O som não era cronometrado, a água não caia ao mesmo tempo, mesmo ali debaixo, ainda estático no vão da porta, eu podia ouvi-la perfeitamente. O desespero das milhares de ideias criadas na minha cabeça, me despertou para que eu voltasse a ter o movimento das pernas. Larguei a maçaneta da porta, que eu ainda segurava nervosamente e corri em direção as escadas. Repetindo um "não" em cada degrau. Ao chegar no patamar, ouvi a som de água mais claramente, mas não vinha do quarto lá em cima, vinha logo abaixo de mim. Olhei meu pés, os sapatos salpicados da água rala que corria pelos degraus. Meu desespero aumentou ainda mais, corri subindo as escadas, ouvindo meus sapatos chapinhando na água que já formava uma camada de meio centímetro no chão. Não procurei saber se a água vinha do meu quarto, corri direto para o dele, forçando a maçaneta que não abriu. O mundo parecia conspirar para que tudo desse errado. Esmurrei a porta chamando-o, sentia o nó formado na garganta. Houve um momento quando meus murros e chutes na porta fizeram a madeira estralar, me afastei. Sem perceber eu já chorava, sentindo as lágrimas quentes descerem as bochechas. Respirei fundo pensando um jeito de abrir aquela porta. Um chute a mais talvez a arrancasse das dobradiças já gastas pelos outros chutes. Eu me preparava para mais um golpe com toda a força que eu podia acumular. Eu tinha que tirá-lo dali, ele querendo ou não, ele estando vivo... ou não. Porém algo me impediu, um som baixinho, um voz baixa, que me fez abaixar a perna e não chutar mais a porta, mas me encostar nela com todo o corpo para tentar ouvir.
-Jimin? -chamei. A pontada de esperança era fraca, dolorosa. Na minha mente algo me dizia para eu não me iludir. -Yaegiya, você está aí?
Esperei por alguns segundos, pronto para desistir da ideia de ouvir e voltar a esmurrar a porta. Foi quando repetiu.
-Jungkookie.
Meus olhos já não controlavam mais as lágrimas. Ele estava ali do outro lado. Meus joelhos fraquejaram e eu caí de frente a porta.
-Jimin, você está bem? -perguntei segurando um soluço. -Yaegiya, abra a porta.
-Está trancada por fora. Só... me machuquei um pouco.
-Onde? -perguntei já rompido em lágrimas, largado no chão onde a água molhava meus sapatos e calças. -De onde está vindo essa água?
-Um cano explodiu no meu banheiro, estou sem celular.
-Onde você se machucou? -insisti.
-Cortei a mão sem querer. Está enrolado com uma camisa, mas... não sei. Está doendo muito.
-Eu vou te tirar daí, espera.
Me esforcei em me levantar, ganhei uma distância da porta e passei as mãos no rosto para tirar as lágrimas. Respirei fundo, fiquei um pouco de lado e chutei a porta com toda a força que eu pude. Mais um estralo veio das dobradiças, mais um é ela cederia. Voltei a minha posição, me concentrei em tirar meu mochi dali e chutei. A porta fez um barulho horrível e se escancarou, atirando lascas de madeira para todos os lados. Eu entrei correndo no quarto, olhando desesperado como se fosse tudo mentira o Jimin está ali. Mas ele estava na cama, sentado de perninhas cruzadas, na mão uma camisa ensangüentada, molhado da cabeça aos pés, menos a camisa, devia ter trocado. O ver me deu paz, mas eu continuava desesperado, corri para ele e o puxei pelos ombros , o apertei em um abraço, dando-o tempo apenas de ficar de joelhos na cama.
-Está tudo bem. -repeti, varias vezes, para mim mesmo. -Você está bem.
-Fica calmo. -pediu sentindo as batidas do meu coração de tão próximo que estava. -Yaegiya, eu estou aqui. -disse segurando meu rosto, com os braços espremidos entre nós dois. -Se acalme.
