Sim, existe um ponto na vida em que a gente tende a preferir pisar mais firme, ter os olhos e a cabeça erguida e trilhar caminhos que valem o risco, risco esse que a gente assume porque já sabe voar se der de cara com precipício.
Existe um momento que sei lá, nós paramos para olhar pra dentro e percebemos ali que em algum rolê dessa vida nasceu um olhar mais observador e que esse olhar se doa pra nós como forma de se conhecer um pouco melhor e daí já não caímos tão facilmente nas armadilhas, sejam elas de medos, das culpas, das ilusões.
Não quero dizer que ficamos imunes não, pelo contrário, quero dizer que o caminhar nós dá essa musculatura para querer viver coisas de verdade, conviver com pessoas de verdade, entrar em projetos, aventuras, relações para evoluir e não para se estrepar, e aqui todos nós já sabemos que o tempo é curto, que a vida é rara e igualmente curta e que não dá para parar e prestar atenção em tudo, não dá para ouvir o que estão pensando e falando de nós o tempo todo, não dá para pegar no colo dores que não são nossas e que já não nos dizem respeito.
Bate um vento e a gente decide não tentar consertar o que não tem mais jeito, afinal nós não somos heróis de ninguém, não é, moça? Está tudo bem em já não quer discutir com pessoas que estão em caminhos tão diferentes, que o esforço em gastar tanta energia para mudar algo ou alguém já foge a tua capacidade e compreensão - seja um amigo, um namorado, um parente...
Eu saí dessa de gastar tempo e coração moendo e remoendo, tentando viver de novo algo que não encaixou bem, sabe se lá porque, ou na verdade eu até sei mas que as vezes a gente tapa os mesmos olhos que ganhamos musculatura para tentar fingir que nada aconteceu.
Só que aí eu ja me pego não querendo mais me explicar, não quero mais me culpar por ter abandonado uma causa que não era minha, um sonho que nunca foi meu, um futuro que eu nunca quis, um trabalho que não me abria, não quis mais me sentir mal por decidir seguir o que me engrandece e não o que me limita.
Claro que sei que eu deixei e se acontecer com você pode ser que você também deixe pessoas que foram importantes para trás, a gente já não tem interesse em responder mensagens, em retomar o óbvio ou explicar o que não queremos. Podem chamar isso de egoísmo, mas eu acho que é um altruísmo na verdade – não querer atrasar o próprio caminhar e também deixar que as outras pessoas despertem para os seus propósitos, entende? É sempre um viés.
Por isso eu acredito e tento ter os olhos abertos e seletivos, e o coração também. Que o meu coração saiba se respeitar em sua imensidão e necessidades.
Vamos filtrar, abandonar, perdoar sim, mas não querer mais participar de danças que nos embolam, irritam, fragilizam.
E eu ouvi por aí esses dias:
'mas você perdoou?'
e eu disse:
'eu perdoei sim, mas não passou no meu filtro.'
Justamente por saber no hoje em que acredito e não compactuar com isso ou aquilo porque não parece tão ruim.
Cuidado com coisas que "não parecem tão ruins". Cuidado.
Que loucura falar isso, que loucura fazer isso – pode parecer. Mas pra mim, liberdade tem disso: seguir a vida e ser dona do meu umbigo. E o que vale a pena vem junto comigo.
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Quimeras Abortadas
Ngẫu nhiênDevaneios, ilusões, pseudo-conclusões, questionamentos. Sou o que escrevo.
