Chego cansada. Sei que não deveria me esforçar tanto, mas preciso me virar. Por mais que Karla tenha se tocado e agora ajude um pouco nos mantimentos, preciso de mais. Essas horas extras que faço enquanto estou de licença até ajudam um pouco, e ultimamente não passo necessidade. Graças a Deus!
— Boa tarde, Valéria — a vizinha me cumprimenta.
— Boa tarde, Silvana — respondo sem outras intenções.
Hoje de novo a Bia me chamou para a igreja. Acho que, agora que estou numa situação melhor, posso parar de depender de favor. O povo da igreja me ajuda com as cestas, foram muito bons nesses dois meses, mas usar isso para me chamar para a igreja toda semana não parece um favor. Como eles diziam: dar sem esperar nada em troca. A Bia de sempre, só pensando em si mesma.
Já a Karla me chama toda semana para a festa, e eu nunca vou, dizendo que não posso deixar a Bia de mal, senão perco a cesta. Não me importo com ela, só faço isso pelo Michael. Mas minha vontade é ir à festa com Karla. É estranho, pois de um lado sei que preciso ficar mais caseira por causa do bebê, mas por outro eu preciso sair para curtir enquanto ainda posso.
Bia ou Karla? Claro que vou com Karla. Ela está maior periguete para sair, coisa com que eu nem deveria me surpreender mais. Na maior animação, ela chama o transporte para nós duas, sem parar de sorrir. Olho para minha barriga e penso no que meu bebê vai achar de nossa saída. Só preciso ter cuidado com ele, e o resto será pura diversão.
A música está melhor hoje graças ao DJ novo. Já era hora de ter um som diferente nessa casa. Porém Karla não liga para a música, só para os homens que tiram uma casquinha com ela na pista. A piranhona não cansa disso? Só porque os homens não prestam é necessário ficar fazendo eles sofrerem?
Sim! Principalmente o vagabundo do Elton... Esse nome faz arder minha língua. Só a burrona da Valéria para um dia ter se apaixonado por um sujeito desse.
O tempo passa e começo a notar coisas que não via antes. Talvez a fumaça desse lugar seja ruim para o bebê, pelo número de fumantes dentro do recinto. Nem consigo curtir. Aliás, esse não é meu lugar mais. O que deu na minha cabeça de querer vir aqui? Uns apenas enchem a cara. Outros estão mais altos que o castelo de mil andares da lenda. Mas todos só querem uma coisa... Uma que também quero, mas que também não quero; nem posso no meu estado atual. É uma guerra dentro de mim.
Tudo piora quando chega mais um cliente: o marido da minha patroa. Meu patrão chega abraçando duas das meninas mais peitudas, como se fosse um velho cliente já conhecido. Que nojo desse velho tarado. Sem que ninguém perceba, nem mesmo a Karla, que está muito ocupada na pista de dança com uns quatro, caminho me esgueirando até a saída. Passo meu cartão para a conta da Karla e dou no pé. Ainda não é nem meia-noite quando estou a pé indo embora. Muitos chegando e eu saindo. Para nunca mais voltar.
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Quantas dúvidas
Fiction généraleOs primos Felipe e Bruno tentam vencer os próprios defeitos ao lado de Bia, a obreira perfeita que abre mão da própria felicidade para ajudar os outros, apontando seus defeitos. Seus velhos amigos Meck e Valéria pensam estar bem, mas com as dificuld...
