41. Atear Fogo No Formigueiro

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Tinha algo de incrivelmente extasiante naquele momento em que Eric Ferragni fechou a porta da sala de parto com Genevive dentro, aos berros desvairados, mais altos do que os do bebê em seu colo.

Era como se, ao decidir salvar a criança – uma menininha – ele tivesse também matado Victor Lombardi e aquele disfarce já não lhe coubesse mais, porque não cabia. Se tirasse as lentes ali mesmo, seria a mesma coisa. Ainda estariam atrás dele do mesmo jeito e ele seria julgado do mesmo jeito.

Eric achou que estaria apavorado. Devia estar se sentindo apavorado enquanto corria por aquele corredor excessivamente branco, mas só se sentia... vivo. Ele jogou o jaleco para trás e simplesmente correu quando ouviu os passos que precediam aos gritos de Genevive para que o parassem.

Mas, por Deus, quantas não foram as vezes em que ele sonhou acordado com rotas de fuga naquele lugar? Em muitas delas, achou estar demasiadamente paranoico. Agora, só agradecia por o ter feito.

Um cenário tão rápido lhe passou pela cabeça que foi difícil pensar nos detalhes: se ele fugisse com aquela pequena bebê nos braços, o que faria depois? Correria nas ruas com ela recém-nascida, ensanguentada, exposta ao sol nos pequenos e sensíveis olhos-pacatos? Matariam os dois antes que ele virasse a esquina. E se, por acaso, conseguisse fugir com ela, e então? Não era como Olivia. Ele simplesmente tentaria resgatar aquele ser humano e arrastá-lo para o outro lado do oceano, colocando a própria pele e a dos amigos em risco?

Foi pensando nisso que Eric fez uma brusca curva à esquerda.

Empurrava as pessoas para fora de seu caminho, desviava daquelas que queriam pará-lo, e era hábil em prever movimentos dos mais corajosos que avançavam contra ele, mas nada o parou.

Eric Ferragni irrompeu pela sala de espera aos brados dos médicos e enfermeiros e atendentes do hospital atrás dele, e ouviu murmúrios apavorados quando chegou com a criança nos braços, ofegante.

Mas ele reconheceu-o de imediato; o loiro com os piercings que ele supôs que fosse o pai da bebê que ele segurava. Com dois passos rápidos, colocou a menininha nos braços de um garoto apavorado por acabar de se tornar pai e porquê um dos enfermeiros acabara de trazer sua filha recém-nascida para ele, quebrando todos os protocolos.

– Mantenha ela segura – foi o que Eric murmurou antes de driblar os seguranças e sumir nas ruas de Luso.




A casa de Tomas Steve era um bem-vindo refúgio, onde os seis sobreviventes lidavam com as boas e más notícias de formas diferentes.

Boas notícias: Eric voltara do hospital com o que prometera – o celular com a comprometedora filmagem de Genevive assassinando, ou tentando assassinar, um bebê inocente de olhos-pacatos.

Más notícias: o rosto deles estava na TV.

Zoe tirara o dia de folga naquela manhã. Ela e Drica já tinham feito toda a pesquisa que David ordenara e, já que o temido dia vinte passara, ela só podia esperar pelos próximos passos. Assim, quando acordou no dia vinte e três e viu-se sozinha naquele apartamento, pensou que precisava urgentemente de qualquer fuga para a cabeça. Então, foi para a praia.

Passou lá três horas antes de voltar para casa e parar uma esquina antes, porque três carros de polícia estavam na frente do prédio.

Pode ser qualquer coisa, ela pensou. Aquele lugar era um antro de drogas e ela acreditaria em qualquer coisa que lhe dissessem sobre os moradores. Eles mesmo estavam se refugiando naquele pedaço de terra esquecido por Deus.

Olhos de CorvoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora