Olhei pra frente e vi uma xícara branca ainda com as marcas vermelhas do teu batom, você havia saído há pouco e eu fiquei na mesma posição desde a hora que você se lançou porta a fora dizendo que nunca mais ia voltar, eu deveria ter te feito ficar, afinal? Será que vale mesmo o esforço de nos esforçamos por alguém que vê no mundo uma oportunidade melhor do que em nós? As questões elas sempre surgem como uma bala atravessando minha mente em câmera lenta, se você lesse isso, você conseguiria reproduzir todas aquelas conversas que tivemos sobre os meus devaneios loucos e perdidos e também de como eu não descanso de pensar em teorias absurdas, como aquele dia que eu disse que você era como um pé de feijão que eu aprendi a cultivar no algodão quando estava no primário, onde só aprendemos como a vida nasce mas não aprendemos a cultiva-la, o feijão morre, o resto de café com a marca do seu batom na xícara já esfriou e eu, tô aqui.
Você provavelmente vai alcançar ares e céus muito mais imensos do que os que eu imaginei pra nós dois, mas não há culpa, querida iaiá; jamais haverá culpa por que eu não sou esse tipo de pessoa, eu não acho que culpa-la me isentará do mal que eu causei a querer que você se limitasse num espaço pequeno que pra mim era aconchegante mas pra você sufocante. Eu pequei. Eu só quis aquele amor de novela, entendes? eu só quis um amor de verdade, mas com tua partida eu botei aquele cd de cicero pra tocar em alto e bom som e quis realmente te chamar pra voltar e entrar pra ver, tirar o sapato pra entrar, pra tu tomar cuidado que eu tinha mudado de lugar algumas certezas; entretanto como faria tal coisa? faz quantas horas que tu saiu daqui, iaiá? duas horas no máximo? eu não sou bom em contas, até porque pra mim quando não há você é só um imenso vazio no tempo em que números não importam tanto, não tanto quanto importava ao fazermos nossos planos tentando cumpri-los até o dia terminar. Eu tô em melancolia, né? é tão obvio, mas é que sou sozinho, e embora a solidão não me assuste, sem você é tão ruim. Eu li três vezes aquele recadinho que ficava no meu quadro de metal, onde você com a sua letra tortinha e minuscula dizia gostar muito de ficar comigo, congelei, congelei esse momento uns 10 segundos. Agora eu estiquei minhas pernas e ainda tô olhando a xícara como se por algum instante pudesse rever você dando uma bicada nesse café; na esperança de te dar o adeus que não tive tempo por conta da sua pressa, alcancei a xícara e beberiquei a ultima gota, te dei tchau amor, te dei tchau num café amargo da xícara borrada com seu batom.
Adeus iaiá.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Quimeras Abortadas
De TodoDevaneios, ilusões, pseudo-conclusões, questionamentos. Sou o que escrevo.
