Eu reconhecia quando era hora de fazer a tão adiada faxina no coração.
Era quando a necessidade de fluir se tornava mais forte do que os apegos. Era quando um cheiro estranho começava a ser notado e aquele som que antes era melodia, agora já não soava bem.
Ou quando o conforto dos entulhos causava uma falta de ar. Quando vem aquela sensação de aperto, tudo tão cheio e inútil.
Tudo tão presente e distante.
'Às vezes a gente está tão cheio que está vazio.'
Eu sabia
'Às vezes a gente está tão vazio que está cheio.'
Eu queria
As faxinas no coração foram sempre tão adiadas, porque o coração é um velho colecionador. principalmente o meu. cheio de compaixão, tem dó de jogar fora uma moeda antiga, quem sabe volte a ter valor? Sofre ao se desfazer daquele pássaro empalhado, mesmo sabendo que hoje em dia ele só voa na imaginação.
O coração empoeirado e entulhado antes de ser faxinado sofre por dois lados- 1. por saber que ficará novo e limpo, ele tem medo do vazio. 2. por saber que vai perder o que um dia o encheu de vida.
Quem faz a faxina no coração é a cabeça. Organizada, trabalhadeira, caprichosa. passa o pente fino em todas as artérias. Eu quero deixar no coração o que ainda faz sentido, e só.
O coração aceita a situação, afinal precisa respirar de novo. Ele quer, agora, ficar mais amigo da cabeça, quer fazer faxinas em curtos prazos.
'Você, meu caro amigo, é um coração em bom estado de coração, só precisa aprender a aceitar as mortes.'
O coração sabe aceitar, ele só está cansado de acompanhar os ciclos da vida.
Mas o coração velhinho agora decidiu que vai ter um design moderno, tudo clean – agora aqui só entra quem tomar cuidado.
Se eu tivesse o poder de conhecer os intransponíveis universos dos outros corações, meu amigo, eu te diria. Mas graças ao universo não podemos e sequer devemos querer conhecer os universos dos corações alheios.
Não sou eu que me protejo ou desprotejo, é a vida.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Quimeras Abortadas
RandomDevaneios, ilusões, pseudo-conclusões, questionamentos. Sou o que escrevo.
