Andy não o viu se aproximar, discreto como sempre.
Benji estava em bom aspecto, uma melhora perceptível desde o dia em que a febre o acometeu, ainda em Pedra Branca, meses antes.
Agora, em Havenna, no bunker, ganhara músculos e até uns quilinhos de uma gordura bem-vinda. O menino observava seu irmão mais velho jogado no mesmo colchão em que dormia à noite, dentro das quatro paredes improvisadas com biombos de metal e forros escuros em um dos cantos do bunker. Não era a mesma casa que os outros tinham, de paredes de dry-wall, mas já era o suficiente para eles, que chegaram depois.
Andy lia uma das centenas de livros novos que descobriu naquele lugar. Perdia-se, agora, nas palavras de Thoreau. Ontem foi Kant. Na semana passada, deleitara-se com as histórias de circunavegações e amanhã, quem sabe, descobrisse um pouco mais sobre as constelações. Eles tinham tudo ali; uma coletânea de livros que foram trazendo das idas à cidade, assim como Sam fazia. Tinham mentes jovens a moldar, e ele estava disposto a ser uma delas.
– Ben? – Andy perguntou, fechando o livro e marcando a página com o dedo indicador. Olhou para o irmão, parado do lado dos biombos e uma expressão indecifrável no rosto. – O que foi?
Benji trocou o peso de um pé para o outro, como se decidisse se queria falar ou não.
– Andy – o irmão começou –, já faz dois meses.
Andy soltou o ar com pesar e ajeitou-se no colchão, apoiando melhor as costas nos travesseiros. Ele vagou um espaço ao seu lado, que Benji entendeu como um convite para se sentar. Assim o fez, jogando-se ao lado do irmão. Ben repousou a cabeça no ombro de Andy, que procurou em vão por palavras para acalentar o garoto.
– Acha que ela está bem? – Benji insistiu. – Ela nunca ficou fora tanto tempo.
– A missão é diferente dessa vez, Ben – Andy calmamente contou. – Você sabe.
– Mas Raquel disse que íamos ficar em contato...
– Eu sei – o mais velho concordou –, mas talvez as coisas não sejam fáceis assim, Ben.
– Mas-
– Sami está bem – Andy insistiu. – Pra quem já passou pelo que ela passou, qualquer coisa é fichinha.
Benji concordou, ainda claramente descontente com a resposta.
– Além do mais – Andy apressou-se em acrescentar –, David vai encontrá-los em alguns dias, lembra? E aí vamos saber da Sami e da Zoe e do Miho. E dos outros.
– Sim. – Benji respirou fundo, a preocupação estampada no rosto de criança dando-lhe um ar triste e carregado de maturidade precoce. O menino tirou algo do bolso e entregou a Andy; um papel A4 dobrado em quatro. – Acha que David pode entregar isso pra ela?
Andy tentou sorrir, mas falhou. Merda, como ele conseguiria continuar sendo forte assim na frente de Benji? A verdade é que não fazia a menor ideia de como estava Samira. Se estava bem, se o que se propuseram a fazer estava dando certo, ou mesmo se estava viva, e o pensamento era doloroso o suficiente para ele que já a perdera uma vez, mas não podia fazer isso com Benji. Diria que ela está bem, que é dura na queda, e cumpriria a promessa que fez a Sam de que cuidaria dele e de Raquel. Então, pegou o papel que o irmão mais novo estendeu.
– O que é isso?
– É uma carta.
– Posso ler?
– É claro que não, idiota! – Benji riu. – É pra Sami.
– Olha a boca! – Andy zombou e o empurrou de leve.
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Olhos de Corvo
AksiDas cenas que sua mente não bloqueou, cuja memória Samira guarda com carinho, entram as íris caramelo de seu pai na última vez em que ele a olhou no olho. Daquele dia em diante, aprendeu a preciosidade daquele gesto, o olho no olho, íris na íris. Fo...