Eu tinha prometido ao Jungkook que não pensaria mais no assunto durante aquela semana. Mesmo assim não consegui controlar, pois lá estava eu, na varanda do quarto na casa que o Hoseok Hyung tinha nos alugado para passar um período distante da cidade. Eu o imaginava escondido entre as folhas do jardim, nos observando e esperando o momento. Imaginava-o rindo à toa pensando em como estávamos aterrorizados. Respirei fundo. Apoiado no parapeito, eu via após muito tempo minha respiração condensar em frente aos meus olhos. Não era um bom sinal, neve trazia dificuldade de locomoção, e estávamos longe de Seul. Balancei a cabeça e afastei aqueles pensamentos.
Estávamos a quase duas semanas em paz, a primeira tinha sido no hospital, sob todo cuidado e orientação médica e policial; já a segunda semana, nos mandaram voltar para casa, e apesar de todos os males, Jungkook estava se recuperando bem, agora andava de muleta o tempo todo. E para a nossa sorte, tínhamos amigos incríveis, os quais nos fizeram companhia durante esse período de esconderijo.
E lá estávamos nós, vivendo sob o mesmo teto, como se nada estivesse acontecendo do lado de fora. Da varanda, eu ouvia os gritos de animação do Jungkook e do Taehyung ao assistirem tv. Os outros quatro estavam em silêncio, desde a chegada eles passavam muito tempo conversando baixo e nos lançando olhares preocupados. Isso me deixava nervoso.
Meus olhos correram o jardim lá em baixo. Vinte metros de grama até os muros, rodeado de cerca elétrica e com uma torre baixa ao lado do portão, lá em cima ficava o homem musculoso que eu vi na chegada, seu nome era Thomas, tinha olhos que brilhavam em azul. Pensei se tudo aquilo era suficiente, se ele conseguiria chegar até nós ali.
-Você está aqui de novo?
Virei de supetão para trás, encostando minhas mãos na murada. Felizmente, era o Jungkook.
-Não faça isso, -suspirei colocando a mão no peito. -Sabe que eu tenho medo.
Ele riu e veio coxeando apoiado a muleta até o meu lado. Jungkook estava com outra aparência, não era apenas pela dor na perna, mas ele parecia ser outra pessoa, alguém mais respeitável, seus olhos estavam mais intensos, e eu as vezes o pegava olhando o nada com um olhar terrível. Ou era apenas o meu sentido de gratidão querendo vê-lo mais bonito por ter sofrido por mim.
-Você fica pensando nele. Vem aqui para imaginar as formas que ele nos atacaria aqui. Imagina onde ele está. -disse apoiando-se na mureta e fazendo um gesto amplo para os muros e além deles. Suspirou. -Está com medo ainda, Jimin?
Franzi a testa. Ele nunca me chamava apenas pelo meu nome.
-Por que "Jimin"?
Ele olhou para baixo e riu.
-O ouvi tanto dizer o seu nome, estou tentando tirar da cabeça isso. Jimin. Ele quase estragou o seu nome. -Jungkook esticou o braço e tocou meu rosto. -Eu não deixaria isso acontecer.
Assenti. Eu merecia mesmo tudo aquilo que ele fazia? Ele podia ter fugido e pedido ajuda, não se entregado no meu lugar. Mas agora ele já tinha feito, tudo que eu podia fazer era agradecer mil vezes.
Me aproximei e encostei a cabeça no peito dele. Jungkook me envolveu com o braço livre.
-Obrigado, Kookie. -inspirei fundo o seu cheiro e meus olhos encheram de lágrimas.
O senti sorrir e o apertei com força.
-Não chora, yaegiya. Vem, vamos lá para baixo, os meninos estavam preocupados com você.
-Vamos.
Limpei umas lágrimas e balancei a cabeça dizendo que sim. Ele pegou minha mão e me levou lá para fora. Dei uma última olhada na varanda, a noite continuava a cair.
A casa do Hoseok Hyung era grande, tínhamos sete quartos, só três eram ocupados. Tínhamos banheiros com banheiras de duas torneiras e a cozinha era enorme e o Yoongi Hyung adorava ficar lá. O jardim pela manhã era incrível, cheio de vida e a piscina no quintal era grande para nós sete ficarmos confortavelmente. Eu poderia me acostumar com aquilo, mas era temporário, eu sabia.
Descemos e os meninos estavam sentados no sofá. Lembrei de quando os conheci, eles estavam do mesmo jeito, brigando pelo controle, meio sonolentos, fazendo briguinhas sem motivo. Antes de ir até o sofá, me virei para ajudar Jungkook a descer os últimos degraus da escada, era a parte que ele odiava.
Quando nos viram, Tae e Hoseok, que estava de folga, gritaram meu nome e saltaram do sofá.
-Jimin!
-Hyung!
Os dois chegaram de frente para mim, cada um com um sorriso amarelo e mãos juntas.
-Vamos pedir pizza? Esquecemos de comprar as de forno. -disse Taehyung, jogando os braços nos meus ombros e me puxando para ele. Num segundo ele me abraçava para fazer ciúme aos três. -Vamos, Hyung.
