Eu leio você. Talvez eu não saiba os detalhes ao certo do teu quarto ou o nome inteiro da tua irmã ou qual realmente seja o teu livro favorito, mas eu sei de você. Você se desnuda no preciso instante em que me visto com as palavras. Você se entrega toda e inteira quando sou eu própria a confessar. Eu leio você no momento exato em que você me lê. E trago uma trégua ao caos na ordem das linhas; dos sentimentos que te espremem e imprimem na alma tua, marés em que sou versado leitor. Eu leio você como testemunha ocular dos teus próprios sonhos. Sou narradora dos capítulos que guardas na lembranças, sejam daqueles que carregas leve dentro do peito ou daqueles que gostarias mesmo de esquecer. Eu vejo aquilo que você mesma não enxerga, mas não te julgo nem te condeno; no coletivo das palavras com que te identificas, você em verdade se liberta. Você gosta quando explico tuas dúvidas e vontades pelas exatidões confessas da poesia; quando declamo tuas duras certezas nas mansas linhas do papel, tanto que guardas meus papéis dados a você; e lhe devolvo assim as levezas esquecidas no interior de ti; ou quando despeço tuas desesperanças como se soubesse cada uma pela cor e relembro você de amanhecer. Você busca nova página depois do amor que não te visitou ou da felicidade que não vingou. Você busca alento e alívio no aconchego do poeta. Mas entenda meu amor, eu te verso e te encanto, mas não te canto, com as doçuras que te cercam acerca das palavras que careces, mas que me sobram. A questão aqui é que você se engana e se confunde ao pensar que sou destino, e não a ponte. Ao sentir que sou a mocinha, e não a trama. Por ler você, eu corro o risco. Por você me ler, te enganas. Porque são minhas palavras quem se dedicam ao público no palco das letras, e então você vê em mim o que nas palavras desejas, mas não sou eu minhas palavras. Eu me despeço delas em cada ponto final, mas você me leva junto pra dentro de ti pela porta que eu de propósito deixei aberta quando entrei. Você se apaixona pela imagem mas desconhece o espelho. Você se distrai e se enamora pelo personagem projetado na tela da sua vida. E eu sei das aflições que te consomem ou qual a nota do perfume do amor que te alimenta, mas não te conheço, ainda assim amo todas as partes de você. Tudo porque nossas ilusões e milagres apenas mudam de endereço, mas são feitos da mesma matéria de onde nasce a nossa alma. Por isso, quando eu falo de mim, é você quem ouve. Quando digo nomes, você escuta o teu. Mas eu não sei quem você é e talvez eu nunca venha a saber. Eu te decifro, e é bom que saibas, tenho também a pretensão de te devorar.
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Quimeras Abortadas
AléatoireDevaneios, ilusões, pseudo-conclusões, questionamentos. Sou o que escrevo.
