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  Eu não esperava vê-lo tão cedo. Também não esperava que ele me abordasse no corredor. Na minha cabeça eu ainda nutria a fantasia de que um dia eu o faria se relembrar de mim, quando eu estivesse preparado. Agora não tinha jeito, ele falara meu nome. Estava logo na minha frente.
  Eu não me lembrava de ele ter cachos, mas lá estavam. Uma coroa de cachos reluzindo contra a claridade do lado de fora, emoldurando seu rosto. Ele estava bem mais alto do que da última vez que o vi, minha cabeça estava erguida para poder vê-lo melhor. Seus ombros estavam largos, e apesar de ainda ter o rosto infantil, seu sorriso cintilava algo que me confundiu momentaneamente. 
  Chanyeol deu um passo à frente, e levantou os braços contra os armários ao meu lado. Eu estava preso ali no meio, poderia me abaixar e sair, mas ele certamente me pegaria primeiro. Respirei fundo. Jungkook estava lá fora, tudo que eu menos precisava era um escândalo que o atraísse até aqui para essa cena.
  -Jimin-ssi. -repetiu. Ele olhou lá para fora, onde meus olhos estavam segundos antes, então franziu a testa. -Está apressado?
-Preciso encontrar alguém.
-Alguém importante?
Hesitei. Jungkook era importante, claro que era. A pessoa mais importante para mim. Porém, a pergunta do Chanyeol queria me induzir a lhe dar uma resposta completa. Sua pergunta basicamente era se eu estava com alguém.
Assenti apressado e desviei os olhos para a porta sem perceber.
-M-Meu... namorado. -a palavra custou a sair dos meus lábios. Mas quando o fez me deu liberdade. Era isso que ele era afinal, sem duvidas.
Os lábios de Chanyeol se curvaram. Ele parecia satisfeito.
-Namorado, hum? -ele sorriu e balançou a cabeça, descrente. -Eu apanhei para tentar ser alguma coisa sua. E você me aparece dizendo que tem um namorado?
Ele não parecia com muita raiva, só não conseguia controlar que devia estar com ciúme. Abaixei a cabeça fitando o chão. Me sentia culpado, ele se lembrava da surra.
-Me mostre ele. -pediu com os lábios na minha orelha. Me afastei com um arrepio. Continuei de cabeça baixa.
-Ele não vai gostar de te ver. -afirmei, mas ele não pareceu ligar. -Chanyeol, eu não quero confusão.
-Quem disse que eu quero? Quero parabenizar o seu namorado.
O olhei desconfiado, e ele me devolveu um sorriso. Estava muito perto, o afastei com as mãos no seu peitoral. Chanyeol deu as costas e foi andando para a entrada. Como aquele era o meu caminho, o segui logo atrás.
Parei a um degrau da descida da escada e olhei ao redor procurando-o. Após passar vários rostos, o encontrei debaixo de uma árvore. Sorri sem sentir, e atrás de mim Chanyeol bufou.
-Idiota sortudo. -o ouvi retrucar e ruborizei.
Cruzamos o gramado para a árvore, quando eu me sentei ao seu lado, Jungkook se virou sorrindo. Mas o sorriso apagou quando viu Chanyeol parado à nossa frente. Os dois se estudaram por um instante, se tensão fosse palpável, talvez eu pudesse esticar a mão e senti-la um pouco, no espaço entre eles.
-Quer me apresentar seu amigo, Jimin? -Jungkook perguntou sem nenhuma maldade na voz.
-Jungkook, esse é o Chanyeol. -apresentei de má vontade. Me inclinei mais para ele e sussurrei. -O garoto que eu te disse.
-Ah. É você. -disse desinteressado.
Chanyeol sorriu e se abaixou, sentando-se a um metro de nós. Ele olhou para Jungkook por alguns segundos e franziu a testa.
-Está mesmo namorando o Minnie? -perguntou Chanyeol.
-Sim, estou. -respondeu com um sorriso. -Por que?
  Chanyeol deu de ombros.
