Capítulo 56 - Paulo.

1K 160 19
                                        


É incrível como a gente consegue ver o medo estampada no rosto de uma pessoa. Se fossemos animais irracionais talvez sentiríamos o cheiro do medo e isso para muitos trás prazer. O nível de tensão dentro do quarto é alto.

Vou me aproximando da cama de Renan, puxo uma cadeira que está próxima a um armário de aço e sento-me. Vejo que ele acompanha tudo que faço com os olhos. Fico olhando para ele que não tira seus olhos de mim. Seu olhar é assustado e sua respiração está alterada. Suas mãos que antes estavam ao lado do corpo agora estão segurando os lençóis como se dependesse disso para viver. Depois que me sento, ele abaixa a cabeça, mas fica com os olhos abertos.

– Fiquei sabendo que você se recusa a falar desde que acordou do coma. – Cruzo as pernas e tombo a cabeça para o lado direito. – Não vai dizer nada? – Vejo-o piscar, mas não diz uma só palavra. – Sabe Renan, se você não cooperar, vão fazer as coisas do jeito mais difícil. É isso que você quer? – Silêncio. Desencosto da cadeira e levo meus cotovelos para meu joelho. – Pelo jeito você não está entendendo direito a situação. Bom, deixe eu te lembrar para refrescar sua memória: Você matou um homem do alto de um edifício. E este mesmo homem morto, foi preso pela agressão e estupro de uma policial que continua internada em estado grave. – Ele continua sem dizer uma só palavra. Arrasto minha cadeira para mais perto da cama ficando ao lado dele. – Vamos Renan, converse comigo. Eu preciso que você me ajude, caso contrário terei que usar um outro método para tirar sua confissão e não é isso que quero fazer. – Sua respiração está pesada. Ele respira com muita dificuldade.

Me levanto e fico andando pelo quarto olhando tudo. Renan não ergueu a cabeça em nenhum momento, permanecia na mesma posição. Paro de andar e volto meu rosto para onde ele está.

– Eu sei quem você é Renan Andrade de Almeida. – Ele levanta a cabeça e fica me olhando e pisca várias vezes. Sorrio ladino ao ver sua reação. – Como eu sei? Sou detetive e isso seria um erro meu se não soubesse com quem estou lhe dando. – Me aproximo da cama puxando a cadeira novamente e me sentando. – Vi que você foi um dos melhores na *AMAN. Seu currículo é invejável na verdade. Participou de inúmeros missões e todas bem-sucedidas. – Cruzo as pernas segurando meu joelho. Renan continua me olhando. Agora seu olhar não é mais de espanto. – Você foi um combatente no Iraque. Vi que foi convocado e que permaneceu por lá por dois anos e que voltou por ter sido alvejado por um tiro que quase tirou sua vida. – Ele apenas me olha. – Depois disso algo deu errado e eu quero saber Renan. Vamos, converse, se abre, grite comigo. Eu sei que precisa desabafar. Me tenha como seu amigo. – Ele desvia seu olhar voltando-o para suas mãos que estão abertas com as palmas voltadas para cima. Vejo-o suspirar pesadamente.

– Eu fui um sniper na AMAN. Eu era o melhor no que fazia, tanto que fui um dos convocados para ir à guerra do Iraque. Eu me sentia orgulhoso por isso, por poder levar no peito o nome do meu país como um dos melhores atiradores. Eu só não contava que ver, ouvir e sentir tudo aquilo acabaria comigo de forma tão cruel. Lembro-me que as tropas lidavam com múltiplos realistamentos por períodos estendidos, tínhamos curtos períodos de sono, muitas vezes as operações duravam por vinte e quatro horas sem descanso, as missões eram alteradas constantemente. – Ele aperta a mão em punho e começa a tremer. – A ordem era para pegarmos o nosso fuzil e atirarmos em tudo o que tivesse vida, homens, mulheres e crianças, tudo, nada poderia escapar. Tudo e todos eram nossos alvos. Um dia fui atingido e fui dispensado devido a gravidade do ferimento. Vim para casa e aí começou meu dilema. Não consigo dormir desde que voltei. Eu vivo dentro daquela maldita guerra mesmo estando tão longe de lá. Eu vejo pessoas mortas espalhadas pelas ruas, eu ouço o barulho do fuzil atirando para matar. Passei a beber para ver se todo esse sofrimento acabava, mas só piorou. A única coisa que eu queria era acabar com a minha vida talvez assim esse sofrimento acabe. – Ele não me olhou em nenhum momento.

A lei é o Amor.Histórias para pegar e não largar. Descubra agora