Capítulo 10

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CAPÍTULO 10

No escritório tinha uma pequena mesa retangular de madeira no centro com duas gavetas, uma delas estava trancada e nunca me ocorreu abri-la até aquele momento. No canto direito havia uma prateleira lotada de livros de todo o tipo, livros sobre ensino básico como matemática e Inglês, livros que meus pais liam para mim na infância, alguma coisa ligada à culinária e outros livros de contabilidade. Na parte esquerda havia um grande armário lotado de gavetas e dentro delas muitos papéis.

Jackson estabeleceu uma divisão de trabalho naquele pequeno espaço e começamos. Ele ficou com a parte dos livros e metade das gavetas do armário à esquerda. Eu fiquei com a outra metade e as gavetas da mesa. Começamos pelas gavetas e encontramos todo tipo de documento: trabalhos escolares do fundamental até meu último dia na escola antes do acidente, o que já ocupava praticamente todas as gavetas, todas as documentações ligadas a casa e ao terreno. Alguns artesanatos feitos pela minha mãe e materiais escolares ainda não usados. Era quase uma papelaria.

Jackson começou a averiguar os livros e eu fui para as gavetas da mesa após ele, gentilmente, abrir a de cima quebrando o trinco. Na gaveta de baixo tinha uma espécie de diário, mas tudo que tinha anotado eram horas seguidas de siglas que eu nunca tinha visto.

Algumas escritas na letra do meu pai e outras na letra da minha mãe, pensei por um momento estar em outra língua, mas não fazia ideia do que era aquilo. Na gaveta de cima encontrei os passaportes dos meus pais. Mas eles eram diferentes, quase não reconheci quando vi, minha mãe estava morena, quase trinta anos mais nova. Meus pais pareciam ter mudado de nacionalidade, até seus traços físicos eram diferentes, assim como seus sobrenomes. Mostrei a Jackson junto com o diário que achei e ele também pareceu não entender de primeira o que significavam as siglas no diário muito menos a mudança dos nomes dos meus pais.

Não achamos nada além disso lá. Então, fomos para o andar de cima.

Subimos as escadas e a cada degrau uma lembrança me invadia. Nas paredes que ficavam ao lado das escadas algumas fotos nossas estavam expostas. Uma, em especial, eu amava. Me lembrava perfeitamente desse dia. Eu tinha uns seis anos e meus pais me levaram para um piquenique no parque mais próximo a nossa casa. Fazia sol, apesar de estarmos no Outono e meu pai insistia que era um crime ficarmos em casa com um dia tão lindo lá fora.

Uma colcha antiga forrada no chão, inúmeras frutas e bolo de chocolate feito pelo meu pai tirado do forno minutos antes de sairmos de casa. Comemos até que a barriga não aguentasse mais nenhuma migalha. Eu estava deitada no colo da minha mãe, ela me fazia um cafuné com uma mão e na outra segurava um de seus livros de romance que tanto amava. E meu pai registrou perfeitamente o momento.

Jackson percebeu minha nostalgia quando chegou ao topo da escada e permaneceu em silêncio me aguardando. Eu podia sentir sua compreensão, mesmo que não dissesse uma única palavra. Olhamos primeiro o meu quarto o qual só tinha coisas de uma criança inglesa normal. Fomos ao quarto dos meus pais para começar a olhar tudo. Eu tinha entrado poucas vezes no cômodo, mas ainda assim sabia onde tudo ficava e a primeira coisa que notei:

-A roupa de cama foi trocada. – Disse assim que Jackson entrou no quarto me seguindo.

-Como?

-A roupa de cama, - expliquei – não foi essa que eu coloquei da última vez que arrumei a casa. Isso já tem meses.

Jackson enrijeceu o corpo como um sinal de alerta. Começamos a olhar a cômoda que estava de frente para a cama, nada fora do normal. Entramos no closet e começamos pelas caixas que ficavam na parte superior. Nada. Todas as roupas no lugar até que fui ao final do pequeno lugar...

-Todas as coisas sumiram... – pensei em voz alta.

-Como? – Jackson indagou

-As coisas da minha mãe, do casamento... – de alguma forma eu ainda tinha esperança de o vestido da minha mãe estar lá, mas não – o vestido, os sapatos, a tiara, as joias que ela usou na cerimônia, - peças que eu conhecia através de fotos, obviamente – tudo... Não tem nada aqui.

-Você tem alguma foto do casamento deles?

Fui até o corredor e peguei as únicas três fotos que existiam daquele dia.

-Nenhuma foto com amigos? Nenhum parente dos dois? – Jackson questionou – Não acha isso estranho?

Sinceramente nunca tinha pensado nisso. Até onde eu me lembrava meus avós já haviam falecido quando nasci e os dois eram filhos únicos. Ainda assim Jackson perguntou se meus avós também eram filhos únicos e não soube responder.

Nunca havíamos recebido visitas de amigos, nem visitamos nenhum até onde me lembrava. Nem mesmo quando viajávamos. Jackson permaneceu calado diante disso, mas no fundo eu sabia que ele carregava um palpite que não estava muito afim de compartilhar comigo...

Pensei em questioná-lo sobre, mas ouvimos um estrondo na parte de baixo da casa, algum objeto caíra e Jackson tinha feito um sinal de silêncio na minha direção enquanto levava sua mão na direção da pistola que carregava na cintura proferindo baixas palavras que me fizeram gelar:

-Tem alguém na casa!

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