  -Só é uma coisa muito difícil. Não me deixavam nem ficar perto dele antes.
  -Também não me deixam. -Jungkook se ajeitou contra o tronco, encostando o ombro no meu. Olhei para os dois, Jungkook realmente não parecia com ciúme e Chanyeol estava desconfiado dele. E eu era um objeto ali entre eles. -Me afastaram dele também, a diferença... -Jungkook riu. -É que eu não desisto fácil.
  Chanyeol balançou a cabeça, fechando os olhos parcialmente. Como se achasse a frase de Jungkook estivesse mal colocada.
  -Eu não desisti. -retrucou, revoltado. Ele olhou para mim e apontou um dedo. -Não. Nem agora. -Jungkook ia abrir a boca para reclamar quando ele continuou. -Mas eu não tive escolha que não fosse deixar de lado o passado.
  -Eu entendo. -afirmei.
  Era uma frase  vazia, ao meu ver. Todo mundo dizia isso quando tinha algum problema. Me perguntei oque eu sentia por ele, e a resposta foi simples. Saudade. Chanyeol era como um cobertor antigo, que você sente saudades, mas então se depara com o novo, que parece muito mais aconchegante.
  -Eu só não entendi direito oque aconteceu naquela noite. -continuei.
  Ele olhou ao redor, evitando meu olhar. E então voltou e sorriu para mim. Seus olhos eram bonitos, castanhos claros, tinha um rosto com ângulos bonitos e delicados. Chanyeol era lindo.
Voltou-se para Jungkook que estava impossivelmente calmo. Os raios do sol passavam através das folhas que se entrelaçavam na copa da árvore, e incidiam no rosto dele. Jungkook também era bonito, de um jeito diferente a Chanyeol. Os cabelos lisos caindo no rosto, os olhos escuros demais que quase não me deixavam ver sua pupilas, os de dentes imperfeitos, vários sinais pelo corpo. Eu gostava de cada pedacinho desse.
Inconscientemente levei minha mão a tocar a base da sua coluna sob a camisa. Chanyeol deu uma olhada de esguelha para onde meu braço ia atrás de Jungkook, e voltou a encara-lo.
-Chani. -chamei, seus lábios estavam se abrindo para dizer algo a Jungkook, mas eu falei antes que ele pudesse mudar de assunto -Você... nunca me disse de verdade oque foi.
Ele fechou a boca e respirou fundo. Pareceu pensar por uns instantes e depois voltou a se direcionar a mim.
-Oque aconteceu não importa mais. -disse gesticulando para trás do seu ombro, como se dissesse que o tempo tinha passado. -Tempos novos. Lembranças novas. Agora eu tenho a lembrança de encontrei a primeira pessoa que eu me apaixonei, com o namorado dele. Não é emocionante?
-Mas... Eu ainda me sinto culpado por aquilo. Eu quero saber de verdade. -minha voz soou fraca, como se o menino com o coração partido a alguns anos trás, tivesse se juntado ao garoto sozinho de hoje. Os dois tinham dado às mãos para compartilhar da mesma dor. -Eu não te vi mais desde aquele dia.
Senti Jungkook de mexer desconfortável ao meu lado. Chanyeol riu e seus olhos de encheram de lágrimas, ele as prendeu tanto que seus olhos estavam vermelhos.
-Não é como se eu quisesse, okay? Meu pai não me deixaria voltar lá. Nem o seu.
Um pouco atrás dele. Vi um garoto se aproximando. Estava com o uniforme e olhava diretamente para as costas de Chanyeol. Eu já havia o visto antes com ele, pareciam ser melhores amigos. As vezes eu suspeitava que fossem mais do que isso, eles não sabiam disfarçar olhares. Ele se aproximou e pôs as mãos nos ombros do Chanyeol.
-Estava te procurando. -disse ele se abaixando. -Oi.
Ele acenou para nós, e eu o cumprimentei de volta, Jungkook apenas mexeu a cabeça. Eu sentia-o agora aborrecido. A mandíbula travada, e os ombros tensos, eu tinha medo de toca-lo e ele se afastar correndo. Pressionei meus dedos na base da sua coluna e deslizei as unhas de leve, ele se arrepiou sob meus dedos.
