Peguei a chave que Lucinda sempre deixava debaixo do tapete e abri a porta da frente, me preparando psicologicamente para encontrar qualquer outra desagradável surpresa.
Porém, nada me interrompeu quando subi até o meu quarto, me livrei dos trapos sujos e entrei debaixo da água quente do chuveiro. Nenhum Krenger entrou destruindo o banheiro, enquanto eu passava longos e inquietantes minutos esfregando minha pele suja de sangue e imaginando que provavelmente eu não teria outra oportunidade de tomar banho tão cedo. Nem mesmo quando enrolei a toalha em minha cintura e fiquei parado encarando a mata fechada que se erguia além da janela. Não houve dríades, nem monstros, nem gnomos... Apenas o barulho pesado da minha respiração, o cricrilar dos grilos e eventuais assobios que, com toda certeza, não pertenciam à Flor.
Depois de minutos paralisado — incapaz de me mover sem ter a sensação de que iria explodir com toda expectativa e responsabilidade —, o corte em minha perna começou a latejar, como se quisesse me lembrar das coisas que precisava fazer. O quarto estava escuro como a noite lá fora, eu não possuía disposição alguma para deixar que a luminosidade me ofuscasse, pois o breu me parecia reconfortante.
Tateei no guarda-roupas quaisquer peças e as vesti, considerando a possibilidade de talvez adotar o vestuário medieval. As armaduras para ser mais específico. Quem sabe se utilizasse uma minha perna não estivesse inteira.
A informação que Lucinda me deu, de que o livro e a adaga eram essenciais para chegar em Hanaros, ainda repercutiam em minha mente. Eu tinha certeza que o Krenger viria, certeza de que ele destruiria toda a cidade e a culpa seria nossa. Aos poucos, uma possibilidade chegava até mim, mas para que fosse possível eu precisaria estar pronto.
Não seria responsável pela morte de mais ninguém.
Resolvi juntar coisas que gostaria de levar para aquele que poderia ser o último dia da minha vida. No final, eu nem precisaria de tanto para ir morrer. Coloquei a adaga, fones de ouvido e água no rifind. Mesmo que Lucinda houvesse me alertado para não utilizá-lo, eu não me via por aí com uma mochila nas costas. Após um tempo tentando delimitar as ações em minha mente, o celular quebrado vibrou.
"Uma hora para o fim do meu turno. " — dizia a mensagem de Daniel.
Apesar do desentendimento entre mim e Daniel nos últimos dias, eu sabia que ele era a única pessoa que poderia me ajudar no que eu pretendia. Então digitei:
"Daniel, preciso da sua ajuda. Tenho um plano..."
Após passar tudo o que tinha planejado, peguei meus sapatos mais resistentes e novamente fui em direção à parte baixa da cidade. Eu precisaria estar lá se quisesse que as coisas dessem certo.
Ao invés de ir pelas ruas, no caminho habitual, peguei o atalho pelas passagens subterrâneas que àquela altura já estavam desertas novamente. Eu não aguentaria ver a dor e a raiva dos habitantes da cidade e não poder ajudá-los.
Vez ou outra, as imagens das pessoas mortas e mutiladas apareciam repentinamente em minha cabeça à medida que eu focalizava a escuridão ao meu redor.
Ainda eram sete e meia quando subi para o interior da biblioteca. O lugar estava impregnado com cheiro de sangue e morte. Eu certamente não iria querer ficar parado ali. Corri em meio aos escombros sem olhar para os lados, indo em direção ao velho chafariz, quando identifiquei várias auras extremamente diferentes adentrando no lugar.
— Todo o nosso povo está perdido! — lamentou uma voz vinda lá de dentro. Ela aparentava ser de um homem velho.
Hanarianos, aquelas eram as auras dos habitantes ainda vivos no Vale das Estações.
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Vale das Estações
FantasyHá dezessete anos, num país em que poucos acreditariam haver magia e as lendas eram vistas como tolices para assustar crianças, surgiu um lugar fantástico onde as estações coexistiam e as histórias se tornavam reais. Após uma série de coincidências...
