Eric estava cheio de perguntas. Louis estava ali, de pé, em sua frente, fardado com a roupa do inimigo, um quepe que encobria minimamente seus olhos, se não olhassem diretamente para eles, e o homem achou o amigo estúpido, ao mesmo tempo em que nunca sentiu-se tão grato.

Louis podia ter a mesma idade que ele, mas Eric sempre zombava de que o amigo tinha um rosto de adolescente. Estava sempre com aquele doce sorriso bobo, a barba tão rala que mal nascia em alguns pedaços, lábios finos e olhos estreitos, e não era um homem alto. Mas nunca deixou de se mostrar forte. Era um pouco insano, corajoso o suficiente para ser chamado de estúpido e, por isso, Eric agradeceu imenso.

Eles soltaram-se do abraço, e o dono dos olhos azuis olhou pela sala, o sorriso de alívio desmanchando-se.

Louis não viera sozinho, é claro. Mateus, com os cachos loiros tombando sobre o rosto suado, também estava na sala, mas, ao invés de vir por Eric, feliz ao vê-lo vivo, Mat segurava a arma ainda estendida, a mão tremendo ao empunhá-la, apontada para o chão, para o corpo do último Corvo que matou, e Eric viu, entre os corpos, a garota em posição fetal, abraçada ao próprio corpo, tremendo como se estivesse tendo um colapso, e Mat a fitava desconcertado, mais descrente com o que faziam com ela do que em ver outra sobrevivente como eles.

– Merda – Eric praguejou, arrastando-se até os dois. Tentou ficar de pé, mas o corpo doeu, as costelas gritaram outra vez, e tudo o que conseguiu fazer foi cambalear até alcançá-la enquanto Louis andava até Mat e tomava a arma de suas mãos, tirando-o do estado em que se encontrava.

Eric abaixou-se ao lado da mulher e viu que esta chorava tanto, gritava com a voz tão muda, que teve medo que ela sufocasse a si mesma com o próprio desespero. E, então, reparou em tanto sangue. O seu próprio, que escorria do rosto para a camisa, e ele nem sabia mais de onde vinha. O dos Corvos mortos ao redor dos dois, caídos como bonecas de pano. O da mulher; de sua perna ensanguentada, de seu rosto, de seus olhos. Merda, praguejou outra vez, vendo as duas mãos dela a cobrirem seu olho esquerdo. Ele estremeceu.

Olhos de CorvoOnde histórias criam vida. Descubra agora