Pedaços

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Eu tenho pedaços, pedaços destes dias retalhados, o inverno começou, tanta chuva, o tempo está louco e se arrasta pelas ruas contra a vontade de pessoas desesperadamente apressadas em comprar, em correr, arrumar, trabalhar, ajeitar, lutar por, o quê? Ninguém pergunta, ninguém sabe. As pessoas estão loucas, idosos sem lugar, crianças na rua, parquinhos destruídos, terroristas pelos países e tudo, tudo que todo mundo faz parece carecer de um sentido maior. Falta luz, ainda que meio dia e sol a pico alto, falta o quente no peito. Que desespero, que (des)esperança, expectativa. Me ocorre pensamentos, será que ainda se falam? Será que as pessoas ainda combinam? Me encontra naquela praça vamos falar da saudade que sentimos da infância, das ruas de terra, da lama nos vãos das unhas, dos velhos fumando cachimbo quando ninguém morria por fumar. Houve mesmo uma época em que todo mundo parecia imortal, mas alguem parece ter derrubado o mundo por alguns segundos e quando voltou à posição, uma bagunça. Balas culpadas em corpos inocentes, desiste meu bem, a vida é isso aí, vamos fechar a tua escola, vamos tirar o teu ensino, vamos te prender mais cedo e felizes estações pra você, seja verão, inverno, outono, quiçá... A bateria acabando, a torneira pingando, uma criança berrando porque não ganhou, a mãe está louca e grita e o choro aumenta e os tapas depois, o mundo está louco, eu sei, mas aqui dentro tem uma estrela cadente que corta o céu do meu peito toda santa noite, quando eu fecho os olhos e digo assim com fé: que amanhã seja melhor. Mas esses pedaços que tenho, esses fragmentos do que tem passado como um filme rápido e com roteiro ruim diante dos meus olhos, são inúteis, não dão poesia, não tem rima, porque tudo que vejo agora no mundo não possui beleza alguma, singularidade especial nenhuma. Por favor, vire essa esquina quem sabe na próxima quadra vou encontrar o sorriso perdido de alguém perto da boca do bueiro entupido por saquinhos de cocaína. Nada. E quando fecho os olhos e imagino uma viagem, duas, três, que mundo enorme, que covardia essa nossa existência miudinha, que ousadia os mundos caberem num abraço, que felicidade ter minha mãe, meus irmãos, minha pequena que me abraçam e me amam no meio desses dias marrons e tudo fica bem de repente, mas e esse mundo gigante e sem deus, quem abraça? Duas horas passam de repente voando na minha frente, irônicas, nuvens de chuva que nascem do nada para derreter torrenciais e voltar à ausência de ser. Não tenho lido. Vejo aos facebooks afora citações, do velho machista Bukowski, e até aquele cara excêntrico que inventa uns mistérios convincentes, Dan Brown. Tenho ouvido umas músicas tristes e vocais rasgados, I see you soon? Canta Chris Martin do tão antigo é tão novo Coldplay. Empacotam a cidade com luzes que ao invés de iluminar, apenas lançam sombras loucas. Até as piadas andam tristes, os pássaros silenciosos, todo mundo se olha com pesar, como se velássemos todos uma dor que desconhecemos. Sanduíches baratos, cerveja quente, vômitos azedos, crianças e seus smartphones, eu não sei mais levantar da poltrona e dizer eu vou. Alguém, por favor, apareça na minha porta com um chá e uma aspirina? As graças entre os amigos, o colo da mãe, o vento fresco que bate, a cidade está azul, ninguém mais viu? Quero me enfiar entre almofadas, programas de TV e sucos de caixinha. A cidade está do avesso, alguém percebeu? Ou sobrei só. Ou sobrei sóbria. Mas ter entre esses dias uma alegria sincera é raro, viu, a gente tem que buscar, arrancar com a unha. Ser feliz eu sou, tu és, eles são, mas as unhas quebradas e dedos calejados de cavar sempre a terra dura em busca do que é precioso. Existe também uma escuridão incompreensível nas pessoas, que de repente viraram juízes, que de repente dominaram o bom senso, que de repente sabem o que é bom e o que é mau, sem nem saber que esses lados não existem. O bem e o mal não existem, ambos são uma coisa só, cada um é os dois ou os dois são nenhum. E o gosto estético nasce e morre na minha própria cabeça, a minha moda é minha cara inchada segunda-feira às quatro da tarde. Ninguém me veste, me deixa voar, eu sou o meu próprio deus na Terra, não desmerecendo o que há no céu. E aí me lembrei do dia, as cores são escuras, mas antes de dormir fecho os olhos e digo assim com fé: que amanhã seja melhor. Óculos 3D não é nenhum milagre, eu quero ver de perto gente que vê dentro da gente. A praia tá suja, o mar agora é lama e amanhã é dia três. Dizem que nada vai mudar, mas aqui dentro um bicho se mexe e repete com voz de monge – seja a mudança que você quer ver no mundo. Eu deixo a cabeça doer de tanto pensar e concluo: amanhã será melhor se eu for melhor. A estrela que risca meu peito, agora é um cometa luminoso e sedento por uma explosão que vai culminar em um milhão de sorrisos ao meu redor. Sorrio, encerro o texto, refaço meu caminho, escolho por onde seguir e digo sim. Os pedaços são só retalhos, a obra final fica pronta quando eu entender que luzes iluminam sim e que as sombras... bom, tudo tem sua consequência. O último pensamento antes de adormecer é esse, nossa mera existência é uma consequência. Dormiremos em paz. Quiça. Pedaços. Despedacei.

Quimeras AbortadasOnde histórias criam vida. Descubra agora