No primeiro dia após eu assistir meu pai morrer pela segunda vez, eu fui levada para um centro médico de segurança máxima. Eu nem sabia que isso existia. Passei uma semana internada antes de finalmente poder falar com alguém. Fui submetida a inúmeros exames, inúmeros medicamentos foram ministrados e, principalmente, inúmeros interrogatórios foram feitos.
Sam foi o primeiro a aparecer.
-Quem diria que chegaríamos aqui, não é mesmo? – Ele disse enquanto eu corria para abraçá-lo.
-Como? – Foi tudo que eu disse.
Naquele dia Sam passou horas na enfermaria comigo me contando como tudo tinha acontecido.
Depois que ele fechou a porta e me deixou do lado de fora do prédio do FBI ele descarregou a arma, atirando no chão, na esperança de que os agentes do FBI acreditassem que ele não queria matar ninguém e sim cooperar. Felizmente ele foi levado com vida e passou uma semana preso, passando por interrogatórios extensos e detalhados, contando toda a verdade ao FBI até que eles finalmente recolhessem todas as provas que precisavam para validar tudo o que Sam tinha dito.
Depois que ficou comprovado, ele começou a trabalhar junto do FBI para nos encontrar. Ele disse que não foi nada fácil. Francis realmente sabia o que estava fazendo e não deixou nenhum rastro, mas parece que analisando os últimos corpos que tinham sido deixados para trás na Inglaterra, eles tinham achado traços de Pinheiro Branco do Norte, uma arvore nativa da região dos Grandes Lagos, considerada a arvore Estadual de Michigan.
Sam cruzou todas as informações que tinham com todo o banco de dados do FBI mais uma vez e, com tudo que o FBI tinha sobre os meus pais, descobriram que todo ano era para lá que eles iam para entregar as crianças que tinham sido extraditadas, aos seus verdadeiros pais, então eles começaram as buscas até finalmente nos encontrar.
Meu pai tinha nos salvado, no fim das contas.
Sam também disse que tinha conseguido acesso a todo o caso da parceira de Jackson e que, de fato, ela tinha descoberto toda a verdade, e por isso tinha sido assassinada. Obviamente, tudo foi entregue a Jackson, para que ele pudesse finalmente ter paz e saber o que, de fato, tinha acontecido com Carol.
Um processo enorme foi instaurado no FBI e por toda a Inglaterra para investigar cada um dos casos de corrupção que tínhamos descoberto nos últimos meses.
Andy foi o segundo a vir me ver. Passamos uma hora inteira nos abraçando e chorando antes que qualquer coisa pudesse ser dita. Milhares de pedidos de desculpas tinham sido dados. Meus olhos ainda ardiam ao lembra dos curativos nas pontas de seus dedos. Ele me disse que todos nós tínhamos recebido perdão do governo doa Estados Unidos e da Inglaterra e que não éramos mais fugitivos.
Poderíamos voltar para casa por fim.
Ele também me disse que o corpo do meu pai tinha sido cremado, como o protocolo do FBI mandava, e que as cinzas eram minhas para que eu fizesse o que quisesse com elas. Legalmente ou não, eu era a única família que ele tinha.
O corpo da minha mãe, no entanto, nunca foi encontrado. O FBI passou semanas trabalhando em Francis e não importava o nível de tortura que lhe era aplicado durante as sessões de interrogatório, ele não soltava uma única palavra sobre o paradeiro dela. Parece que ele fazia questão de avisar que só existia uma única pessoa com a qual ele estava disposto a falar: eu.
Já tinha se passado quase quatro semanas e todas as buscas pela minha mãe acabavam em um completo nada, mesmo coma ajuda de Sam. Eu não sabia se ele tinha apertado o maldito botão e disparado o tiro contra a minha mãe, mas eu não tinha esperanças de encontrá-la viva. Francis foi condenado a prisão perpetua em uma prisão de segurança máxima em um ilha localizada na California, com a promessa de que jamais sairia de sua cela com vida, nem mesmo para um banho de sol.