-Estávamos conversando. -respondeu Chanyeol ao garoto.
-Você... -o outro segurou o rosto dele, desajeitado, e passou os dedos sob os seus olhos. -Estava chorando?
-Que? Não. Não, não estava.
-Sei. -disse o garoto, desconfiado. Ele se voltou para mim e sorriu. Ele me lembrava alguém. -Eu sou o Baekhyun.
-Jimin. -respondi.
-Jungkook eu já conheço. -disse revirando os olhos.
Eu me senti perdido na conversa. Jungkook havia quase o ignorado quando ele chegou, estava de cara fechada, e agora eles se conheciam? Jungkook virou-se para ele e sorriu. Meu coração palpitou, eu estava com ciúme, sim.
-Taehyung está com saudade. -disse esticando os lábios.
-Ah, eu prometi a ele que ligaria assim que as semanas de provas passassem.
Troquei um olhar confuso com Chanyeol. Ele parecia mais usual a isso, Baekhyun realmente era alguém que todo mundo conhecia e que falava com todos. Mas eu não esperava que ele conhecesse o Jungkook. Chanyeol sorriu e mostrou a palma da mão para mim, me dizendo para esperar.
-Baek, acho que está na hora de irmos. -disse pousando uma mão na perna dele. Baekhyun franziu a testa. -Você já conseguiu causar muito ciúme aqui.
-O que? -perguntou espantado, pondo uma mão sobre o peito. Ele olhou para mim e acenou em negação com a mão aberta, como se limpasse uma janela invisível entre nós. -Não. Desculpa. Não era a intensão.
-Eu sei. -Eu ri, e me senti estupido.
Chanyeol se levantou e Baekhyun logo em seguida. Me olhou apenas por olhar, mas eu senti que futuramente iríamos conversar de novo. Mais sério. Ele teria que me contar aquela noite direito, sem me esconder nada. Mas por hora, deixei de lado essa questão.
-Nos vemos por aí. -disse Chanyeol acenando para nós dois.
Assenti. Ele pegou a mão de Baekhyun e os dois voltaram para dentro da escola, me deixando sozinho com Jungkook. O olhei de lado e ele voltara a ficar emburrado.
-Yaegiya, você não está com raiva de mim, está? -perguntei encostando o rosto no seu ombro. -Por favor.
-Não estou com raiva. -retrucou com um suspiro. Evitava me olhar olhando para baixo, para suas pernas, ignorando minhas mãos ao redor da sua cintura. -Estou morrendo de ciúme. Simples.
Eu ri e me acomodei mais perto dele. Ele finalmente cedeu e me envolveu com os braços.
-Você e ele. Parecia tão bonito, me senti um intruso. -disse com o rosto apoiado nos meus cabelos. Ergui a cabeça. Jungkook estava tão próximo que eu sentia sua respiração. -Desculpa.
-Tudo bem. -eu sorri e deitei minha cabeça no peito dele. -Você nunca é intruso. Eu não existo sem você, então, praticamente você faz parte de mim.
Ele riu e me derrubou de lado na grama. O mundo pareceu um borrão de tinta verde, de repente. Mas quando abri os olhos, ele estava sobre mim, destacando o céu sobre nós.
-Também fiquei com ciúme. -admiti. -Desde quando é amigo do Baekhyun?
-Tae é amigo dele, eu só o conheço. -deixou claro.
Ele fechou os olhos.
-Se fizer assim, posso imaginar que estamos na minha cama. Só... não é muito bom imaginar além disso, ou seríamos presos por nudez em público.
Eu ri e o bati no ombro. Ele se inclinou sorrindo e me deu um selinho longo. A textura dos seus lábios era tão conhecida, o formato contra os meus e o calor deles. Ele se afastou e me encarou à poucos centímetros. Eu podia sentir um pouco do seu corpo contra o meu, e já era o suficiente para fazer minha pulsação acelerar. Toquei seu rosto com os dedos, a linha da mandíbula até o queixo.