-Você sabe o desespero que me deu ver toda essa água? -não era o objetivo, mas a frase saiu em um tom agressivo que o fez se encolher e abaixar a cabeça. -Por que não me respondeu antes?
-Porque você não me ouvia, estava fazendo muito barulho chutando a porta. E... eu me sinto fraco. -disse jogando os braços no meu ombro e se pendurando em mim antes que eu o induzisse a isso. -Saiu muito sangue do corte. -murmurou. -Me tira daqui?
-Claro.
O levei nos braços para o andar inferior que se mantinha seco. Ele estava leve como um passarinho, mas mesmo assim desci com cuidado os degraus e quando chegamos na sala, o deitei no sofá. Depois cuidaria do cano estourado, por enquanto eu cuidaria dele. Peguei meu celular e liguei para um radiotáxi, parecia que era só isso que eu fazia na vida, pegar táxis. Me disseram que chegariam em dez minutos. Eu tinha que levar o Jimin para o hospital. Ele parecia muito pálido, com aquela camisa enrolada na mão, eu não sabia fazer curativos de verdade, então era a única saída ir ao hospital.
Me sentei ao lado dele no sofá e ele me olhou piscando devagar.
-Eu te dei um susto não foi? -perguntou cabisbaixo. -Eu sei, não sou confiável.
-Não. Não é. -minha sinceridade pareceu o chocar por um momento, então ele voltou a mexer em um fio solto do sofá. -Pensei que tinha feito a pior burrada da sua vida.
-Eu estava estudando e o cano estourou, não tinha ninguém em casa. Tentei fechar o cano mas nada serviu, então eu escorreguei e me segurei na pia, mas sem querer acertei numa lâmina de barbear. -ele desenrolou a camisa da mão, lentamente, para me mostrar um corte horizontal na palma da mão aparentando ser fundo.
-Não mexa. Você lavou isso?
-Claro, mas... não adiantou muito. Continua sangrando se não pressionar. Essa é a segunda camisa.
O olhei e suspirei, enquanto ele voltava a por seu curativo provisório. Eu estava tão aliviado por ele estar ali. Me inclinei e lhe roubei um beijo esfomeado, ele correspondeu, me puxando pela camisa e também o meu lábio só que com os dentes.
-Eu não vou te deixar. -ele disse. -Eu... me prometi isso.
Eu desabei em lágrimas, já não controlando mais os soluços, curvado, com o rosto no ombro dele, que estava deitado. Não era uma posição confortável, mas no momento parecia perfeito. Não economizei oque eu guardava no peito, chorei até ter que puxar o ar com dificuldade, prendendo o lábio para que ele não tremesse. Jimin acariciava minhas costas com a mão boa. Repetindo vez ou outra que estava ali comigo. Aos poucos o choro foi passando, eu estava apenas recuperando o fôlego com a respiração um pouco entrecortada, sentindo o cheiro dele e me deixando acreditar nas palavras dele. Jimin estava ali.
-Yaegiya, me desculpa. -ele disse baixinho e eu ergui os olhos para ele. Jimin deu um sorrisinho e acariciou meu rosto inchado. -É a segunda vez que te faço chorar.
-Não importa. -sussurrei pegando sua mão e beijando-a. -Não se preocupe se eu chorar, pode ter certeza que não é sua culpa.
-E de quem é?
-Minha. Tudo, absolutamente tudo, é minha culpa.
Ele abriu a boca para replicar, mas uma buzina nos chamou a atenção. Congelei meus olhos nos dele por um momento, então levantei e chequei na janela se era o táxi. E sim, era. O ajudei a levantar, sem dizer mais nada, e após deixar um bilhete no espelho do Hall, seguimos para o táxi. Dessa vez não era o motorista legal, era apenas um senhor desconhecido e calado, que só nos perguntou para onde iríamos.
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The Cure - Jikook
Fanfiction"Devíamos amar quem quiséssemos, não é? Pessoas são pessoas." Jimin vivia sob ordens de um pai rigoroso. Jungkook era seu meio irmão, livre para fazer suas escolhas e forçado a aceitar aquele segundo casamento da sua mãe.
