Outra noite vi um homem recolhendo desejos do fundo de uma fonte. No céu as estrelas pareciam cicatrizes fosforescentes. Doíam só de olhar. Tenho me arriscado cada vez menos. Com o receio científico de quem espera do outro não mais que a ironia ou a agressão escondida. Pergunta que sempre me faço ao entrar ou sair: o que há por detrás das portas que não abri? Hoje conjuguei a palavra desapego no pretérito-mais-que-perfeito. Tempo verbal em que vivemos. Às vezes me ocorre se o que conquistamos verdadeiramente se perde. O tempo transforma tudo em ruínas. Exceto as coisas invisivelmente construídas. De todas as pobrezas do mundo, as de espírito são as que mais me preocupam. Não é que fôssemos avarentos. Éramos dois mendigos. Não tínhamos nada a oferecer, nem a nós mesmos. Queria que ela fosse tão boa em ler quanto é ao escrever. Felizes os que ainda conseguem enxergar doçuras em um mundo de tantas amarguras. Sou uma exceção à regra. Minha vida é um espetáculo babilônico. Tudo o que toco vira pedra. Se é mesmo verdade que o hábito faz o monge, a prolongada convivência com as estátuas me transformou em uma delas. À parte isto, temos trocado olhares significativos e a nossa luta diária pela renascença parece a cada hora menos crua. Somos grosseiros demais para lidar com as fragilidades da alma, experimentemos, pois, a dura provação de ter a carne cimentada, e regozijemo-nos em ser transformados em criaturas inanimadas, pairando, moribundas, sob a escuridão nebulenta. Sonhos são bolhas que a realidade estoura. Minha cabeça é um planeta cheio de vento e som e fúria e raios e água e terra e éter e fogo e gelo, em uma combustão sobrenatural de alumbramentos. Tem alguma coisa me comprimindo o peito. E, seja lá o que for, está doendo. Deve ser angústia, talvez medo, ou, quem sabe, seja apenas desespero. Há sentimentos que não dominaremos com palavras. O que faço para não ser tragada por esta finitude irredutível de tudo, senhor? Rezo. Mil cairão ao teu lado, dez mil a tua direita, e tu, coração burro, vai cair junto! Tem sete mil quinhentos e vinte quatro pássaros se debatendo dentro do meu peito. Meu ato inaugural: desintegrar no espaço e vadiar pelas galáxias como quem se achou e se perdeu entre as partículas de uma criminosa e violenta explosão final.
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Quimeras Abortadas
RandomDevaneios, ilusões, pseudo-conclusões, questionamentos. Sou o que escrevo.