-Só porque eu estou com a perna machucada, não significa que eu não possa jogar essa muleta em você. -disse Jungkook, se esticando para o dar uns tapas.
O abraço já estava doloroso.
-Podemos.
Taehyung me deu um beijo da bochecha e saiu correndo para pegar o celular. Ao ver o namorado correndo, Hobi Hyung o seguiu. Desde o dia que chegamos e eles entenderam minha paranóia, tudo que queriam e tinha influência de fora, eles me pediam antes.
Jungkook pegou minha mão e foi andando, consideravelmente rápido, até o sofá. Me sentei entre ele e o Yoongi Hyung,que ria para a tv.
-Rindo à toa? -perguntei.
-Eu namoro idiotas. -ele comentou e voltou a rir.
-Concordo. -disse Namjoon Hyung.
Sentado no chão, ele apoiava a cabeça do Jin com o ombro, parecia meio torto, mas não estava reclamando.
-Eu posso chamar eles de idiotas, são minhas responsabilidades. -disse Yoongi.
Eles se fitaram em uma discussão interna.
-Eu crio vocês a muito tempo, você só me auxilia, Hyung.
Yoongi estirou língua e fechou os olhos.
-Só quero a minha pizza. -resmungou, deixando a cabeça ir para trás e bater no encosto do sofá.
-Calem a boca. -Jin Hyung suspirou entre o cochilo.
Não aguentei e ri. Fazia algum tempo que o riso não era fácil para mim, mas naquele momento saiu com uma espontaneidade que me aliviou o peito. Jin abriu os olhos, ainda sonolento, e sorriu.
-Que bom que você está rindo. Estava ficando preocupado.
Yoongi concordou.
-Taehyung estava planejando formas de te fazer rir.
-Obrigado pela preocupado, mas estou bem. -afirmei.
Jin Hyung ergueu-se do ombro do namorado e me fitou.
-Temos que ficar preocupados Jimin, é o trabalho de ser Hyung de dongsaengs tão complexos.
-Gosto de ter vocês como hyungs. -admiti. -Mesmo que algum pareça meio rabugento.
-Obrigado. -Yoongi riu e acenou com a cabeça. -Você é um dongsaeng difícil, mas a gente da um jeito.
Namjoon Hyung nos olhava com orgulho. Jin Hyung parecia respirar com calma finalmente. Yoongi Hyung estava satisfeito por ter sido elogiado. Do meu lado senti dedinhos tocando minha perna e fazerem carinho. Jungkook estava quieto, mas estava nos ouvindo.
Da cozinha, Taehyung e Hobi Hyung vieram correndo, com sorrisos enormes, e todos já sabiam os significado, a pizza estava a caminho. Tae balançou o celular para nós, contornou o sofá e se jogou no colo do Yoongi.
-Pizza pedida. -Hobi avisou ao se sentar do lado deles. -Ninguém disse do que queria, fizemos ao nosso gosto.
-Qualquer coisa eu aceito. -disse Jungkook. Ele deslizou a mão para a parte interna da minha coxa. Me virei e ele sorria. -O que? É só uma perna machucada, logo ela sara.
Machucado, mas sem intenção, nunca!
Minha atenção sumiu, eu estava focado nas carícias perigosas que ele fazia. Subiam e desciam. Davam choques. Segurei seu pulso, mas ele permaneceu com os dedos tamborilando. Respirei fundo e levantei para ir na cozinha, perguntei se alguém ia querer alguma coisa de lá, como todos disseram que não, só fui.
Fui na geladeira e a abri. Eu não queria nada de lá, mas estava ficando excitado e não podia deixar aquilo continuar. Estalos vieram em direção a cozinha. Fechei a geladeira e o esperei. Jungkook passou pela porta com um sorriso duvidoso, se encostou na bancada e me olhou de cima a baixo.
-Faz tanto tempo... -disse enquanto me olhava. -Ah Jiminie.
Minhas orelhas queimaram.
-Eles vão ouvir. -eu disse simples tentando não dar corda.
Jungkook era insistente. Eu tinha aprendido isso a muito tempo. Ele se aproximou e me beijou. Dei um passo desequilibrado para trás. Suas mãos seguraram com firmeza a minha cintura e me encostou na bancada.
-Você está machucado. -reclamei quando soltamos o beijo. -Sua perna vai doer.
Ele deu de ombros.
-Posso ficar deitado.
-Esta tão grave assim?
-Está. Muito. Você tem me ajudar. -ele fez bico. -Você é meu namorado, esqueceu?
Olhei fundo nos seus olhos e ri. Ele era fofo, eu tinha que admitir, mas ele não sabia fazer isso quando queria. No momento, ele me olhava com uma inocência que me surpreendia.
-Eu nunca esqueceria disso.
Ele sorriu triunfante. Provavelmente tendo lido um "sim" nas minhas palavras.
Deu as costas e foi no seu passo manso até a sala, os tocs da muleta o acompanhando. Passei as mãos no rosto e suspirei. Eu me surpreendia todos os dias, fosse comigo mesmo ou com ele.
