Eu questiono em mim o desejo de querer me chamar pra tomar bem devagar talvez uma cerveja gelada, e reclamar que a garganta anda meio ruim, cigarro demais, frases demais que ensaiei e não botei pra fora, palavras atravessadas, declarações engavetadas num domingo sem coragem. Dá vontade sim de reservar uma mesa um pouco perto da luminária antiga que é pra conseguir olhar o fundo de um prato branco qualquer sob a luz mostarda, olhando lá pra fora a lua que parece quente de tão cheia numa irônica noite fria de verão. Me levar num lugar bonito por me achar linda e achar ainda mais bela a existência desse sentimento que ainda não precisa ter nome nem forma, deveríamos sim aproveitar mais do nosso tempo com nós mesmos e com essas palavras cruas quero também fomentar esse desejo em você. Existe um sopro de vida que não sabemos definir quando a gente se enche da gente mesmo de uma maneira boa, lúcida até. Enquanto não reservo mesa ou me chamo pra cerveja, me reservo aqui mentalmente, fico aqui porque quero falar dessas coisas não ditas, depositadas em diários que ninguém leu e não vai ler, pichadas em banheiros sujos de azulejos encardidos, desenhadas na areia do parquinho enquanto eu sentava no balanço e girava sem me preocupar nem mesmo se ia cair após o giro desgovernado, numa tardezinha de picolés a 50 centavos, uma benção.
Consigo parar agora e pensar estar ouvindo um batuque que emana do som na varanda atrás de um bar qualquer, que envolve e aquece os corpos dançantes. No íntimo, escondido no fundo de almas, como uma criança tímida e medrosa, a cada batuque esse sentimento cresce. E cresce outra vez. O sentimento cresce até se tornar um adulto corajoso com o peito cheio de selvageria, louco para gritar em ouvidos pacientes que agora é, que nasceu e cresceu, que precisa sair desse meu corpo jovem para assim, tão bonito e livre, existir. E esse sentimento órfão e cru e inteiro quer existir em pessoas, em lugares, em mais do que apenas isso que sou. Penso tudo isso, mas só. Porque sei que se alguém me ouvir dizer isso que agora escrevo reviraria os olhos pro meu papo sem jeito e batucaria os pés no mesmo ritmo do som que vem da varanda e que chega para ca, misturado a vozes bêbadas e corpos entrelaçados, insinuações, tentativas, jogos sexuais ao redor e brilharíamos numa redoma, inexecutáveis e imunes. Eu provavelmente começaria a te contar sobre como fui parar ali, com a voz falhando – a garganta ainda dói, penso que preciso mesmo parar com o cigarro – e te digo, ou te conto, confidencio, porque não estamos tendo uma conversa, eu estou me despindo inteiro nessa mesa mal iluminada enquanto voce nem existe me assiste, nem sei quem és, nem criei um personagem pra você. Tanto trauma, me envergonho, retrocedo, quanto é saudável deixar que alguém me conheça? Quanto de mim é compreensível ao outro? Quanto de cada um de nós tem a capacidade de assimilar e aceitar o outro, livre de julgamentos? Mas eu me dispo inteira e ainda nua, ainda fria, ainda tímida e afundada em medos, porque naquele mesmo parquinho que tinha giros e despreocupações, fora cenário do fim da minha infância, e não sei se agora soaria compreensível, essa falta de compreensão me apaga, me esfria ainda mais e eu sinto que existir está bem no intervalo do segundo que alguém me compreende. Mas será quem?
Me desculpo escolher esse lugar, onde o vento bate um pouco mais forte, minha cerveja ainda na metade, preferia então ter escolhido um café. Embaixo da mesa, não há joelhos que se esbarrem como com pessoas distraídas numa multidão apressada. Meu corpo se retrai não tem desejos. Não há mãos que se seguram gentis e então é minha vez, eu me compreendo. O batuque continua, agora mais lento, ouço talvez um violão de nylon desafinado, um acorde de guitarra e meu peito vibra com a descoberta da história que agora reconto mexendo os lábios em ondas hipnóticas sem som. Eu me ouço, por dentro, eu me traduzo, eu me decifro e me conheço – e é nesse momento que eu quero morar em mim, porque sei que é o único lugar que posso enfim morar. Embora num tempo desse tive medo dessa casa, me parecia suja, isolada, com gramas altas e cachorros a latir de maneira assombrosa, eu tive medo. A garota sozinha, corria pra debaixo da cama, com medo sabia de que, sabia de quem, mas ninguém podia evitar, um rei das terras de ninguém, o anjo nascido sem asas numa realidade marginal e nada. Observo agora lento minhas pintas, um espelho, meus olhos que ardem como uma brasa ameaçada de extinção, eu me fito e me corrompo, depois sorrio gentil e me reconstruo, e esse amontoado de sensações me torna ainda mais eu, até que meu joelho encosta firme um no outro e eu penso:
Será que basta viver aqui?
Será que a imaginação basta mesmo quando só precisamos falar um pouco mais de nós pra nós mesmos? daí me transformei num conto mal escrito. A dor na garganta aumenta enquanto eu volto pra casa, pra fora da mente, onde consigo criar parquinhos, lembrar cirandas, corridas pra debaixo da cama e até o medo de morar em mim. Hoje, outra irônica noite fria de verão, outro encontro amargo para engolir.
Eu em mim.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Quimeras Abortadas
RandomDevaneios, ilusões, pseudo-conclusões, questionamentos. Sou o que escrevo.