Jackson passou dois meses internado em uma clínica de reabilitação sem direito a visitas antes de eu finalmente poder vê-lo. Eu sabia que cada segundo daquele dia seria difícil, tanto para mim quanto para ele. Jack foi submetido a inúmeros exames e tratamentos para que nenhuma dependência ou sequela ficasse depois do que tinha acontecido. Ele me explicou que o caminho ainda era longo e que, provavelmente, ainda ficaria muitos meses internado antes de conseguir sair da clínica.
Nós passamos horas em silêncio, um do lado do outro, apenas apreciando o fato de ainda estarmos vivos. O que poderia ser dito a final? Tanto e, ao mesmo tempo, nada. Muita dor e sofrimento ainda rodava nos olhos e no fundo da alma dos dois.
Sabíamos que jamais seriamos capaz de fazer qualquer coisa entre nós dar certo enquanto não lidássemos com os nossos próprios demônios. Jackson, naquele dia, se despediu de mim com um beijo na testa e uma promessa de melhorar, de ser melhor versão de si mesmo para que pudesse me dar o melhor. Mas tempo era necessário e nós entendemos isso sem que nenhuma palavra fosse dita.
Três meses depois de todo o incidente, eu recebi meus novos documentos. Eles tinham me dado a oportunidade de escolher meu nome. Me disseram que eu podia ser Helena se eu quisesse, e que podia deixar todas as marcas da Melina para trás e recomeçar do zero. Mas as marcas que a Melina trazia consigo era exatamente que fazia eu ser quem eu era.
No final, é isso, não importa quantas marcas e dores o seu passado carregue e o quão pesado ele pareça ser, é exatamente esse peso que faz você ser você. Cada dor, cada lagrima, cada arranhão, cada suspiro e cada passo que você dá são o que moldam a sua vida e o que fazem você ser apenas você, mais ninguém.
Por mais tentador que seja a ideia de não carregar nenhuma marca do passado, quem você seria se não fosse cada uma das cicatrizes que carrega?
Nenhuma dessas cicatrizes nos impede de recomeçar onde e como queremos. Nenhuma dessas cicatrizes nos impede de reescrever nossa história e nos dar um final feliz. E foi exatamente por isso que a primeira coisa que eu fiz, ao receber meus documentos e acesso a minha conta bancária de volta, foi comprar uma passagem aérea para um novo lar.
Ninguém além de mim mesma seria capaz de reescrever a minha história.
O FBI tinha deixado claro que era de suma importância que eu mantivesse meu endereço e telefone atualizados no meu cadastro, pois eles poderiam precisar entrar em contato a qualquer momento, caso algo mudasse nas buscas pela minha mãe. Não que eu tivesse alguma esperança de encontra-la viva depois de três meses, mas fiz como me pediram.
Eu sabia que muitas coisas tinham sido esclarecidas e muitas jamais seriam, de fato. Mas eu não me importava. Tinha decidido que esses acontecimentos não ordenariam o meu futuro como tinham feito com o meu passado. Eu tomava as minhas próprias decisões agora.
"Última chamada para o voo A4526."
Uma voz grossa ressoava pelos alto-falantes do aeroporto enquanto eu seguia a fila para entregar o meu bilhete.
-Próximo! – A comissária de bordo pegou o bilhete da minha mão e olhou meu passaporte antes de um apito, seguido de uma luz verde ressoar.
Dois segundo se passaram antes dela me devolver meus documentos com um sorriso no rosto.
-Bem-vinda a bordo, Senhorita Melina!
FIM.
(Melina irá voltar!)
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Insano
Fanfiction🔞 O que fazer quando voce perde completamente o controle da sua vida? Malina perdeu seus pais quando ainda era apenas uma criança em um acidente de carro e vagou por diversos lares adotivos até completar a tão sonhada maioridade. Depois de tanto...