Voltei para a sala e estavam todos quietos para assistir ao filme. Sentei no meu lugar de novo e me aproximei do Jungkook, não que o filme fosse terror ou algo assim, eu só queria estar perto. Passados vinte minutos de filme, a pizza chegou. O segurança ligou para a casa dizendo que tinham entregado a ele e que precisávamos buscar. Taehyung foi, e quando voltou, falou por muito tempo como era injusto ele ter ido buscar três caixas sozinho.
Enfim, era uma noite normal depois da tormenta.
***
Não eram só pizzas.
Taehyung chegou com a pizza, mas depois voltou a sair sem dizer nada. Ainda cheguei a pensar que ele estava com raiva, mas então ele entrou carregando um engradado com garrafas de vidro tilintando. Éramos quase adultos, quase responsáveis, podíamos beber e nos responsabilizar pelo que faríamos, mas nem tanto.
Em meia hora todos já estavam mais alegres. O triângulo amoroso estava num pedaço do sofá, de vez em quando trocando beijos, um mais bêbado que o outro. Jin Hyung tinha desistido e deitado no chão com a garrafa ao lado. Namjoon Hyung estava seriamente focado na televisão, não sei se ele assistia de verdade, ou se estava vendo outra coisa. Jungkook e eu estávamos quase um em cima do outro no canto do sofá, ele sempre com uma mão sobre mim, parecia temer que eu fosse sair correndo. Eu nunca tinha visto meus amigos bêbados, era engraçado e fofo, digo isso por todos estarem de bochechas vermelhas.
Yoongi estava sentado entre os dois namorados, uma perna em cada um, era o mais vermelho de todos. Eu era o menos bêbado, afinal, eu não queria sair do meu controle por não saber até onde o meu limite ia.
-Jimin. -chamou Taehyung, sua voz estava um pouco embargada e falhava. -Eu estou muito feliz por você está aqui com a gente. Jungkook sempre sobrava nas festas. Era deprimente ver ele daquele jeito.
Eu ri. Jungkook fingiu que ia jogar a garrafa em Taehyung, mas obviamente não faria isso, não sei se pelo amigo ou pela garrafa. Jin Hyung que estava deitado de barriga para cima no chão, ergueu a garrafa em concordância.
-É. Eu gosto de vocês. -disse Yoongi, como se finalmente tivesse tomado essa decisão. -Vocês me divertem, me preocupam, me aborrecem. Tentem me divertir mais.
Ele riu e seu rosto ficou mais vermelho. Hobi o beijou na mandíbula e ele ronronou como um gatinho. Eu não sei como eles tinham chegado naquele acordo de três, mas pareciam bem satisfeitos.
-Se eu tivesse ficado em Daegu... minha vida seria monótona. E eu trabalharia no restaurante dos meus pais. -Yoongi disse vagamente.
O nome ecoou na minha cabeça.
Daegu.
Onde eu tinha ouvido aquele nome?
Tentei forçar minha cabeça semi-bêbada lembrar disso, mas eu não conseguia.
-Não sabia que era de Daegu. -eu disse. -Nem que tinha um restaurante.
Ele acenou com descaso.
-Uma parte chata da minha vida.
-Eu também sou de lá. Viemos juntos para cá na verdade. -disse Taehyung, agarrou o braço do namorado e o apertou.
-E você, amor? -perguntou Yoongi virando-se para Hobi.
-Gwangju. - Taehyung e Hoseok Hyung responderam ao mesmo tempo.
Taehyung deu de ombros, como quem diz: Fazer oque? Sou fã número um.
-Eu e o Jimin somos de Busan. Será que já nos vimos antes? -Jungkook perguntou perto do meu ouvido. Arrepiei com a sua voz tão perto.
-Provavelmente. -disse Namjoon Hyung, finalmente saindo do transe. -Talvez tenham até estudado juntos.
-Destino.
Olhei para Yoongi, ele tinha ficado para baixo depois do assunto. Franzi a testa. Eu tinha alguma coisa para perguntar a ele, mas estava demorando a chegar na minha mente. Bati a palma na testa e respirei fundo.
-Tudo bem? -perguntou Jungkook.
E então eu lembrei.
-Yoongi! -gritei sem querer. Ele se virou com olhos arregalados para mim.
-Sim?
-Sabe onde é o Hospital São Miguel?
Seus olhos ficaram sombrios, seu cérebro parecia correr a duzentos quilômetros por hora em lembranças.
Ele serrou os olhos para mim.
-Por que quer saber? É um hospital psiquiátrico.
Engoli em seco, como se estivesse engolindo vidro parecia que minha garganta rasgava. Por que ele me mandaria para um hospital psiquiátrico?
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The Cure - Jikook
Fiksyen Peminat"Devíamos amar quem quiséssemos, não é? Pessoas são pessoas." Jimin vivia sob ordens de um pai rigoroso. Jungkook era seu meio irmão, livre para fazer suas escolhas e forçado a aceitar aquele segundo casamento da sua mãe.