-Já estou com saudades. -sussurrei. Ele ficou sério, mas inclinou o rosto de lado e beijou minha mão. -Eu... estou sufocando.
  Ele ia começar a se afastar, mas eu o segurei pela camisa. Não me referia a ele. Jungkook sobre mim era uma coisa que eu nunca iria reclamar. Eu dizia a respeito de tudo em nossa volta. Todos os problemas. Eu sentia os sentimentos inflando no meu peito, como se eu tentasse segurar o fôlego debaixo d'água por muito tempo. Os sentimentos queimavam dentro de mim. Eu não queria que ele me visse machucado, não queria que conhecesse de verdade como eu estava por dentro. Quebrado em pedacinhos. Mas eu não conseguia suportar tudo, eu tinha que deixar pelo menos um fôlego sôfrego sair pelos meus lábios.
  Jungkook me olhou confuso.
  -Eu não estou sufocando com você. -expliquei. -Meu coração está doendo por causa de tudo isso.
  Ele acariciou meu rosto, apoiado com um braço só e os joelhos fincados no chão para não cair sobre mim.
  -Chega a doer de verdade as vezes. -ele murmurou. Seus olhos estavam nebulosos. Ele não me via de verdade. -Ficar longe de quem amamos, é... sem dúvida a pior coisa que pode acontecer. -ele me olhou e sorriu, mas senti a tempestade por trás dos seus olhos, como o ar quente que sobe antes da chuva. Ele estava prestes a chorar, mas não queria que eu visse. Toquei seu rosto novamente e ele fechou os olhos.
  -Um dia isso vai acabar. Não nós dois. Essa dor, vai passar. -afirmei.
  Ele me roubou mais um selinho e sorriu.
  -É. E vamos morar na praia. Pelados.
Eu já retrucar uma resposta quando o sinal do intervalo tocou. Esgotando nosso tempo. Ele me olhou tristonho e me deu mais vários beijos antes de se afastar. Nos sentamos novamente na grama, ele olhou feio para a escola e suspirou.
-Escola idiota.
Eu ri. Lá estava ele de novo, sendo belo sob o Sol, com os olhos brilhando para mim. Era irresistível. Aproveitei que estávamos parcialmente sozinhos e me lancei no seu pescoço. Enlacei-o com meu braços e o beijei de verdade. Ele correspondeu imediatamente. Feroz. Senti seus músculos sob a pele dos braços, quando ele me segurou firme. Suas mãos me apalparam das costas até atrás das coxas, oque seria impróprio se alguém estivesse ali na frente ainda. Por sorte, estávamos sozinhos.
Me afastei arfante, e ele me olhou com um sorriso de malícia.
-Podíamos arranjar um lugar.
-É, e eu receberia uma carta de aviso em casa. Melhor não.
Ele deu de ombros e continuou sorrindo. Sai de cima dele e estendi a mão para ajudá-lo. Eu tinha alguns minutos para chegar na sala. Olhei o relógio, poucos minutos.
-Taehyung vai te visitar hoje de tarde, deixe a janela aberta. -Jungkook avisou pegando a minha mão e levantando. -Disse que vai levar um amigo que prometeu ser discreto.
Ele prendeu o lábio entre os dentes e piscou para mim, agarrando meus ombros e me girando para a escola.
-Se aquele Chanyeol ousar tentar qualquer coisa com você, eu quebro ele inteiro.
Senti seus dedos descendo pela minha coluna e apertando minha bunda enquanto falava. Girei de volta quando o aperto começou a aumentar.
-Você pare de fazer isso.
-É só para constatar que eu tenho o namorado mais gostoso do mundo. Agora vá.
O beijei mais uma vez e corri em direção a entrada da escola. Me sentia um dos adolescentes mais idiotas do mundo. Mas relevei. Enquanto corria, senti uma carga de felicidade queimando no meu peito. Ele havia me deixado com esperança. Isso era novo. Eu amava isso.

The Cure - JikookOnde histórias criam vida. Descubra agora